Alencar Sete Cordas (1951-2011)

 

Com a foto do mestre Alencar, encerramos mais este blog. Motivaram a existência deste e do anterior www.blogdochoro.zip.net a chance de disponibilizar, com o surgimento da internet, as informações acumuladas durante anos de pesquisa (recortes de jornais, livros, discos, etc.), e também a vontade de escrever diante de algumas críticas lidas em grandes jornais onde se afirmava, por exemplo, que Pixinguinha no sax estava defasado em relação a Charlie Parker ou que Adoniran Barbosa era compositor de 2ª categoria frente aos compositores cariocas. Bem, se mídia tradicional poderia fazer isso impunemente porque nós mesmos não poderíamos errar ao escrever? Obrigado aos amigos que comigo conviveram este tempo.
Hélio

MILTON MORI (1) quando a ficha cai




Você começa a ouvir dizer aqui e ali: “ele compõe muito bem”, comentou o mestre Izaias de Almeida – ou - “escuta isso aqui” disse entusiasmado o saxofonista Paulo Pascali, antes de tocar Um Chorinho pro João Macacão. Eram informações esparsas, como esparsos eram seus choros, distribuídos em vários CDs, sem que você pudesse ter uma idéia do conjunto da obra. Até que apareceu Saudades de Radamés – choro acachapante de tão bonito, gravado numa bela coletânea com outros compositores de peso, Panorama do Choro Paulistano Contemporâneo. Mas este chamou muito a atenção – a ponto de, ao comentar com o violonista Marco Bailão, ele dizer, coincidentemente, que havia alertado a outras pessoas para que ouvissem justamente este choro.

Pois é, nascia para este blogueiro um grande compositor: Milton Mori (conhecido também como Tachinha ou Miltinho). Daí a percorrer seu repertório disperso foi um pulo. Seu estilo então surgiu cristalino, um artesão no trato da harmonia e um inspirado melodista.

Tudo isso poderá ser ouvido no programa especial que Gustavo Simão, o Guta do Pandeiro, preparou para esta ocasião: www.redebrasilatual.com.br (clicar pela ordem em “Rádio” - “Programas” - “Clube do Choro”)

MILTON MORI (2) entrevista

1 - Como virou músico de choro? Seus familiares eram músicos?
Sim, meu pai era músico amador e tocava acordeon, violão, cavaquinho e um pouquinho de bandolim, além dele ser primo do bandolinista Élio do Bandolim, enfim podemos dizer que eu tive uma família musical.

2 - O que gostava de ouvir, algo o marcou?
Sempre gostei de ouvir de tudo, desde Choros, Valsas, Polcas, Sambas, Jazz, Roberto Carlos, Beatles e muitos outros, mas acho que me marcou muito em minha formação foi a liberdade de criação Harmônica e Melódica que os jazzistas tinham sobre o tema e eu sempre procurei passar isso pro meu estilo e minhas músicas.

3 - Com quem estudou? Ou então, caso não tenha estudado formalmente, quem lhe deu boas dicas, quem de alguma forma o orientou?
Hélio, você sabe muito bem que o músico nunca pára de estudar, aprender, descobrir novidades e se modificar ao longo de sua carreira, mas meu começo foi praticamente igual a todos os músicos de uma forma geral. Iniciei minha caminhada musical aos 5 anos de idade com meu pai estudando o violão e cavaquinho; dos 10 aos 12 anos estudei um pouco de acordeon e foi dos 17 pra 18 anos que comecei a me interessar pelo bandolim.
Cursei 3 anos de teoria musical em um conservatório próximo onde morava mas não posso deixar de dizer que a melhor escola pra um chorão é mesmo ficar em casa tirando notinha por notinha de ouvido dos nossos tesouros musicais que são aqueles velhos LPs e discos de massa 78 rotações que nossos verdadeiros mestres deixaram não apenas pra nós (os jovens aprendizes) mas pro Mundo!
Não posso esquecer que bem no começo, quando estudava o bandolim, o grande Evandro do Bandolim lá na casa de instrumentos Del Vecchio, onde ele trabalhava, me deu muitas dicas de posicionamentos dos dedos, palhetadas alternadas e às vezes corrigia uma nota ou outra que eu tinha tirado errado das gravações, mas também tem a turma de chorões da antiga que está sempre pegando em nosso pé (no bom sentido) pra aumentar repertório, pra não fazer isso, pra fazer aquilo, corrigindo também melodias, notas e harmonias que fazemos errado, enfim, a soma de tudo isso mais alguns livros de harmonia, improvisações e métodos de arranjos que acabamos lendo e estudando no decorrer de nossas vidas fazem com que nós, músicos, cada vez tenhamos maiores conhecimentos e possamos transformar isso tudo em Musica!


4 - Gostaria demais de saber o processo de suas composições. Não é incomum excelentes compositores autodidatas, grandes melodistas, porém, não é tão comum que componham tão bem formalmente falando - penso em choros como o que fez para o João Macacão ou o Saudades de Radamés, por exemplo. Ou a modulação da 2ª parte do Choro pro Mário, que além de
fantástica é perfeita.
Amigo Helio, posso te afirmar que todos os músicos que interpretam, compõe e improvisam, sofrem influências diretas ou indiretas do que ouve, mais isso não é tudo, leva-se em consideração o grau de criatividade de cada um e os conhecimento teóricos tanto na parte harmônica ou melódica. No meu caso não é diferente, quando componho ( raramente rsrsrs ) naturalmente acabo deixando me influenciar pelo que esta a minha volta, mas também em minhas composições que em 99,9% são dedicadas a pessoas próximas ou nas quais eu não tive oportunidades de conhecer pessoalmente, que é o caso de Radamés, Pixinguinha e Benedito Lacerda entre outros, fico tentando tirar algo que faça lembrar as pessoas homenageadas em minhas composições.

5 - Você se considera essencialmente um bandolinista? Tocando tão bem tantos instrumentos...
Não, sinceramente não me considero essencialmente um bandolinista nem cavaquinista... e tão pouco violonista apesar de tocar esses instrumentos relativamente bem.
Por que digo isso? Se me dedicasse inteiramente a apenas um instrumento com certeza teria muito mais facilidade em explorá-lo a fundo com maior perfeição, mas por outro lado, tocando outros instrumentos faz de você um músico com uma visão geral mais ampliada alem de abrir o leque em relação a trabalhos.


6 - Quando vai gravar um CD autoral? Nunca pensou nisso?
Estou sem tempo pra isso pois tenho um vida bastante corrida com outros afazeres e não sobra tempo nem pra pensar, mas logicamente que já pensei nisso e quem sabe mais pra frente!

7 - O que escuta hoje em dia?
Como já havia citado anteriormente continuo a ouvir de tudo (só o que me agrada) mas às vezes é bom ficar um tempo sem ouvir nada, também ajuda a relaxar a cabeça um pouco, não é?

8 - Mais ou menos quantas composições você tem?
Sabe que nunca contei! Não são muitas , acho que umas 15 ou 16 composições.

9 - Eu reuni composições suas retiradas de vários CDs - e gostaria colocar no blog para as pessoas conhecerem sua obra. Posso?
Como iria negar! Fico muito feliz em dividir um pouco as minhas composições para nossos amigos que tem interesse em conhecer novos compositores, pois tenho certeza que tem muitas músicas boas perdidas pelo Brasil.

10 - Além de tantos trabalhos profissionais que você faz, o que pensa em fazer atualmente relacionado a seu grupo.

Atualmente eu faço parte dos músicos que acompanham os "Demonios da Garôa" e viajamos bastante - não sobra muito tempo pra pensar em meu grupo, por isso raramente eu tenho tocado choro ( infelizmente ) mas quem sabe num futuro não tão distante eu retome as atividades com solista de bandolim com um trabalho novo, me aguardem!

Helio, mais uma vez muito obrigado pela lembrança e espero ter contribuído para o blog falando um pouco de minha trajetória como músico podendo ser fonte de inspiração para novos amigos que desejarem entrar nessa grande roda musical, espero que tenha muito sucesso! Pode contar comigo quando precisar.

MILTON MORI (3) obra disponibilizada

Gentilmente, Milton Mori cedeu sua obra gravada para que disponibilizássemos unida, como em um CD autoral, enquanto o prometido e verdadeiro CD próprio não vier.

Link para baixar: http://www.megaupload.com/?d=X5UPRTUX

 

1 Valsa das Mães ( dedicada a minha mãe ) tocada por Milton Mori em gravação caseira feita por volta de 1985 e composta por volta de 1982 ( foi minha 1ª composição )

2 Doutor Sax ( dedicada ao Dr Edson Mello ) tocada por Adriano Amorim e composta em 17/01/1990

3 Harmonia Forçada ( inspirada no violonista Mário Eugenio ) tocada pelo Conjunto Lua de Prata com Nando ao Bandolim e composta em 01/04/1991

4 Um Chorinho para o João Macacão ( dedicado ao João Macacão ) tocada por Milton Mori e Rosária Gatti e composta em 13/12/1993

5 Um Chorinho para o João Macacão – versão Izaias e Israel de Almeida

6 Meus Sentimentos ( dedicado ao Joãozinho do cavaco ) tocada por Milton Mori e Rosaria Gatti e composta no ano de 1993

7 Sorriso de Criança  ( dedicado ao meu filho ) tocada por Milton Mori e composta em 17/10/94

8 Sorriso de Criança – outra versão Milton Mori

9 Chegando Atrasado ( dedicado ao amigo Stanley do clarinete ) Tocada por Milton e Stanley e composta em 1996

10 Choro pro Mário ( dedicado ao Mário Eugênio ) tocado por Milton Mori e Mário Eugênio e composta em junho de 1997

11 Choro pro Mário – versão Danilo Brito

12 Choro pro Melito ( dedicado ao Melito ) tocado pelo conjunto Lua de Prata e composta por Milton Mori e Adauto Alves em outubro/2000

13 Choro pro Melito – versão Milton Mori

14 Chorinho Brasil ( dedicado ao Programa Chorinho Brasil na radio Boa Nova ) tocado por Milton/Stanley e Rosaria Gatti e composta por Milton/Stanley e Zé Barbeiro em 98

15 Relembrando Pixinguinha e Benedito Lacerda ( dedicado a essa fantástica dupla ) tocada por Léa Freira na flauta e Jotage Alves no Clarone e composta em 1999

16 Obrigado Baloy ( dedicado ao amigo Baloy ) tocada pelo Bombarda/Stanley/Jotage e Léa Freire e composta em dezembro/1997

17 Passando o tempo ( não tem dedicação ) tocada por pelo Murilo do Cavaco e composta em 2004

18 Saudades de Radamés ( dedicada ao grande maestro Radamés Gnattali ) e tocada por Alexandre Ribeiro Clarinete e Clarone e João Poleto Sax-Tenor e Flauta e composta em fevereiro/2009

JOSÉ PEIXOTO & FERNANDO JÚDICE - Carinhoso: Música de Pixinguinha e Outros Choros (2002)


Um disco essencialmente de choro sem balanço, sem improvisação. E não seria descabido adicionarmos: sem arranjo – porque, embora eles existam (muito bem feitos na divisão das partes do baixo e do violão) as interpretações partem claramente das partituras originais, obedecendo rigorosamente a estrutura dos choros, melódica, harmônica e ritmicamente.

 

Todos os ingredientes para ser um disco sem graça se o choro fosse somente isso. Mas não é mesmo! Sobra neste disco algo que anda em falta: alma.

 

O espírito do Madredeus está presente (os dois músicos fizeram parte do grupo) com a sua placidez, bom gosto, sua aura característica.

 

Salta aos olhos a proposital lentidão imprimida em algumas faixas. Tocadas com rara sensibilidade, revelam alguns segredos que passam despercebidos quando as ouvimos em maior velocidade. Não foi Hermínio Bello de Carvalho que disse certa vez que, lentamente, o 1x0 de Pixinguinha acusava passagens de forte melancolia? Não se pretende dizer que tudo que é lento seja melhor, é apenas uma visão original e corajosa.

 

Em tempo de tanta exasperação, este trabalho parece deslocado em seu tempo.

0S SORRISOS DO CHORO

Os Sorrisos do Choro, livro recém lançado de Julie Koidin, entre todas as virtudes, tem uma rara: as perguntas; vão direto ao ponto - excelente para quem quer saber o que pensa realmente o músico de choro. Talvez por ser estrangeira tenha tido essa visão peculiar, entre a curiosidade e o didatismo.

http://choromusic.com.br/livro-sorrisoschoro.htm

 

Lembrete:

 

ARQUIVO HISTÓRICO DO CHORO PODERÁ SER TRANSMITIDO EM IMAGEM DIGITAL ?

 

Em uma das entrevistas do livro, o bandolinista Izaias de Almeida faz referência aos programas da TV Cultura realizados durante a década de 1970:

O Choro das Sextas-Feiras, A Alegria do Choro, e outro do qual não me lembro o nome, mas sempre focalizando o choro, e para os quais artistas do Rio e de São Paulo eram convidados a tocar choro.”

Pois bem, o canal MULTICULTURA (*), que tem a finalidade de passar na íntegra antigos programas de seu acervo, ainda não “desarquivou” os programas históricos de chorinho aos quais Izaias se refere. Não seria o caso de nós, os chorões, enviarmos ao site do MULTICULTURA tal pedido?

 

(*) http://www.multicultura.com.br/

 

Tem acesso a este e a outros canais de cultura quem possue o conversor digital (o site explica como adquirir). A propósito: a imagem proporcionada pelo conversor, incluindo todos os canais abertos, é igual ou melhor do que as TVs a cabo e tem a vantagem de ser gratuita.

CARTA ABERTA À IZAIAS DE ALMEIDA


Sem fazer muita força, dá pra lembrar de Jacob do Bandolim no choro, Lester Young e Charlie Christian no jazz e Sergiu Celibidache na música clássica: todos esses grandes músicos tiveram momentos de imenso brilho registrados por acaso, com gravações caseiras ou piratas, onde revelaram-se muito maiores do que se supunham. Ressalte-se, para quem não acompanhava seus recitais. Porque, os que puderam ter este deleite, certamente sentiram a mesma perplexidade que nós quando ouvimos Izaias de Almeida improvisando com liberdade. Mas como isto não é registrado?!?

Izaias de Almeida toca de graça toda 6ª feira no Estúdio do Silvinho que é aberto ao público. Quem tiver a oportunidade de ouvi-lo interpretar, Mágoas, de Jacob do Bandolim, ou Ingênuo, de Pixinguinha, livre de todas as amarras, em versões matadoras de 10 minutos, saberá do que falamos...

Pedido de um fã: Izaias, grave um CD nos moldes do pirata SARAU de Jacob do Bandolim.

O PIANO DE JOEL NASCIMENTO


A pianista Luciana Gastaldi gravou em 2001 um CD revelando um lado desconhecido do bandolinista Joel Nascimento: o do compositor para piano. Idealizadora do projeto, a pianista ainda contou com a participação da flautista Rosana Moraes em uma das peças e do próprio Joel Nascimento nas quatro faixas finais em que interpretam outros compositores - Eduardo Souto (Despertar da Montanha), Anacleto de Medeiros (Terna Saudade) e duas peças da Suíte Retratos de Radamés Gnattali (valsa e schottisch). O belíssimo arranjo de Terna Saudade é aquele mesmo que Luís Otávio Braga dedicou a Joel Nascimento e que foi incluído no disco “Tocar” da Camerata Carioca. Esta redução para piano e bandolim é tão bem feita que até parece pensada originalmente para esta formação.

A seguir, Joel explica o teor de suas composições, sobre sua intenção original de ser pianista e sobre o seu disco “Tributo a Jacob do Bandolim”, de 1979, e todas as polêmicas que cercaram sua feitura.

 

Pode falar um pouco sobre suas obras para piano?
As minhas composições apresentadas neste trabalho são frutos do meu amor ao piano que nos momentos de saudades sou levado a compor. Sou um músico aberto a todas as tendências musicais.

 

Sem preconceito...
O músico tem o dever de abrir os seus conhecimentos dentro de toda a literatura musical. As minhas músicas estão dentro deste pensamento, dentro da minha cultura auditiva sem preconceitos e radicalismos que limitam em muito o desenvolvimento cultural do músico.

 

No encarte do CD você diz: “são peças simples, sem pretensão, que preenchem, em parte, todo o silêncio que ficou em minha carreira de músico.” Seu ideal artístico realmente era o piano?

Como você deve saber eu estudei piano clássico, abandonando os estudos por um problema auditivo. A minha meta era ser um concertista de piano clássico e devido a perda total da audição do ouvido direito, num processo irreversível, eu abandonei os estudos. Sou um romântico chopiniano. As pessoas perguntam: por que você largou o piano devido a surdez e toca bandolim? A didática do piano é muito superior à do bandolim e requer anos de estudos. É um instrumento com uma grande extensão dos graves aos agudos. Um ouvido só prejudica em muito ouvir ambas as regiões ao mesmo tempo. O meu problema foi a perda de agudos do ouvido esquerdo. Até hoje eu tenho muita dificuldade para tocar e estou sempre lutando para me adaptar às deficiências apresentadas. É muito sofrido tocar notas que você não houve.


Imagino... Você continua compondo?

Além das músicas gravadas no CD com a Luciana eu tenho outras escritas para piano que gosto muito.


Fale sobre a origem da grande revolução que foi a transcrição da Suíte Retratos de Radamés Gnattali.

A minha atuação dentro do choro se resume apenas à nova concepção implantada aos tradicionais conjuntos regionais a partir da idéia e do pedido meu feito a Radamés Gnattali para transcrever a  parte da orquestra da Suíte Retratos para esta formação instrumental.

 

Você diz apenas!?!?! A versão exclusiva para conjunto de choro abriu possibilidades para o músico que a versão original para orquestra e conjunto de choro não trazia. Tornou-se uma referência para novos arranjos e novas formações. E acabou sendo mais influente que a própria gravação original de Jacob com orquestra.

O conjunto de 3 violões, cavaquinho e pandeiro passou a apresentar uma forma camerística jamais concebida a esta formação regional. Esta nova versão foi dedicada ao meu conjunto pelo Maestro Radamés - para o conjunto do Joel - escreveu ele na capa da partitura da obra. O grupo que reuni para tocar esta nova versão ganhou mais tarde o nome de Camerata Carioca.

 

Raphael Rabello pertencia a seu grupo na gravação da suíte, mas ainda não era a Camerata.

Rafael Rabello, Luciana Rabello e Celso Siiva não gravaram com a Camerata Carioca e sim no grupo formado por mim para tocar a Suite Retratos. Na época da gravação não existia o nome Camerta. Estas informações e detalhes sobre a minha carreira estão no site Dicionário Ricardo Cravo Albin. Não deixe de ler no mesmo bloco o que se refere à Camerata Carioca.

 

Bem, voltando ao seu CD com Luciana Gastaldi: como adquirir esta raridade? Não está esgotado?

Vou ver se consigo alguns CDs da gravação.

 

Avise-nos, assim que conseguir, por favor.

  A pianista Luciana Gastaldi

 

(*) Sobre a polêmica criação da Camerata Carioca, a história é bem simples: a Camerata não existia quando da gravação do famoso disco Tributo a Jacob do Bandolim – o disco era exclusivamente de Joel Nascimento e o nome do conjunto foi colocado na capa posteriormente (nem mesmo o nome de Radamés Gnattali deveria ter saído na capa frontal). Não se trata aqui de algo secundário ou de mera vaidade de Joel quando ressalta o fato: este disco é um absoluto divisor de águas e por dever histórico a correção faz-se necessária.

ENTREVISTA: JORGE CARDOSO - PARTE 1


  

1 - Você que morou na Itália: se tivesse de explicar para um estrangeiro as características do bandolinista brasileiro atual, como faria? Dividiria por correntes?

JC – Estou finalizando mestrado “Música em Contexto” na Universidade de Brasília sobre esta temática: “A tradição na Escola do Bandolim Brasileiro”. Pelo fato de ter uma formação informal como músico e bandolinista no Brasil, pela prática da música popular brasileira e ser diplomado em bandolim clássico na Itália tenho muitas reflexões sobre esta temática.

Explicar nossa forma de tocar, uma dita “escola” do bandolim não seria uma tarefa simples para uma breve descrição. No Brasil, temos a prática predominante do bandolim na música popular e o Choro é o gênero ao qual se dedicam a maior parte dos mais famosos bandolinistas. Em minha pesquisa, observei indícios de bandolinistas brasileiros, antes de Jacob do Bandolim, que tinham seu estilo muito próximo à escola italiana de bandolim. Notamos uma infinidade de nomes de bandolinistas pouco lembrados deste período tais como: os gaúchos Otavio Dutra (03/12/1884 – 09/06/1937), que foi professor de Amador Pinho e Pery Cunha  (Eraldin Fontoura Cunha, 24/08/1902 - ?), João Miranda, irmão de Luperce Miranda e do cavaquinista Nelson Alves (que tocava cavaquinho na afinação de bandolim).

O livro “O Choro”(1936) escrito pelo carteiro e músico Alexandre Gonçalves Pinto cita Luperce Miranda, João Soares (1870 - 1930), Nadinho, Tuti, Ernesto Cardoso, Chico Netto (década de 30, também funcionário dos correios como o autor do livro, 1936). Temos também João Martins, que realizou gravações na Victor em 1929, Beto Bandolim / Adalberto Azevedo (25/out/1896 - 1969, RJ), José Alves Lima (bandolinista participante dos Oito Batutas).

Um destes bandolinistas influenciou a carreira do cavaquinista Waldyr Azevedo: Aristides Júlio de Oliveira, de apelido “Moleque Diabo”, instrumentista (banjo, violão, bandolim) e compositor (Rio de Janeiro (?) – 05/02/1938, Rio de Janeiro). Segundo nossa pesquisa, ele teria participado do Grupo “Os Oito Batutas” em viagem deste grupo à Argentina.

A pesquisa realizada por Alexandre Dias (2010) sobre a discografia das obras de Ernesto Nazareth nos forneceu dados sobre bandolinistas nos primórdios das gravações mecânicas no Brasil. Inicialmente, aproximadamente entre 1908  e 1910, foi gravado “Bambino” de Ernesto Nazareth pelo Grupo de “Bahianinho”, em solo de bandolim e conjunto. A gravação original em 78-RPM, pela gravadora Columbia Records, referencia 12.095 foi relançada no LP/CD "Portuguese String Music 1908-1931" (HT CD 05) pela Heritage Records (Inglaterra), fabricado na França em 1989. O “Grupo dos Sustenidos” também realizou gravação de solo de bandolim da mesma música em 1912 (Odeon Record, referência 120.144). No mesmo período, foi gravado o “Brejeiro” de E. Nazareth pelo Grupo de “Bahianinho”, em solo de bandolim e conjunto (78-RPM, pela gravadora Columbia Records, referência B-200).

Para buscar sintetizar em poucas palavras, podemos de forma resumida afirmar que Jacob do Bandolim “construiu” uma tradição de se tocar este instrumento no Brasil. Um argumento que comprova esta afirmação se deu na pesquisa do Prof. Dr. Paulo de Sá (mestrado, 1999 e doutorado, 2005) que em contatos com bandolinistas e estudiosos portugueses constatou que o modelo de bandolim de Jacob, como uma mini guitarra portuguesa nunca teria sido utilizado em Portugal. Jacob teria idealizado um modelo de bandolim, que foi construído por um luthier português residente no Rio de Janeiro, de nome Silva, segundo informações de colegas músicos e pesquisadores. Jacob nos legou também outro fator importante: o acervo de pesquisa sobre os compositores da nossa música popular instrumental. Ele imortalizou peças que eram esquecidas e transmitiu às novas gerações de bandolinistas por meio de suas gravações. Um dos compositores bandolinistas que Jacob imortalizou foi Juventino Maciel (1926 - 1993, RJ) em seu último LP “Vibrações”, já com o conjunto Época de Ouro.

As correntes de bandolinistas serão divididas por mim em minha pesquisa. Espero poder publicá-la em breve.

 

2 - Poderia citar alguns bandolinistas que em sua opinião pertencem a uma corrente ou outra?

JC – Na resposta anterior, citei nomes de um primeiro período do bandolim, estimado de 1870 a 1930 aproximadamente. Neste período, temos o Rio de Janeiro como “palco” do que acontecia no Brasil em matéria de produção cultural. Ressaltamos também que em outras regiões brasileiras tínhamos atividades com o bandolim. Uma prova desta afirmação são os casos de músicos que migraram do nordeste e do sul do Brasil até o Rio de Janeiro. No passado, por exemplo, temos os gaúchos Pery Cunha, bandolim, Jessé Silva, Violão 7 cordas e Otavio Dutra acima citado, que foram ao Rio mostrar seus trabalhos. Desta localidade, temos dois importantes exemplos: Radamés Gnattali e de Chiquinho do Acordeon. Do Nordeste, foram para o Rio de Janeiro: Luperce Miranda e família, Jaime Florence (o Meira) Severino Rangel (o Ratinho), João Pernambuco, Rossini Ferreira e o multi-instrumentista cearense Zé Menezes, dentre vários.

            As correntes do bandolim brasileiro “após Jacob” são várias. Temos exemplos de significativa diversidade como é o caso do baiano Armandinho Macedo e Joel Nascimento. São formas de tocar que foram sedimentadas no contexto social onde atuaram estes excelentes músicos.   


3 - Você gravou um belo CD com a obra de Dinaldo Domingues. Parece um caminho bastante interessante para o choro, isto é, o intérprete alavancando um compositor. Isto foi comum na música erudita, muitos compositores tiveram seus méritos reconhecidos em vida graças à aproximação de grandes regentes ou instrumentistas que se interessaram em divulgar sua obra.

JC – Dinaldo Domingues é, sobretudo, um amigo de origem nordestina como a minha. Sendo ele pernambucano e compositor de rara sensibilidade e simplicidade, seu trabalho busca retratar a alma popular do repertório de um choro “de sotaque nordestino”. Nosso país possui uma diversidade de contextos culturais diversos e precisa ter essa divulgação direcionada à atividade dos bandolinistas.

 

4 – Como conhecedor profundo do bandolim erudito, o que recomendaria a um jovem bandolinista ouvir ou tocar nesta área?

JC – Recomendo ao jovem bandolinista o estudo musical e à busca de uma seriedade no estudo do bandolim, sua história cultural e organológica. A realidade brasileira, apesar de rica e diversa, sem notar, às vezes parece limitar a busca de outros caminhos. Por exemplo, o bandolinista no Brasil não busca a compreensão da atividade de bandolinistas em outros países. O repertório escrito para bandolim deixado por gênios da música como Vivaldi, Beethoven e Hummel é quase que completamente esquecido no Brasil. Temos nomes de excelentes intérpretes na Itália, na Alemanha e na Rússia, por exemplo, que são anônimos no ambiente do bandolim no Brasil. Na era de grandes avanços da internet, recomendo a busca de uma maior abrangência de possibilidades de uso e funções de nosso bandolim. Assim, o bandolinista poderá diminuir a “cultura de copiar” o último CD ou o estilo de um outro colega de instrumento.

 

5 – Você tem experiência em tocar com músicos de diversos estilos e origens. Pelas suas apresentações e pelos seus CD´s dá para notar (por exemplo: o 1º CD com músicos do Rio de Janeiro, o 2º com músicos de Fortaleza, o 3º com músicos de Brasília). Qual seria sua seleção brasileira de chorões?

JC – A seleção brasileira de chorões é realmente incrível. Fica quase impossível escalar uma seleção pela diversidade de valores, contextos, sotaques musicais, estilos e contribuições de tantos músicos incríveis. Minha sugestão é a mesma dada pelo saudoso Sivuca em um show em Brasília: “no Brasil, se a nossa mídia destacasse 10% da atenção que é dada ao esporte e divulgasse o choro e a música popular brasileira, o resultado seria maravilhoso”.

 

6 – Esta busca incessante pelo bandolim perfeito parou para você com essa beleza fabricada pelo Luthier Pedro Santos, ou vai continuar?

JC – O luthier Pedro Santos além de ser um excelente profissional e músico é um amigo excepcional. Na sua incansável vontade de aprimorar seus instrumentos pela qualidade no produto e atendimento, tem feito ótimo trabalho. Ele fez um bandolim para mim que é muito bom. Fui até sua oficina pessoalmente para conhecê-lo e explicar os detalhes construtivos deste instrumento. O instrumento deve ser ajustado pelo músico, que deve ter conhecimentos de regulagem e afinação, além de funcionamento dos diversos tipos de madeira. Por exemplo, o jacarandá em instrumentos musicais possui tendência a produzir sons graves e tem características específicas, assim como a faia em uma sonoridade mais brilhante nos agudos. Dependerá do gosto e da necessidade do bandolinista uma busca que satisfaça sua atividade musical.

ENTREVISTA: JORGE CARDOSO - PARTE 2


   

7 – Quantos bandolins você possui? Toca em todos sempre? Qual  o preferido?

JC – Ao longo de mais de 20 anos de carreira, conheci vários tipos de bandolins e fabricações diversas. Já tive bandolim modelo americano em fibra, da Ovation, bandolim abaulado modelo napolitano e de vários luthiers brasileiros. Minha curiosidade é infinita quando o assunto é bandolim. Tenho bandolim Do Souto, do falecido luthier carioca Silvestre, assim como do paulista Soros. Dos mais recentes, tenho um de jacarandá de Manoel Andrade e um de faia de Pedro Santos. Não tenho um bandolim preferido. Busco utilizá-los para conservá-los. Somente quando estão parados a mais de alguns dias, os conservo desafinados. São instrumentos de características diferentes e de significados também. Meu primeiro bandolim foi presente de minha mãe Catarina Cardoso, quando completei 15 anos, tendo valor afetivo significativo para mim.

 

8 – E violão tenor, violinha e guitarra baiana?

JC – Apesar de tê-los, os utilizo muito pouco. O tempo tem sido corrido para mim, que trabalho como arquiteto, faço pesquisa de mestrado na UNB, professor de bandolim e tantas outros compromissos...

9 – Jogo rápido:

- Bandolim de 8 ou de 10 cordas? JC – Cada modelo atende a uma necessidade. Para mim, o estudo do bandolim de 8 cordas é fascinante.

- Bandolim brasileiro (modelo Jacob) ou napolitano? JC – Os dois modelos são importantes para mim. Foram sedimentados em culturas diversas e escolas diversas. Estas escolas interagiram de forma sutil em nosso país por meio das miscigenações típicas de nossa cultura “híbrida”. As influências se misturaram como a raça brasileira. A Itália sempre esteve presente no Brasil  e este legado merece ser lembrado. Gostaria que pudéssemos conhecer e compreender mais do legado da escola italiana de bandolim ao mundo ocidental.

- Bandolinista: Jacob ou Luperce? JC – Jacob e Luperce foram os consolidadores da escola do bandolim brasileiro em minha visão. Um carioca e outro nordestino, respectivamente, precisam deste reconhecimento e lembrança por parte da classe dos bandolinistas e do público geral.

- Bandolim Clássico ou Popular? JC – As duas vertentes são valorosas e interagiram ao longo da história do bandolim também. O choro veio da polca e abrange suas “danças” como o maxixe, o lundu, a schotish, a valsa, ou seja é definido como uma forma de tocar. O Choro foi uma resposta dos músicos brasileiros no Rio de Janeiro às danças européias. Portanto, temos relações entre estes dois caminhos.

- Teoria Musical ou Prática? (tocar de ouvido ou por música) JC – A teoria busca ajudar a prática. São conceitos que devem caminhar unidos. O músico “de ouvido” deve também ser um “músico de leitura” e vice-versa. Esta dualidade sempre existiu, e na renascença, tínhamos a definição em latim para o musico “teoricus” e o “praticus”. A técnica deve ser utilizada como instrumento de competência profissional, sem limites nem radicalismos.

- Compositor de choro preferido de todos os tempos: JC – Pixinguinha.

- Melhor chorinho de todos os tempos: JC – “Carinhoso”, de Pixinguinha.

- Vivaldi ou Pixinguinha? JC – Os dois!


10 – Fale-nos sobre a improvisação do seu choro “Balançadinho”, que lhe rendeu o 1º lugar no Festival. O improviso foi apenas uma idéia do Rogerinho, ou foi autoria dele?
JC – Quando surgiu a possibilidade de se participar do Festival de Choro de 2001, compus duas músicas para esta finalidade. O maxixe “Requebrando” e o Choro “Balançadinho” surgiram desta iniciativa. Durante os ensaios, no intuito de mostrar uma parte em uníssono em forma de transição para a última repetição do tema principal, pedi ao Rogério para criar um improviso no estilo dele no Choro “Balançadinho”. Minha idéia foi intencional, pois minha idéia era apresentar também o estilo do violão do Rogério, que estava em uma fase inicial em sua carreira como violonista de 7 cordas. Assim, o Choro foi executado tendo o trecho em uníssono comigo ao bandolim e com ele ao violão de 7 cordas. Esta apresentação foi gravada em CD ao vivo “Chorando no Rio” pela Rob Digital.  Os créditos ao Rogério referente à criação do seu improviso (que gravei também no meu CD “Bandolim do Brasil” em 2006), estão citados no libreto de meu CD assim como na partitura original e disponível para download no site “bandolim” (www.bandolim.net). A introdução desta música foi uma leitura minha às cadências que o bandolinista Luperce Miranda criava em suas interpretações, em um estilo próximo ao da escola italiana de bandolim.

11 – O prof. Elismar foi seu primeiro professor de bandolim ou você já possuía algum conhecimento adquirido de outros professores?

JC – Quando conheci o mestre Elismar Pontes, já tocava bandolim. Tinha 16 anos e ele me pediu para tocar “Doce de Côco” do Jacob do bandolim durante uma reunião de chorões em nossa residência familiar em Fortaleza-CE. Eu tinha iniciado como autodidata um ano antes aproximadamente. A partir daí, ele se tornou um amigo meu e de minha família. Assim, me passou todo um legado da escola brasileira do bandolim, pois havia estudado bandolim com Luperce Miranda. Ele também tinha convivido com Jacob do Bandolim no Rio de Janeiro. Tive o privilégio de absorver informações muito específicas da vida dos dois consolidadores de uma escola do bandolim brasileiro e vim saber a importância deste fato vários anos depois. Devo a ele todo o incentivo possível para seguir como bandolinista e meu entusiasmo por esta prática.

 

12 – Ainda existe um projeto de uma vídeo-aula de bandolim? Você vai focar no bandolim brasileiro e no choro, ou será um curso ítalo-brasileiro?

JC – O projeto de produção de uma vídeo-aula de bandolim é algo refletido por mim há décadas. Considero uma iniciativa de importância e tenho colecionado produções de colegas professores de bandolim de vários países. As duas vertentes “popular e erudito” e “Itália e Brasil” merecem ser destacadas, pois interagem entre si, como afirmei anteriormente.

 

13 – Existe plano de pesquisar outros estilos desafiadores de tocar bandolim, viajando por outros países, por exemplo, Bluegrass nos USA?

JC – Até o momento, penso que temos muito trabalho a ser feito no Brasil. Ainda não temos cursos superiores de bandolim nas universidades brasileiras apesar do crescimento desta prática em nosso país. Temos somente o recente curso de bacharelado da UFRJ, sob a responsabilidade do prof. Paulo de Sá. Acredito que em breve teremos encontros de bandolinistas do mundo todo em um congresso desta atividade, com debates, workshops, aulas, exposições de luthiers e outras atividades.

 

14 – Você prefere mais o título de arquiteto, pesquisador, professor, compositor, arranjador ou bandolinista?

JC – Atualmente trabalho como arquiteto paralelamente à atividade de músico, professor e pesquisador/mestrando. Meu desejo é poder contribuir para o bandolim brasileiro e tenho buscado “construir” e oficializar minha formação pessoal mediante a pesquisa e estudo. Objetivo trabalhar somente na área musical e espero poder atingir em breve este sonho, por meio da carreira acadêmica.

 

15 - Observa-se um aumento grande no interesse pelo bandolim pelos músicos brasileiros, inclusive na MPB e no rock nos shows acústicos. A que você atribui isto: a beleza do som do instrumento, a divulgação dada pelos excelentes músicos brasileiros, a facilidade de acesso à Internet, Youtube, influência estrangeira, etc...?

JC – O papel da tecnologia tem influenciado bastante as atividades profissionais em todo mundo. No caso do interesse pelo bandolim não poderia ser diferente.

 

16 – Fale sobre outras gravações sua: em Música do Vital Farias gravada pelo Fagner (Era a casa era um jardim...), LP com o pessoal de Pernambuco, CD do João Tomé, o CD do Festival, os bambas do bandolim, outras gravações.

JC – Gravei com Fagner em 1996, na mesma época em que estive no Rio de Janeiro gravando meu primeiro CD solo “Som de Bandolim”. Foi uma época especial em minha vida, de muito trabalho e aprendizados de vida. Minha primeira gravação foi com o grupo “Oficina de Cordas de Pernambuco” em 1994. O bandolinista e professor pernambucano Marco César havia me convidado para este trabalho que foi lançado no mercado europeu pela Nimbus Records, em trabalho realizado pelo musicólogo e amigo Ricardo Canzio.

Participei de 02 CD’s (vol. 1 e 2) em homenagem à memória do músico mineiro João Tomé. Tive o prazer de ter redigido este o projeto para o FAC da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal e obtido aprovação nesta iniciativa ( CD volume 1).  

A Kuarup discos lançou uma coletânea de gravações de dez bandolinistas brasileiros chamada “Os bambas do bandolim”. Neste CD, pude participar ao lado de nomes famosos como Rossini Ferreira, Ronaldo do Bandolim, Hamilton de Holanda, Reco do Bandolim, Pedro Amorim, Joel Nascimento, Déo Rian e Izaías de Almeida.

 

Mais sobre Jorge Cardoso:

www.myspace.com/jorgecardosobandolim

Obs.1: agradecimento especial ao Américo pelo auxílio prestado (em todos os sentidos).

Obs. 2: presente de Jorge Cardoso: seu primeiro CD:

 Jorge Cardoso - Som de bandolim (1996)

01 - Gingando no choro (Jorge Cardoso)
02 - Modulado (Jorge Cardoso)
03 - Quanto dói uma saudade (Garoto)
04 - Melancolia cigana (Emile Proudome)
05 - Uma rosa para ela (Jorge Cardoso)
06 - Espinha de bacalhau (Severino Araújo)
07 - Para eu ser feliz (Amador Pinho)
08 - Trocadilhando (Jorge Cardoso)
09 - Impressões digitais (Jorge Cardoso)
10 - Moto perpétuo (Paganini)
11 - Quando me lembro (Luperce Miranda)
12 - Perna de alicate (Jorge Cardoso)
13 - Lembranças do Recife (Rossini Ferreira)
14 - Minha terra (Jorge Cardoso)

http://www.megaupload.com/?d=XPQ9JAHJ

 

http://rapidshare.com/files/456399461/JorgeCardoso_1996_Som_de_Bandolim.rar

EUDÓXIA DE BARROS


 Eudóxia de Barros, pianista singular, que sintetiza como ninguém, na arte da música erudita, a brejeirice brasileira (Ernesto Nazareth, Darius Milhaud e Louis Marie Gottschalk que o digam...). Ela fala a este blog.


1 – Sobre seu disco SAUDADES DO BRASIL de 1979: como vê a crua politonalidade (*) de Milhaud misturada aos temas e choros brasileiros que ele compôs para esta peça? E como o público reage?

Foi talvez a primeira música politonal que toquei; me surpreendeu no início do estudo, mas depois me acostumei e gostei. Toquei muito essa Suíte, no período de 1979 a 1982, 83; aqui no Brasil, naquela época, não era muito aplaudida quando tocava. Entretanto nas 2 vezes em que a apresentei em Paris, na Salle Gaveau, foi um sucesso; esteve presente, nas duas vezes, Mme. Milhaud, simpaticíssima, embora bem autoritária. E na primeira vez, estava também junto com Mme. Milhaud, a filha de Paul Claudel (**). O nome de Mme. Milhaud era MADELEINE e contam que Darius Milhaud a chamava de MESDELEINE , pelo tanto que ela representava para ele e por tudo que ela fazia por ele, como se fosse múltipla! Era de uma energia impressionante; faleceu há pouco tempo, com mais de 100 anos.

2 – Poderia fazer um histórico deste disco, como ele foi produzido?

Foi bem interessante: o produtor Marcus Pereira, me chamou porque queria gravar alguma coisa comigo para a sua gravadora DISCOS MARCUS PEREIRA; lá fui eu e logo de cara ele foi dizendo: "aqui você grava o que quiser, menos Ernesto Nazareth"; ao que eu respondi: "pois era justamente o que eu queria gravar, dar continuidade ao meu pioneirismo...". Parei então para pensar, e de repente, numa inspiração, disse: "talvez pudesse gravar de um lado GOTTSCHALK e do outro, a Suite "Saudades do Brasil" de DARIUS MILHAUD, mostrando dois estrangeiros que aqui viveram e adoraram o Brasil"; o produtor quase deu um salto na cadeira com a coincidência; disse ele: "você não vai acreditar mas veja a página que eu estava lendo neste livro, enquanto esperava você chegar": falava de Darius Milhaud e da Saudades do Brasil !!! ao que eu deduzi: "puxa! é sinal que é para ser!" e fechamos negócio. Deu-me um prazo de uns 3 meses para aprender as músicas e já assinei o contrato  dali a alguns dias.

3 – A senhora conhecia a gravação desta peça pela Clara Sverner? Ou então a gravação de outro intérprete?

Com Clara Sverner também foi interessante; todos sabem que ela é irmã de um sócio da hoje extinta casa de discos Brenno Rossi. E eu que sempre fui um livro aberto no passado (hoje sou realmente esperta), andei comentando, toda feliz, o que ia gravar. Um vendedor da gravadora em que eu estava me iniciando, contou lá na loja o que eu estava preparando; eu me atrasei com o término da minha gravação, tendo dado tempo dela gravar rapidamente a mesma Suite SAUDADES do BRASIL, que saiu um mês, mais ou menos, antes da minha gravação . Caiu muito mal para ela e felizmente tive defensores que se aperceberam da sua falta de ética e um crítico esperou sair o meu LP, para estabelecer comparações, sendo sua crítica arrasadora para aquela pianista. Foi bem desagradável ! Depois de muito tempo, foi que consegui ouvir uma gravação de um pianista francês, meio desconhecido, e não gostei muito, por ser somente uma leitura, e com nada de sabor brasileiro.

4 – Se me permite dizer, sua gravação é tocante demais porque dentre todas que conheço é a mais brasileira. Seu estilo erudito com forte viés pianeiro de onde vem? Quais suas influências?

Sempre ouvi muita Música Popular Brasileira quando criança, e todos bem sabem como a nossa música popular de outrora era rica tanto em melodia, como rítmo e letra. Deve ter sido daí essa influência.

5 – Sobre seus discos antológicos de Ernesto Nazareth, Ouro Sobre Azul (1963) e Gotas de Ouro (1965): ninguém até então, ao que eu saiba, tinha dedicado um LP inteiro a Nazareth no contexto da música erudita (***); de quem foi a idéia? Como foi a repercussão?

Fui avisada por um musicólogo e amigo do Rio de Janeiro, MOZART DE ARAÚJO, que o Conselho Federal de Cultura iria promover um Concurso de disco, para homenagear o centenário de Nazareth, em 1963 . Competia a mim achar uma gravadora que se dispusesse a gravar Nazareth exatamente como ele escreveu e sem nenhum arranjo, como até  então, se usava fazer. Tinha de seguir a partitura do compositor. Fiquei meio assustada por se tratar de um músico semi-popular; havia muito preconceito naquela época. Entretanto como gosto de desafios e de correr riscos, fui procurar gravadora e consegui uma entrevista com o Diretor da gravadora CHANTECLER, que na hora fechou negócio. Já chamou fotógrafo para divulgar a nova aquisição da gravadora. Esse Diretor foi BRÁS BACCARIN, que se tornou grande amigo de mim e de minha família. Adorava e prestigiava a Música Brasileira. Ali, mais tarde, gravei o que quis. Que diferença de hoje !!! Fui muito criticada por colegas, mas nem liguei. Estava adorando tocar Nazareth, um clássico da Música Popular; talvez possamos chamá-lo assim.

6 – imagino que a senhora saiba que estes discos estão entre os mais importantes da discografia brasileira. Hoje inúmeros intérpretes internacionais gravam CDs exclusivos com a obra de Nazareth. O que acha de Nazareth na mão de pianistas estrangeiros? 

Fico muito feliz pela divulgação, mas falta aquela bossa que só um brasileiro sabe dar.

7 – Eudóxia, gostaria de agradecer finalmente por tudo que fez e faz pela música brasileira. O seu piano é um daqueles raros em que reconhecemos o intérprete imediatamente. 

Verdade? fico feliz e agradecida!

8 – Uma última pergunta: o disco SAUDADES DO BRASIL é muito raro. A senhora permitiria que eu o disponibilizasse em meu blog para as pessoas baixarem gratuitamente? É uma forma de divulgá-lo para o público do choro (****).

Claro, pode colocar. Gostaria de aproveitar para dizer o quanto gostaria de conseguir um patrocínio para transformar todos os meus LPs em CDs. Há coisas raras que gravei, muita documentação musical que vai se perder por aí. Já não sei mais a quem apelar. Quase saiu pela BISCOITO FINO, e de repente tudo foi por terra.

9 - Obrigado pela entrevista.

Foi gostoso recordar um passado tão feliz.


(*) Várias tonalidades ao mesmo tempo.

(**) Paul Claudel, poeta e embaixador francês no Brasil à época, foi responsável pela vinda de Milhaud ao Brasil.

(***) Na discografia nazarethiana, em que sobram os arranjos, e os acompanhamentos espúrios, este disco da Chantecler toma importância didática: é do Nazareth sem acréscimos, nem ornamentos banalizadores.
(Andrade Muricy, Jornal do Commercio, 25 de setembro de 1963, por ocasião do lançamento do LP “Ouro sobre Azul”).

(****) http://umquetenha.org/uqt/?cat=2544 (agradecimentos ao UM QUE TENHA por disponibilizar este disco).

Darius Milhaud / Louis Marie Gottschalk

 

SAUDADES DO BRASIL (Marcus Pereira – 1979)

Eudóxia de Barros

 

Saudades do Brasil (Darius Milhaud)

 

1 Sorocaba

2 Botafogo

3 Leme

4 Copacabana

5 Ipanema

6 Gávea

7 Corcovado

8 Tijuca

9 Sumaré

10 Paineiras

11 Laranjeiras

12 Payssandu

 

2. Grande Fantasia Triunfal Sobre O Hino Nacional

   (Gottschalk)

3. La Jota Aragonesa (Gottschalk)

4. A Grande Tarantella (Gottschalk)

Se um dia você se revoltou com a avaliação de algum crítico sobre seu disco ou artista preferido, vale a pena ler o artigo de STEPHEN BURN do NEW YORK TIMES publicado hoje na FOLHA DE SÃO PAULO. Ou ao menos um pequeno trecho:

“INTERNET TRANSFORMOU A RELAÇÃO DE PODER ENTRE CRÍTICOS E LEITORES

Tecnologia libertou o público do julgamento dos acadêmicos”

“Ainda que as resenhas on-line variem em termos de qualidade e percepção, o fato de que existam já não permite imaginar que não exista uma audiência de interesse geral bastante envolvida.

A era da avaliação, do crítico olímpico como árbitro cultural, acabou. Embora continuem a existir críticos, seus esforços só servem para elevar o ruído na cultura.

A perda de uma crítica mais centralizada e unívoca não é necessariamente ruim.

Certamente a maioria dos leitores já viram resenhas de críticos conhecidos cujo trabalho termina envenenado por preconceitos pessoais.

E embora a remoção ou, mais precisamente, a redistribuição das tarefas de avaliação deva provavelmente diluir os padrões críticos, também pode liberar o crítico para que se dedique a tarefas mais sérias, que talvez influenciem a cultura. Ao abandonar a cultura da opinião e realizar análise mais profunda, o crítico irá desempenhar sua função primordial: localizar obras importantes que nem sempre ficam visíveis em meio às correntes dominantes.” 

PIXINGUINHA - arranjos para orquestra


..."E existe, por fim, o Pixinguinha que organizou os sons para distribuí-los - por escrito, é claro - pelos instrumentos em determinado arranjo. É justamente esse ponto de sua biografia que acaba de ser retratado com a edição de 36 partituras executadas na rádio Tupi do Rio de Janeiro, entre 1947 e 1952, no "Pessoal da Velha Guarda" [Instituto Moreira Salles/Imprensa Oficial, 36 partituras e um livreto, R$ 120], programa semanal de 30 minutos, produzido e apresentado ao vivo por Almirante (1908-80), apelido artístico do músico e radialista carioca Henrique Foréis Domingues."

(Trecho da resenha de JOÃO BATISTA NATALI "
No princípio era a música popular brasileira - Pixinguinha em nova embalagem" publicado hoje na FOLHA DE SÃO PAULO).

Duas curiosidades que não constam do texto da Folha mas podem ser lidas no encarte do lançamento: a primeira é que as gravações dos 36 arranjos foram salvas e estão em posse do Instituto Moreira Sales - e a segunda é o fato do programa de Almirante ter clima saudosista, isto é, Pixinguinha fazia arranjos de choros "dos velhos tempos". Talvez tenha sido Jacob do Bandolim quem tenha colocado um ponto final nesta linha divisória entre antigo e novo, quando passou a interpretar choros dos grandes mestres do passado como eternos.

ZEQUINHA DE ABREU – SIMPLES E GENIAL

 

“Improvisava ao piano canções sobre canções durante horas, com a cervejinha do lado. Modesto até o extremo, nunca tivera para ninguém uma palavra depreciativa. Falava pouco, sorria bastante. Escrevia música tão depressa como qualquer pessoa que saiba escrever ligeiro” – rememorou o piauiense Hermes Vieira, que usava o pseudônimo de Naro Demóstenes, seu amigo e letrista (encarte do CD “Valsas Brasileiras – só pelo amor vale a vida” – selo Revivendo).

 

Zequinha de Abreu e Anacleto de Medeiros merecem uma analogia. Afinal, poucos compositores brasileiros escreveram de maneira tão transparente, tão simples e direta. Econômicos nas escalas (se comparados a um Pixinguinha, por exemplo), as melodias parecem ficar mais densas, com mais peso, como que concentradas nas poucas notas utilizadas. Talvez por isso o impacto de suas melodias seja tão instantâneo. Apenas harmônicamente um abismo os separa, Anacleto é o mais complexo dos compositores de valsas, enquanto, Zequinha, entre os grandes, o mais singelo.

        

Diante dessa simplicidade toda, a frase de seu amigo, escrevia música tão depressa, poderia denotar alguma superficialidade de composição. Mas é aí que está o toque de gênio: compor com tão poucos recursos e de maneira tão inspirada!

 

O CD de Zequinha citado acima traz, além das conhecidas, valsas pouco executadas do mestre, verdadeiras jóias perdidas, como Ressurreição. Seu nome reflete seu espírito: seu andamento não pode ser muito lento, está implicito nela a alegria do ressurgimento, mas espelhando a vida, evidencia o sentimento de uma experiência dolorosa. Essa obra prima é interpretada pela Orchestra Typica Victor – daquelas gravações impossíveis de superar. Quem serão esses músicos?

 

Todas as gravações deste CD podem ser ouvidas também, como sonoridade igualmente boa no www.ims.com.br

 

 

Nota: neste ano comemoram-se os 130 anos da morte de Zequinha de Abreu (Santa Rita do Passa Quatro, 19 de setembro de 1880 — São Paulo, 22 de janeiro de 1935).

 

 

COLAGRANDE 80 ANOS


Parabéns, mestre, pelos 80 anos completados neste dia. Nossa singela homenagem:

http://www.myspace.com/osvaldocolagrande

ISRAEL DE ALMEIDA, o sete cordas, o compositor, o arranjador.


 
Israel de Almeida no Conjunto Atlântico (4º da esquerda para a direita - 1977)

Entrevista:

No excelente http://musicosdobrasil.com.br/israel-de-almeida lemos que você foi influenciado basicamente por Garoto, Dino 7 cordas e João Gilberto. Gostaria de saber quando começou a misturar esses estilos no 7 cordas. Dino, por exemplo, não fazia isto, não é?

 

Sim, fui influenciado por João Gilberto, Garoto e Dino. Eu comecei fazendo centro de cavaquinho no choro, mas quando ouvi o João Gilberto fiquei louco com aquilo, tanto que abandonei rapidamente o cavaquinho, passei para o violão e fui tocar só o repertório de bossa nova, que é muito rico em harmonia dissonante, enquanto o Izaias ficou tocando com o D’auria. Depois eu ouvi o Garoto, que era ainda mais avançado do que o pessoal da bossa nova. Fui seguindo essa onda até quando entrei para o Conjunto Atlântico como 3º violonista. Foi um retorno ao choro tradicional. O Dino, apesar de espetacular era um músico tradicional. Mas eu também prestei muita atenção na onda dele. Assim, eu fui mesclando os estilos e criando o meu próprio.

Israel, como era o choro em São Paulo na sua juventude?

 

Eu acho que o choro em São Paulo era tão importante quanto no Rio. Havia grandes reuniões na casa do D’auria e na casa do Rossi, amigo do Jacob. Pra você ter idéia, lá estiveram Dino, Meira, Canhoto, Altamiro, Orlando Silveira, Pixinguinha, Jacob e muitos outros.

Por que você compõe tão pouco? São tão poucos os compositores de choro que têm verdadeira inspiração.

 

Não sei se é falta de inspiração, preguiça ou tempo para compor. Nesta época de tanta informação, as vezes a gente prefere ficar no computador, assistir televisão, cuidar do carro do que ficar ao violão inventando algo. Acho que é da própria época em que vivemos. As poucas composições que tenho são da época que eu não tinha carro. A TV não tinha tanta informação e o computador estava ainda no inicio. Não tinha nem a internet.

 

Pode contar uma ou duas histórias que você vivenciou em sua carreira?

 

Tem aquela história quando o Jacob do Bandolim estava tocando o choro Ingênuo e na segunda parte ele pediu para ficar só eu e ele. Comecei a fazer umas harmonias dissonantes com batida de bossa nova e o Jacob se perdeu no meio. Ele parou, caiu na gargalhada e depois ficou pixando eu e a Bossa Nova até as cinco da manhã.

Como é tocar com o Izaias? É a mesma coisa que tocar com outro bandolinista ou existe uma afinidade maior?

 

É claro que tocar com o Izaias a afinidade é maior. Eu já sei o que ele vai fazer e ele sabe o que vou fazer. O entrosamento é maior.

Uma das coisas que mais admiro em você são os arranjos – equilibrio perfeito, por mais dissonantes que sejam os acordes, a melodia nunca é arranhada. Quem são bons arranjadores pra você?

 

Eu gosto muito dos arranjos do Garoto, que tinha composições altamente dissonantes, mas que os acordes não se perdiam em sequencias desequilibradas. Nas composições dele, as modulações surgem, mas sem ferir o ouvido. A estética é sempre mantida com muito gosto. Além do Garoto tem o Radamés Gnattali, o Ciro Pereira o Luis Arruda Paes. No choro tradicional tem o Jacob, o Pixinguinha e outros.

Sei que é difícil, mas cite alguns choros que gosta pra valer. Aqueles do coração.

 

É muito difícil, já que temos muita música boa, mas tem o Vibrações do Jacob, Sarau para Radamés e Choro Negro do Paulinho da Viola, a maioria das composições do Garoto para violão. As composições do Esmeraldino Salles, apesar de não muito divulgadas também são bons exemplos.

Conseguiu o que você esperava da música? Gostaria de ter feito alguma coisa além?

 

Acho que sim, viajei cinco vezes para a Europa, toquei nos principais palcos de São Paulo, toquei na televisão, gravei alguns discos. É claro que a gente sempre quer mais. O que eu quero é poder tocar até uns 80 anos. Se for assim, tá bom demais.

Obs.: nunca devemos achar que conhecemos um músico na sua totalidade ouvindo apenas suas gravações ou até mesmo suas apresentações. Não, para conhecermos um vulcão como Izrael, é preciso ouvi-lo em uma roda de choro, descontraído. Quieto por natureza, ele é de pouca conversa. Mas quando seu violão abre o bico...

 

MESTRE SANTISTEBAN DE NOVO

 

No primeiro blog, falávamos deste discaço:

 

http://blogdochoro.zip.net/arch2006-04-23_2006-04-29.html

 

 

Silvio Santisteban (1982)

 

1  The Entertainer (Scott Joplin)

2  Raindrops keep falling on my head (Bacharach-David)

3  Ponteio (Edu Lobo-Capinã)

4  Holiday for strings (D. Rose)

5  Stella by starlight (V. Young)

6  Gavota em samba (Bach)

7  Caminho das estrelas (M. Albanese-C. Pereira)

 

1  Baobá (M. Albanese-C. Pereira)

2  Samba do Silvio (S. Santisteban)

3  Matuto (E. Nazareth)

4  Summer’42 (M. Legrand)

5  Sonata em samba (Cimarosa)

6  Tenebroso (E. Nazareth)

7  Amor indiferença (Garoto-Albanese)

8  1-2-3-4-5 (Ensinando o Jequibau) (S. Santisteban)

 

 

Para baixar:

http://www.megaupload.com/?d=V3NTH9YU

 

 

Entrevista Silvio Santisteban:

 

 

Se você tivesse de definir seu estilo, o que diria?

 

Procuro executar as músicas que aprecio, usando a técnica clássica (estudei com Milton D’Agostino, José Fonseca, Isaias Sávio, além de me formar em Educação Musical e Artística) com elementos “populares”. Aliás, essa divisão “clássico” e “popular”, me parece um pouco artificial. O que existe mesmo é música bem feita, seja ela vinda de um erudito da música (que estudou a fundo Teoria, Harmonia, etc) ou vinda de um intuitivo, que tem as combinações harmônicas dentro de si, independente dos “conhecimentos” teóricos.

 

Por que escolheu o violão como seu instrumento? Alguém em especial o atraiu?

 

Sem dúvida que foi meu pai. Ele tocava o violão (cantava também) e eu me identifiquei com o instrumento.

 

Fale um pouco sobre este disco de 1982.

 

Foram arranjos que fiz de músicas que eu gosto. A sonata de Cimarosa e a Gavota de Bach (a idéia de colocar ritmo), veio de tanto eu ouvir os “Swingle Singers” (grupo vocal que cantava peças clássicas com balanço de bateria). Até hoje aprecio essa idéia.

 

Que projetos você tem atualmente?

 

Tenho arranjos que fiz de temas de filmes e já gravei (Um Violão no Cinema) e tenho arranjos de outras músicas brasileiras e outro projeto que estou elaborando, sobre algumas músicas inéditas.

 

6 - Fale, por favor, sobre sua escola.

 

Abri uma escola de violão para atender desde iniciantes até alunos que já executam, mas querem se aperfeiçoar em algum aspecto do violão.

 


Déo Rian

Choros de Sempre (1974)

Coronado/EMI-Odeon - SC 10018

(resenha publicada originalmente no site de Fernando Duarte: http://www.bandolim.net/choros-de-sempre)

 

Músicos (na contracapa):

 

Dino (Violão de 7 cordas)

Meira (Violão)

Canhoto (Cavaquinho)

Nelsinho (Arranjos)

 

Relação complementada por Déo Rian através de e-mail:

 

“O pianista é o Cristóvão Bastos, as flautas são Copinha, Jorginho (já falecidos) e Jaime Araújo, irmão do maestro Severino Araújo, o contrabaixista é Tião Marinho, o pandeiro Jorginho, o baterista Juquinha, os ritmistas Marçal e Luna (falecidos)”.

 

Lê-se na contracapa do LP, em texto de Sérgio Cabral:

 

Mas poucos, bem poucos, dos discos que virão por aí, poderão apresentar o choro como Déo Rian está apresentando agora. Graças às suas qualidades de intérprete e ao trabalho do maestro Nelsinho, o que se ouve aqui é o choro em todas as suas dimensões, com o amplo aproveitamento de suas qualidades musicais.”

 

Antevendo a febre pelo choro que se aproximava em meados dos anos 70, Ségio Cabral alertava para o que realmente ocorreria, uma enxurrada de lançamentos com repertório repetitivo e interpretações pouco cuidadas, promovido pelas gravadoras, apenas para aproveitar a moda do chorinho.

 

Déo Rian, ao contrário da onda, fazia valer cada minuto de que dispunha no LP, valorizando cada faixa em todos os sentidos possíveis, arranjos, músicos, repertório. Quanto ao último quesito, é de se notar sua preocupação em ser abrangente, em não se deter a uma época ou estilo do choro.

 

Se não vejamos:

 

Pixinguinha e Jacob do Bandolim que não poderiam faltar;

 

Tem-se Garoto, um compositor moderno, em experiência pouco usual à época, a transcrição de um choro violonístico para bandolim (na verdade, os chorões que frequentavam a casa de Antonio D’Áuria nos anos 1960 tinham por hábito interpretar choros modernos e já faziam transcrições para bandolim dos choros de Garoto para violão. Tristezas de um Violão era parte de um projeto de LP do Conjunto Atlântico quando Déo Rian o gravou).

 

Surge também a clássica Queixumes, de Avena de Castro, um compositor contemporâneo representado;

 

E, claro, a face de um dos maiores legados de Déo Rian, a recuperação de choros dos grandes mestres do passado, como uma composição de Candinho, que aqui, aparece em sua primeira gravação da era moderna (Déo Rian não se recorda qual disco foi gravado primeiro, se este Choros de Sempre ou se o primeiro do Conjunto Época de Ouro, tendo Déo Rian como solista, onde O Nó de Candinho foi gravado. Os dois LPs são de 1974. Jacob do Bandolim que preservara o acervo de composições de Candinho jamais o gravou comercialmente).

 

Momentos de plena emoção não faltam, mas não dá para deixar de ressaltar pelo menos 2:

 

- o arranjo transcendente, aproveitado por Nelsinho, para o Primas e Bordões (baseado em uma gravação caseira de Jacob);

 

- o bandolim meigo e sublime de Déo Rian em Julieta, justificando a tese de que, como Bach, a obra de Nazareth oferece a rara oportunidade para transcrições sem perda do potencial da peça - às vezes até enfatizando-a em algum ponto mais terno, como nesta gravação (como exemplo, compare-se com Chopin, cuja obra é incompatível às transcrições - as infinitas existentes nada acrescentam, ao contrário, só há perdas).

 

Se há algum senão a ser citado, seria talvez o excesso de peso nos acompanhamentos de algumas faixas mais agitadas, mas nada que prejudique o resultado final deste grande disco.

 

Faixas do disco:

 

1   Mistura e manda (Nelson Alves)

2   Helena (Mário Alves da Conceição)

3   Lamento (Pixinguinha)

4   Vou vivendo (Pixinguinha)

5   Queixumes (Avena de Castro)

6   Julieta (Ernesto Nazareth)

7   Noites cariocas (Jacob do Bandolim)

8   Primas e bordões (Jacob do Bandolim)

9   Soluçando (Cândido Pereira da Silva)

10   Tristezas de um violão (Garoto)

11   Sentimento oculto (Nola)

12   Tatibitate (Jacob do Bandolim)

 


Chorando Callado - Vol. 2 (1991)

Gravadora: FENAB

Produtor: José Silas Xavier

(resenha publicada originalmente no site de Fernando Duarte: http://www.bandolim.net/chorando-callado-0)

 

Músicos que participaram do disco:

Cincinato - Bandolim

Alencar - Violão 7 Cordas

Américo - Violão

Fernando Cesar - Violão

Chico de Assis - Cavaquinho

Jorginho do Pandeiro/Prato & Faca - Direção musical

Fernando Henrique Machado - Saxofone Tenor

Nivaldo Francisco de Souza - Flauta

Luiz Gonzaga Carneiro - Clarinete

 

Não deve ter sido muito fácil fazer o segundo volume de um dos maiores discos de choro de todos os tempos, o Chorando Callado, ainda mais sem Odette Ernest Dias, que encarnou como ninguém o título do disco original com seu sopro terno, introvertido, quase "callado".

Trazendo surpresas agradáveis como Fernando Henrique Machado, ao saxofone tenor, com soberbas improvisações, a sonoridade do disco, entretanto, não foi tão boa como a do seu antecessor, onde o equilíbrio era perfeito, como nos melhores discos do estúdio utilizado, o Estúdio Eldorado. Sentimos neste a falta de volume do poderoso violão de Alencar do primeiro álbum, diluído em função da trinca de violões que privilegiou os arranjos caprichados para cordas dando menos destaque ao 7 cordas.

 

O repertório recuperava, mais uma vez, obras-primas de chorões históricos (nunca é demais lembrar que na época isto era quase uma raridade).

 

De quebra tivemos neste volume um destaque especial para choros de compositores mais recentes e menos visitados, como os de Avena de Castro e Cincinato Simões dos Santos.

 

O bandolinista Cincinato aparece aqui pela primeira vez em gravações; contava à época com quase 70 anos. O álbum trazia outros grandes solistas, porém era ele quem chamava mais a atenção pelo fato de ter convivido com os maiores nomes do choro da primeira metade do século XX através de rodas de choro memoráveis, ao mesmo tempo em que era desconhecido de um público mais amplo. À primeira audição do disco já se percebe a densidade de sua interpretação – ouça-se a bela leitura de Teu Sinal, de Cândido Pereira da Silva, o Candinho (a gravação original desta peça está disponível no www.ims.com.br).

 

É certo que nesta faixa o extremo bom gosto do arranjo de Alencar 7 cordas (reparar no diálogo bandolim/violões da segunda parte) ajuda e muito, assim como o prato e faca deliciosamente inseridos na segunda e terceira parte por Jorginho do Pandeiro. Cincinato, como poucos, entende Candinho à perfeição. Talvez a maior dificuldade em interpretar um choro de Candinho não seja reproduzir suas características e intrincadas notas, mas saber onde está o melhor de sua excepcional veia melódica, em que frase por exemplo. Cincinato não deixa escapar nenhum desses momentos, trata com carinho exemplar cada lance genial do compositor.

 

YAMANDÚ E VALTER 7 CORDAS


Alguém que não é propriamente do choro pode fazer um dos melhores discos de choro da história? Sim! Paulo Moura (Tempos Felizes), Odette Ernest Dias (Chorando Callado), Arthur Moreira Lima (Nazareth) fizeram.

 

Yamandu Costa entra neste rol de artistas polivalentes. Acaba de gravar seu primeiro disco essencialmente de choro, sem concessões. Uma maravilha!

 

Valter Silva (violão 7 cordas) mostra-se o companheiro perfeito para ele porque, com sua mão segura, mantém o choro no eixo, impedindo que Yamandú divague além de limites aceitáveis para o gênero, descaracterizando o espírito, seja na diluição do tempo ou da própria composição.

 

Não se trata de “cerceamento” – o que seria absurdo – mas a desenvoltura de Yamandú é tão gigantesca, o ecletismo tão maravilhoso e sincero, que corre-se muitas vezes o risco do excesso pôr tudo a perder, cair-se no vazio.

 

Valter Silva, portanto, é fundamental para o resultado deste disco ser tão bom. Aliás, essa moda de duos solista + violão 7 cordas é das melhores coisas que a fartura do mercado nos oferece (ver post abaixo sobre Luizinho e Carlinhos 7 cordas). São verdadeiras aulas de 7 cordas.

 

A criatividade de Yamandú é espantosa. E olha que o repertório é batido, já foi explorado até o talo. Uma faixa ao menos não pode deixar de ser citada: Implicante (Jacob do Bandolim). O solo em terças de Yamandú é coisa de gênio! E o que dizer do balanço extraordinário do seu acompanhamento em seguida (enquanto Valdir sola sua parte obrigatória).

 

Já comparamos seu estilo com o de Raphael Rabello (www.blogdochoro.zip.net) porém, este CD nos leva à nova reflexão. De forma bem simplificada, haveria duas escolas básicas de violão brasileiro: a primeira com muita bossa, influência do jazz, aquela de Jorge Santos, Bola Sete, Yamandú, Silvio Santisteban, Baden Powell, e a outra, advinda do violão clássico/erudito, seria composta por Tute, Dino, Valdir Silva, Raphael Rabello, Alencar, Izrael, mais ligadas à tradição do choro. É claro que é um reducionismo, onde se encaixariam, por exemplo, Garoto, Dilermando Reis, Paulinho Nogueira, João Gilberto? De qualquer forma, a origem, a procedência, marcam bem a diferença entre Raphael e Yamandú.

 

Yamandú Costa, Paulo Moura, Odette Ernest Dias, Arthur Moreira Lima, talvez não sejam 100% chorões, mas suas obras-primas manifestaram-se nesse gênero.

 

 

 

ERNESTO NAZARETH



Partituras disponibilizadas gratuitamente:

http://www.musicabrasilis.com.br/partituras.php

FILTRANDO BACH (1)

 

"Ele foi muito importante, mais para o instrumento. Existe uma polêmica em torno do Waldir, mas não dá pra negar sua importância. Não era estudioso, mas era musical e popular." LUCIANA RABELLO (sobre Waldir Azevedo).

 

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100405/not_imp533673,0.php

 

Interpretando livremente a frase “não era estudioso”, Luciana Rabello parece querer dizer, interpretação nossa, que Waldir Azevedo e suas composições não tinham vínculo com a história do choro.

 

Questões assim (artistas ligados às raízes) não frequentam somente os batepapos chorões, é recorrente entre os roqueiros, por exemplo, perguntar por que os grupos heavy metal nascidos a partir dos anos 1970 eram tão superficiais, enquanto os nascidos nos anos 1960 eram tão mais profundos.

 

A resposta para essa polêmica parece simples e independe do talento musical: ter influência de um passado mais rico ou mais pobre pode ser a chave da questão.

 

A analogia não é ideal porque Waldir era um gênio e suas composições nada superficiais. Porém, quanto à forma, fraseado e harmonia, tradição enfim, eram o que há de mais simples, parecendo vulgar quanto às melodias (antes que este “vulgar melódico” seja mal interpretado, lembramos que um gênio idolatrado por este blogueiro sofre até hoje do mesmo tipo de preconceito: Tchaikovsky).

 

É preciso lembrar, também, que Waldir, ao contrário de compositores e cavaquinistas, como Mário Álvares da Conceição (gênio absoluto quanto à forma, fraseado, inspiração, enfim, tudo) e outro grande compositor, Nelson Alves, tocavam cavaquinho de 5 cordas, o que abria as possibilidades musicais.

 

No caso do rock, bandas pesadas que se inspiravam em outras fontes como blues (Led Zeppelin), música clássica (Deep Purple - escute-se o famoso trecho instrumental de, “Burn”, em que temos um arpejo levemente estereotipado, inspirado em Bach criado por Ritchie Blackmore, acrescido posteriormente de uma variação feita pelo teclado de Jon Lord, esta última no melhor e mais profundo estilo bachiano) tiveram como seus seguidores bandas que se espelhavam nesses grupos pioneiros apenas, como se deles tudo partisse. Por mais intuição que tivessem do blues, por exemplo, não haviam como mostrar-se profundos pois as referências eram diminutas - nunca a vivenciaram.

 

Voltando a Waldir Azevedo, certamente não seria em grandes estilistas como Bonfíglio, Candinho, Pixinguinha, para não dizer dos mais antigos ainda, que ele se inspirava. Ele apenas captava algo da essência dos mestres do passado, adicionou ingredientes dos gêneros que estavam no ar à sua época, e simplificou o choro de maneira genial.

 

Então, se você não é um gênio, não custa nada ouvir com carinho o conselho de Luciana Rabello: pesquisar o passado.

FILTRANDO BACH (2)

 

Vamos a outro exemplo: ao dizer que Bach era o folclore, o chorão Villa-Lobos não estaria querendo dizer que Bach era a fonte musical completa a ser explorada?

 

Portanto, se os solos de improviso andam com frases repetitivas, e as baixarias teimam em voltar a lugares dantes visitados, é hora de pegar o “dicionário” e revitalizar o “vocabulário”!

 

Ouvir com atenção como Bach caminha entre duas notas e tentar repetir o procedimento, têm algumas vantagens sobre apenas recolher as idéias de nossos geniais ídolos chorões. Se para Villa-Lobos “Bach é o folclore” não estaremos imitando ninguém, estaremos indo à mãe de todas as fontes, pois, convenhamos, que fraseado erudito, chorão ou jazístico já não foi pensado por Bach?

 

Mas não é fácil, à princípio, identificar uma boa frase e adaptá-la ao nosso gênero – primeiro porque pode estar escondida entre várias idéias da composição e segundo por não virem com as síncopas características do estilo de cada música popular (este quesito é importante porque as frases de Bach estão livres dos “vícios” de linguagem – servindo como estudos literalmente).

 

As peças para violino e violoncelo desacompanhados e as para alaúde são ideais para uma pesquisa.

 

Para identificar as frases geniais que Bach poderá nos abastecer (compatíveis com nosso gênero) é preciso ouvir matematicamente, ou seja, com olho clínico nas escalas e arpejos somente.

 

Links para blogs com as peças de Bach para baixar gratuitamente:

 

Violoncelo desacompanhado:

 

http://orchestralworks.blogspot.com/2009/09/anne-gastinel-bach-cello-suites.html

http://classiclibrary.blogspot.com/2009/05/js-bach-cello-suites-bwv-1007-1012.html

 

Violino desacompanhado:

 

http://orchestralworks.blogspot.com/2010/02/lara-st-john-bach-six-sonatas-partitas.html

http://orchestralworks.blogspot.com/2010/01/alina-ibragimova-bach-sonatas-partitas.html

http://orchestralworks.blogspot.com/2009/09/julia-fischer-bach-sonatas-and-partitas.html

http://orchestralworks.blogspot.com/2009/07/viktoria-mullova-bach-6-solo-sonatas.html

 

 

Alaúde:

 

http://pqpbach.opensadorselvagem.org/j-s-bach-1685-1750-obras-para-alaude/

http://classiclibrary.blogspot.com/2009/02/js-bach-sonatas-partitas-for-violin.html

SEM DIFICULDADES


Acabei de finalizar um trabalho que pode ser muito útil - e difícil
de ser encontrado - vídeos das levadas e Choro. Compilei os ritmos mais importantes de maneira didática e já está disponível.

http://www.abdallahharati.com/abdallah/br_aulas.html

Um grande abraço!

Abdallah

www.abdallahharati.com

 

Mais fácil, simples, direto e elucidativo, impossível. E com o espírito da generosidade (uma das faces mais bonitas da internet) como respondeu o autor através de e-mail:

Foi assim que eu aprendi a tocar Choro. Através da ajuda, generosidade e boa vontade dos mais experientes, então esse é o meu lema.

 Paola Picherzky: 
18 Choros de Armando Neves (2008)

Contato para adquirir o CD: paola@hydra.com.br

Entrevista:

1 - por que Armandinho? Alguém na sua família influenciou você? Algum professor?

Quando ingressei no mestrado precisava escolher um tema de estudo que eu gostasse muito e que me estimulasse a tocar. Também queria que fosse relacionado ao violão brasileiro, mais particularmente ao choro. Tinha muito medo de parar de tocar para escrever o trabalho. Escolhi o Armando Neves pois gostava das poucas composições que conhecia e não sabia nada sobre ele.

2 - você conhece algum compositor de violão que trabalhe tanto as cordas graves como faz Armandinho?

Armando Neves realmente trabalha as melodias graves de forma peculiar. Acredito que ele foi influenciado por vários violonistas como João Pernambuco, Agustín Barrios entre outros e a partir do contato com estes músicos desenvolveu sua própria maneira de tocar e compor ao violão. O fato de usar a afinação com a sexta corda em ré em mais ou menos metade de suas composições nos dá uma idéia da importância e cuidado que ele tinha com a condução melódica dos baixos. 

3 - você tem idéia do que Armandinho ouvia para compôr tão bem e tão refinadamente - sendo ele um homem tão simples?

Armandinho trabalhou como chefe do Regional da Record por 30 anos. Apesar de ele ter um cargo público, o seu cotidiano era a radio onde tinha contato com os mais variados músicos que passsavam por lá, regentes, compositores, instrumentistas. Ouvia as mais variadas programações, ópera, big bands, acompanhava os grandes “cartazes” da época, musica clássica, lembremos ainda que toda a programação era ao vivo. Acho que tudo isso aliado ao seu talento alimentavam sua veia composicional que é bem característica nas suas várias fases. Antes, durante e depois da época da rádio.

4 - como tem sido a repercussão do cd?

Me sinto muito feliz com a repercussão do cd. Para uma geração mais antiga que conheceu Armando Neves, é como se eu tivesse dado um presente. Como se tivesse reparado a injustiça, infelizmente comum no Brasil, do anonimato de um compositor como Armando Neves. Recebo muitas mensagens carinhosas expressando isso. Para a minha geração é como se eu tivesse revelado um sujeito que se restringia ao álbum Fermata lançado por Geraldo Ribeiro em 1970. E para a nova geração é um compositor que, a partir deste trabalho, já faz parte do repertório. Sinto que foi um acréscimo importante para o repertório e para a historia do violão brasileiro.

É preciso salientar que, apesar do cd ser independente, está sendo muito bem distribuído pela Tratore no mundo inteiro. Recebo constantemente mensagens de várias partes do mundo parabenizando e agradecendo o trabalho, isso me deixa muito feliz e me impulsiona a dar sequência e gravar outro cd com outras composições.

5 - você optou pelo violão brasileiro ou trabalha também com repertório internacional?

Minha formação inicial foi com musica erudita portanto sempre trabalhei um repertório bastante amplo. Também sempre gostei muito de música brasileira. Temos um repertorio violonistico muito amplo e violonistas geniais em todos os períodos de nossa música.

O fato de sempre ter sido professora me fez, e faz ainda, pesquisar todo tipo de repertório e manter o repertório solo amplo incluindo vários estilos e épocas.

Trabalho também com o repertório do choro com o grupo Choronas e o repertorio erudito com o quarteto de violões Quaternaglia.

6 - o que você escuta?

Procuro estar sempre atualizada com a produção musical erudita e popular. Ouço também muita música erudita. Na verdade ouço de tudo.

7 - quem foram seus professores e quem você admira como violonista?

Comecei meus estudos com Manoel São Marcos com quem estudei uns 4 anos. Depois estudei com meu grande amigo Gilberto Rosa, que foi quem gravou o meu cd, e depois estudei uns dez anos com Edelton Gloeden.

É difícil ter algum violonista preferido pois, como já disse, temos violonistas geniais nos mais variados estilos e épocas. Gosto do Marco Pereira, Guinga, Ulisses Rocha, Edmilson Capelupi, Lula Gama, Fabio Zanon, Edelton Gloeden, Ítalo Peron...puxa essa lista pode ir muito longe. Fico feliz por morar no Brasil onde posso ouvir e ter contato com todos eles.

 

Santinho enviado por Sylvio Garrido

São Pixinguinha, protetor dos músicos

 

Ensina-nos sobretudo a escutar!

Proteja-nos das notas falsas, do dinheiro fácil

e do sucesso a qualquer preço!

Fazei-nos enxergar na música uma forma de prazer.

Dai-nos clareza para escolher e paciência para aceitar

a não música que escutamos.

Mostrai o caminho do perdão e nunca maldizer

um colega de profissão.

Enfim ajuda-nos a compreender melhor o mundo

através da música nossa de cada dia, amém!

O "Bando do Chorão" anuncia:

 

Acervo : Revista Roda de Choro – Pra quem Gosta de Música!

 

No ano 1996 saíram os 5 volumes da revista “Roda de choro” completamente consagrados ao choro; uma iniciativa dos Egeu Laus e Rodrigo Ferrari. A partir desse mês vamos publicar no formato pdf os 5 volumes dessa revista que contêm um monte de artigos interessantissimos no assunto do choro.

 

http://bando.do.chorao.free.fr/?p=1520

BORDOADA (1)





Estatuto da famosa roda do Rio de Janeiro. O artigo 1 não alivia...

Enviado por Ana Silva

BORDOADA (2)


Fim de uma era

 

Creio que os discos foram apenas uma pequena bolha no tempo, e aqueles que conseguiram ganhar a vida com eles tiveram sorte. Não há motivo para que alguém tenha ganho tanto dinheiro com a venda de discos, exceto a coincidência de que aquele período era perfeito para isso. Sempre soube que a coisa acabaria, cedo ou tarde. Não havia como durar. Não me incomoda que isso aconteça, pois a era do disco foi uma anomalia.

Foi mais ou menos como se, nos anos 1840, você tivesse uma fonte de banha de baleia que podia ser usada como combustível. Antes que o gás surgisse, se você comerciasse banha de baleia, poderia ser o cara mais rico do mundo. Mas o gás surgiu, e a banha de baleia passou a encalhar. Lamento, amigo: a história continua. Música gravada é a mesma coisa que banha de baleia. Algo mais terminará por substitui-la um dia.

 

Brian Eno

 

Tradução: Folha de São Paulo 07/02/2010

A íntegra desta entrevista saiu no "Observer"

 

Obs.: se há alguém que poderia se queixar do fim da era das grandes gravadoras ou mesmo da troca de arquivos é Brian Eno, pois ganhou e ganha rios de dinheiro produzindo música pop. Mas Eno é muito mais que isso, entre outras coisas, seus discos dos anos 1970 são bonitos demais.

 

BRASÍLIO ITIBERÊ (1846–1913), UM ABOLICIONISTA FERRENHO. E CHORÃO!

 

Participou ativamente da Campanha Abolicionista ‘tomando parte em concertos, como pianista e compositor, ainda cooperando para a alforria de escravos (Bruno Kiefer)

 

... um músico engajado politicamente pela liberdade daqueles que formaram a cultura do Brasil (Fausto Borém e Mario Luiz Marochi Junior)

 

 

Quando Arthur Moreira Lima gravou Brazílio Itiberê - quase um disco inteiro (*) - uma injustiça secular se desfazia: excetuando A Sertaneja, pouquíssima coisa dele foi gravada (este blogueiro conhecia apenas duas peças gravadas: Noturno (Ana Cândida LP Funarte 1981 - gravação original Rádio MEC 1961) e Protetor Exu (Arnaldo Estrella Antologia de Música Erudita Brasileira  - Selo Festa 1968).

 

Se por um lado há uma polêmica entre os estudiosos de sua obra - se “erudita” ou “ligeira” (**) - e essa discussão não vem ao caso aqui, por outro, e isso nos interessa, não existe a menor dúvida de que ela encarna a alma do choro na sua essência mais profunda.

 

Nascido quase 20 anos antes de Ernesto Nazareth, poderá ser facilmente confundido com ele pelo estilo em peças como Noturno, por exemplo. Peguemos um dicionário: languidez, sensualidade, entorpecimento, arrebatamento, romantismo exacerbado, aquela coisa esparramada, em outras palavras, o espírito da valsa nazarethiana ou deste Noturno de Itiberê.

 

Tal como Pássaros em Festa de Nazareth, Noturno começa anunciando algo chopiniano (ou como alerta o professor Paulo Boulos, Lisztiniano, sobretudo na concepção do acompanhamento da mão esquerda). Mas o que vem a seguir nada mais é do que uma sequência de frases ultra chorosas, semelhantes entre si, alteradas subsequentemente pela harmonia que se desenvolve. Como em Coração que Sente do mesmo Nazareth.

 

Alguém pouco afeito à música brasileira e muito à Chopin, vai achar esta forma de compôr, no mínimo, uma mera imitação do compositor polonês e ainda por cima piegas.

 

Na verdade é impossível compreender inteiramente o caráter dessas composições sem mergulhar no âmago do sentimento característico do Brasil. (***)

 

É preciso dizer também que Brasílio Itiberê nunca foi chorão como foi Nazareth ou Villa-Lobos. Mas foi sim no sentido lato da palavra. Uma pergunta sempre vem à mente quando peças de diversos compositores que mal tem a ver com o choro são objeto de arranjos para conjunto de choro. Sim, é super válido, mas há uma gama de compositores clássicos brasileiros que compuseram choros e valsas (ou peças de outro gênero mas que são choros no fundo) de rara beleza que estão dando sopa por aí. E este é o caso de Brasílio Itiberê.

 

Passemos ao abolicionista e ao nacionalista (****). Tudo indica que sua militância político-social-musical nasceu de um exercício puramente intelectual, como Alexandre Levy, Alberto Nepomuceno e ao contrário de Francisco Braga, Villa-Lobos ou Francisco Mignone que vivenciaram de perto as manifestações populares. Citando Helza Camêu, Bruno Kiefer reflete que foi após seu ingresso na Faculdade de Direito de São Paulo que tomou contato com “lundus e modinhas, música de salão, marcada por características brasileiras” bem ao gosto dos estudantes da época.

 

Neste caminho, Brasílio Itiberê teria privilegiado demais o lado popularesco em detrimento do lado erudito a ponto de motivar uma afirmação surpreendente, partindo-se de um mestre como Bruno Kiefer: “O que salvou o nome do autor foi A Sertaneja.”

 

Fausto Borém e Mario Luiz Marochi Junior em um estudo soberbo, discordam frontalmente desta idéia e pedem uma nova abordagem à obra de Brasílio Itiberê (**).

 

 

(*) CD disponibilizado com a autorização de Arthur Moreira Lima:

http://www.arthurmoreiralima.com.br/site/discografia/032.html
http://www.megaupload.com/?d=18KDXIDN

Noturno (Brazílio Itiberê) Ana Cândida (piano)
http://www.megaupload.com/?d=M6GFJO7Y
CD completo:
http://umquetenha.org/uqt/?p=9088

 

(**) http://www.revistas.ufg.br/index.php/musica/article/view/6007/4638

 

(***) Forçando um paralelo como o cinema, é comum não se compreender um filme como Zabriskie Point de Antonione onde nada acontece. Porém, os jovens espectadores sabiam exatamente o que se passava no imaginário daquela geração retratada no filme, daí, não ser para eles um filme parado, mas ao contrário, intenso até demais.

 

(****) A Sertaneja é tida como a primeira obra erudita brasileira de cunho nacionalista – ou como bem diz Bruno Kiefer, “início de um movimento contínuo e orgânico de busca consciente, da auto-afirmação nacional.”

 

Obras citadas:

 

Bruno Kiefer - História da Música Brasileira - dos Primórdios ao Ínicio do Séc. XX. Movimento/Sec/Mec - 1976

 

Helza Cameu - Importância histórica de Brazílio Itiberê da Cunha e da sua fantasia característica A Sertaneja. Revista Brasileira de Cultura, n. 3, 1970.

 

Fausto Borém e Mario Luiz Marochi Junior

http://www.revistas.ufg.br/index.php/musica/article/view/6007/4638

 

 

100 ANOS DE DJANGO


http://m.estadao.com.br/noticias/impresso,mobile,500184.htm



BRAZIL
, A 3ª VERSÃO

Django Reinhardt gravou Aquarela do Brasil de Ary Barroso (Brazil) em três ocasiões. As versões de 1947 e de 1949 diferem da de 1953, entre outros motivos, em razão do volume desproporcional da guitarra eletrificada que Django usa nesta última gravação causando desequilíbrio em relação ao restante do conjunto (*) (**).

 

Algumas idéias que se desenham nas duas primeiras versões atingem nesta última níveis estratosféricos! É realmente impressionante a qualidade desta improvisação e exemplifica bem porque Django fascina a tanta gente: é inteiramente extemporâneo. É um misto de extrema agressividade com beleza melódica numa linguagem incrivelmente moderna facilmente reconhecível quando ouvimos um Yamandú Costa, um Jimmi Hendrix.

 

Ao contrário de Charlie Christian, outro genial revolucionário capaz de criar sequências infindáveis de frases belíssimas em um curto espaço da guitarra (***), Django optava por frases longas, muitas vezes com as tradicionais ornamentações européias (das quais o choro é tão devedor). Isto é, enquanto o primeiro moldava solos com muito swing a partir do desenho do acorde e do contexto harmônico que se desenvolvia, o segundo tinha como premissa o puro prazer da escala e do arpejo criativos que desenhava sobre a harmonia, à maneira dos chorões da era moderna.

 

 * Os LPs de Jacob do Bandolim do início dos anos 1960, anteriores ao LP Vibrações, padeciam do mesmo problema. Curiosamente, anos mais tarde, tanto no caso de Django como no de Jacob, houve tentativas, involuntárias ou não, de solucionar este problema parcialmente: no caso do primeiro, com auxílio da tecnologia, a gravação de um LP com todos os solos originais de Django da mesma seção de Brazil com a adição de um novo acompanhamento sobreposto (LP Guitars Unlimited - 1968), e, no caso do segundo, o relançamento dos playbacks (acompanhamento sem solista) dos LPs Chorinhos e Chorões (1961) e Primas e Bordões (1962).

http://www.jacobdobandolim.com.br/imprensa_noticia.php?idconteudo=29

 

** Charlie Christian é citado como o solucionador deste problema, já que é fácil verificar que a sonoridade da quase totalidade dos guitarristas de jazz posteriores (Barney Kessell, Wes Montgomery, etc), vem dele e não de Django.

 

*** não deixar de ouvir improvisação de Charlie Christian em Swing To Bop, uma gravação amadora: http://regalameestanoche.blogspot.com/2009/03/charlie-christian-at-mintons-playhouse.html

 

 


Django Reinhardt em
Brazil (Aquarela do Brasil):

 

Blogs:

http://regalameestanoche.blogspot.com/search?q=django+brazil

ou

http://www.mediafire.com/?iwngnumxmmw

 

Detalhes das 3 gravações:

http://djangopedia.com/wiki/index.php?title=Brazil

 

 
CAIO CÉZAR INTERPRETA JOÃO PERNAMBUCO - VOL. 1  (1992 - Carrilhões CAR 001)

 

1. Sons de Carrilhões

2. Brasileirinho

3. Dengoso

4. Brejeiro

5. Sonho de Magia

6. Sentindo

7. Interrogando

8. Graúna

9. Choro Nº 1

10. Choro Nº 2

11. Cecy

 

http://rapidshare.com/files/331826140/CAIO_C__ZAR_INTERPRETA_JO__O_PERNAMBUCO_-_VOL._1__1993_.rar.html

 

ENTREVISTA

 

- Seu cd é o primeiro a tocar Pernambuco de forma natural?

 

CAIO:

Até onde sei, este é o primeiro disco de violonista (sem acompanhamento) dedicado inteiramente à obra violonística do João Pernambuco - mesmo até os dias de hoje.

 

- Você parece ter se baseado nas transcrições para violão solo de Turíbio Santos.

 

CAIO:

Sim. O trabalho que o Turíbio realizou foi primoroso. Tive a intenção de gravar a obra muito próxima do original composto pelo João e minha fonte para tal foram as transcrições do Turíbio Santos.

 

- Acha que as composições de Pernambuco funcionam bem das duas maneiras, isto é, também com acompanhamento?

 

CAIO:

A maneira que cada artista pensa a obra de João é sempre uma contribuição.

 

- Seu cd vem como vol. 1 - vc tinha a intenção de fazer outro?

 

CAIO:

Tenho sim intenção de gravar o vol.2. Na época tentei patrocínio e não consegui, o tempo foi passando e o projeto foi para a gaveta, mas penso em retomá-lo.

 

- Como foi a repercussão deste trabalho?

 

CAIO:

Foi boa a repercussão. A última conta que tive acesso estava em 6000 Cds, isso em 1997. Tive crítica dos principais jornais do país e realizei vários concertos aqui no Rio e no Nordeste.

 

- Você nunca mais gravou como solista? Por quê?

 

CAIO:

Realmente não gravei mais como solista durante esses anos todos. Eu me dediquei ao trabalho de orquestração, composição e direção. Este ano, 2009, voltei a tocar violão como solista no Trio de Câmara Brasileiro ao lado do bandolinista Pedro Amorim e do cavaquinista Alessandro Valente. Este era um sonho antigo de fazer música de câmara e convidei estes dois amigos e grandes instrumentistas para desenvolvermos o projeto. Gravamos o primeiro disco do trio executando a obra do violonista Canhoto da Paraíba. O disco foi patrocinado pela Petrobras e será distribuído pelo selo Crioula Records com o título "Saudades de Princesa" (referência à cidade natal de Canhoto, Princesa Isabel, na Paraíba).

O lançamento será em março deste ano e faremos uma turnê por sete capitais brasileiras, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Recife, João Pessoa, além de Princesa Isabel, sertão da Paraíba.

PRESENTE DE NATAL

 

O Instituto Moreira Sales volta a disponibilizar seu acervo completo. Praticamente todos os choros gravados do início do século até os anos 1960 estão lá para serem ouvidos a um simples "clique"...

http://ims.uol.com.br/

Obs.: interrupções ainda ocorrerão por algum tempo, mas o IMS nos tranquiliza, informando: 

A audição do Acervo de Música do IMS tem sofrido interrupções de maneira aleatória após mudança (física) de endereço dos nossos servidores. Pretendemos, muito em breve inclusive, e dando continuidade às renovações do nosso site, fazer uso de outro sistema que disponibilizará as músicas: a ideia é evitar essas aborrecidas falhas e melhorar o desempenho do sistema.

 

Grato ao sr. Fábio pela satisfação.

 

ORIGEM DA CAMERATA CARIOCA CONTESTADA POR JOEL NASCIMENTO

 

Jornal Cruzeiro do Sul, hoje:

http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia.phl?editoria=42&id=249026

FESTIVAL LEO BROUWER

A palestra Geraldo Ribeiro – vida e obra feita por Gilson Antunes para o II Festival Leo Brouwer de Violão em São Paulo, vista na tarde de hoje, foi comovente.

 

Na platéia Flávio Zanon, Francisco Araújo, Edelton Gloeden e mais um punhado de alunos (bem menos do que merecia o evento infelizmente).

 

Mestre Geraldo contou fatos de sua vida, como quando gravou uma das primeiras versões da La Catedral de Agustin Barrios, gravação fantástica ouvida no auditório a partir de um cd preparado artezanalmente por Sérgio Abreu, que retirou todos os chiados do antigo LP lançado em 1959.

 

Como bem disse Gilson Antunes, Geraldo Ribeiro é de uma geração em que intérpretes e compositores interagiam (Theodoro Nogueira e Cláudio Santoro compuseram para ele). Além disso, possuia uma característica rara: resgatar gênios esquecidos. Pelo fato do violão erudito e o popular no Brasil andarem juntos históricamente, Geraldo Ribeiro trouxe à luz a obra de um mestre "popular" como Armandinho (Armando Neves), tendo passado um ano na casa do compositor para escrever e gravar parte de sua obra que certamente estaria perdida quase completamente não fosse sua inicativa (Armandinho, pasmen, não escrevia sua música). Resgatou também a obra de Garoto, à época bem menos lembrado do que hoje – com a edição revisada e publicada de suas peças e um LP.

 

Gilson Antunes pediu ao mestre que gravasse suas próprias composições urgentemente – peças complexas, contrapontísticas com muita brasilidade e melancólicas – no que Flavio Zanon da platéia gritou: ‘”um não, dois!”.

 

A supresa reservada para o final, com a entrada no palco de Leo Brouwer para abraçar Geraldo Ribeiro, fechou o evento com chave de ouro.


Programação (festival encerrado dia 13 de dezembro):
 

http://www.festivalleobrouwer.com.br/cronograma/geral/crono-geral.html

CONTROVÉRSIAS EM 3 CHOROS



        
Devagar e Sempre, já trazia em sua primeira gravação (1949) o problema da falsa parceria entre Pixinguinha e Benedito Lacerda (Pixinguinha teria cedido as parcerias de todas as gravações da dupla em gratidão a um favor de Benedito Lacerda). Mas o choro é de Alfredinho (companheiro de Pixinguinha da Velha Guarda). O caso foi esclarecido por Ary Vasconcelos em A nova música da República Velha (1985) e conta também com o testemunho de Izaias de Almeida ao ouvir do próprio Pixinguinha a explicação sobre erro de impressão no disco 78 rpm lançado à época.

 

A autoria de Triste Alegria foi corrigida na gravação de Nelsinho (1979), dando os devidos créditos a Candinho e não a Bonfiglio de Oliveira, como consta na gravação original de Garoto (1951). Embora tratem-se de dois pesos pesados na arte da melodia e da forma, a 3ª parte denunciava o estilo de Candinho.

 

         O caso nebuloso diz respeito a Dinorá, choro dos mais populares. O senso comum é de que seja de Benedito Lacerda e José Ferreira Ramos, como consta da gravação original (1935) do próprio Benedito. Porém, há duas outras versões:

- a de que Benedito Lacerda “melhorou” o choro de José Ferreira Ramos para gravá-la (Ary Vasconcelos);

- a partitura que alguns chorões possuem, onde consta a autoria única de Cícero Telles de Menezes, porém, com outro nome: Flor de Liz (versão sustentada na nova gravação de Luciana Rabello e Maurício Carrilho de 2002).

 

Obs.: a gravação de Ademilde Fonseca (1944) traz a parceria Benedito Lacerda / Darci de Oliveira (provável letrista) notando-se a ausência de José Ferreira Ramos.

CHORÃO É O PRIMEIRO DESEMBARGADOR CEGO DO BRASIL

 

Em www.blogdochoro.zip.net sob o título O Choro no Direito resumimos uma tese descrita no livro O TRABALHO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA relacionando grupos socialmente discriminados à origem do choro. Seu autor, desembargador Ricardo Tadeu Marques da Fonseca foi empossado hoje no Tribunal Regional do Trabalho do Paraná pelo Presidente Lula.

 

Vale a pena recordar outra tese encontrada no mesmo livro, desta vez a respeito do jazz. Citando Stephen M. Stroff e seu livro Descobrindo o melhor do Jazz (Discovering great jazz, 1991 - Rio de Janeiro: Ediouro, 1994), relaciona mais uma vez “deficiência” à geniais criações:

 

“o blues e o jazz nascem ... da utilização pelos músicos negros de instrumentos em mau estado de conservação, já abandonados pelos brancos e adquiridos de segunda ou de terceira mão pelos negros. Esses instrumentos de sopro já não se afinavam com a precisão necessária, o que produzia notas até meio tom abaixo da escala normal, obrigando-os a desenvolverem uma escala musical até então desconhecida pela música culta: a escala pentatônica, cuja peculiaridade reside na inclusão da chamada blue note que imprime aos acordes um aspecto de lamento, de dor. A dissonância e as terças em bemol são as características básicas da estrutura do jazz e do blues. Subvertem-se, assim, as bases da música européia e o jazz reflui, posteriormente, no início do século XX, para a própria música erudita, que o incorpora como música culta...”

 

Esta é uma das teses da origem dos elementos básicos do blues e do jazz.

 

EVANDRO E SEU REGIONAL - Cordas que Falam (1978)

 

Hoje sabemos que o universo do bandolim nos anos 1970 era muito maior do que se via na mídia ou nos discos (aliás, isso sempre foi assim), portanto, quem não era do meio chorístico conhecia apenas um grupo reduzido de bandolinistas.

 

Déo Rian era um misto de simplicidade e imensa sensibilidade (imbatível em algumas lentas); Joel Nascimento a densidade, a profundidade do “toque” (uma palhetada que valia por 1000); Isaías era o improvisador nato, a noção de dinâmica (habilidade em expandir o tempo quando seu sentimento pedia). Nos anos 70 eles eram a referência.

 

Evandro também era muito querido, menos “chorado” na interpretação, certamente por influência de seu professor Luperce Miranda. Alternou belos discos (Pixinguinha e Benedito Lacerda pela Copacabana, 1972; Brasil, Flauta, Bandolim e Violão pela Marcus Pereira, 1974 – ambos com Manezinho da Flauta) com outros de repertório batido para consumo imediato de um público novo que, àquela época, passou a consumir chorinho. Nos anos 90, gravaria uma bela série de cds no Japão pelo selo Tartaruga.

 

Evandro declarou certa vez que o LP Cordas que Falam, de 1978 (Copacabana) foi lançado também no Japão. Teria sido justamente este disco que introduziu Evandro naquele país, onde o bandolinista é extremamente popular?

 

O certo é que Cordas que Falam é um disco bastante especial. Além de boa sonoridade (algumas faixas lançadas em cds coletâneas de Evandro tiveram perdas na qualidade do som), o LP tem repertório muito bom (nada óbvio) e arranjos bem cuidados. Percebe-se ouvindo este disco, que, quando Evandro podia, dava de si e ao choro o melhor. O cavaco de Lúcio está bem audível em suas nuances rítmicas, o 7 cordas de Pinheiro extremamente participativo no disco todo e especialmente charmoso em faixas como Quando Dois Amigos Se Encontram, onde antecipa cada compasso para as partes de Evandro com criativas baixarias. Destaque também para os ritmistas (Zequinha, Silvio Modesto, Branca de Neve, Natal e Théo) que apresentam uma gama de sons geralmente alheios ao choro.



Obs.: o sítio de Fernando Duarte http://www.bandolim.net/ traz outras resenhas de discos da época - além de outros articulistas com os quais tenho a honra de compartilhar o espaço.

Programa RODA DE CHORO de Ruy Godinho

 

Em http://www2.camara.gov.br/radio "acesse os programas" procure "parcerias" e clique em "Roda de Choro". Todo o sábado à tarde tem uma novidade. Segue o de ontem como amostra para ouvir e deliciar, para quem não ouviu no rádio. Agora a sinopse é para cada parte o programa. E.... pode até ser baixado em mp3...

Enviado por Américo 

OSVALDO COLAGRANDE

 
    Colagrande -  Caçulinha -  Pedro -  Clara -  Waldir -  Geraldinho -  Altamiro

Alertado pelo Prof. Zé Amaral, que entre outras coisas, é excelente colunista de choro http://mundolusiada.com.br/COLUNAS/ml_coluna_246.htm e prepara com sua equipe um esperado livro sobre o choro de São Paulo, notamos não haver na internet dados biogáficos a respeito do mestre Osvaldo Colagrande. Aí vai, portanto.

 

Nascido em Ipauçú, São Paulo, em 24/09/1930, foi, no entanto, registrado em Cambará, Paraná. De formação autodidata, iniciou sua carreira de músico profissional em 1951, como integrante do Regional de Antonio Bruno (acordeonista) onde participava do programa da Rádio Cultura Calouros Rodini (“acompanhando os calouros, aprendi muito” afirma ele).

 

Em 1955, Esmeraldino Salles o convidou para participar do regional do Siles (*), nas emissoras Tupy e Difusora:

 

“Eu trabalhava em uma gráfica ali perto e na hora do almoço ia assistir os programas de rádio, que na época eram ao vivo e em auditórios. Esmeraldino, que me conhecia como violonista, me avisou para ficar alerta que o Mão de Vaca (Manoel da Conceição) iria em breve deixar o conjunto para trabalhar com a Angela Maria. Eu acabei ficando em seu lugar”.

 

Colagrande nunca mais se separou de seu parceiro, o grande Esmeraldino Salles, criador de um balanço característico na arte do acompanhamento, do qual Colagrande é seu maior representante vivo.

 

E foi logo depois, em 1957, que Esmeraldino ouviu em primeira mão a 1ª parte de um choro que Colagrande acabara de compor, o Novato. Esmeraldino adorou e pediu para colocar uma 2ª parte. Eis aí a gestação do hoje famoso clássico Novato. Colagrande conta também, em sua habitual humildade, que “aquela improvisação escrita, que todo intérprete gosta de repetir, foi feita pelo Esmeraldino”.

 

Osvaldo Colagrande acompanharia nos anos seguintes grandes chorões do Brasil quando em viagem a São Paulo: Pixinguinha, Sivuca, Waldir Azevedo, Altamiro Carrilho, Jacob do Bandolim; cantores como Orlando Silva, Clara Nunes e Silvio Caldas (este último por 12 longos anos como integrande do Regional do Caçulinha).

 

Em 1971, adotou o violão de 7 cordas. Dino foi sua maior referência, porém, seu estilo não é igual ao do mestre carioca – suas baixarias estão muito ligadas à rítmica do choro paulista, suas frases trazem um balanço impressionante, diferentemente de Dino, clássico por excelência. O mais notável é que, embora sua “pegada” seja facilmente reconhecível pela originalidade, prefere a “levada” violonística dos cariocas, acha-a mais autêntica.


Em 2002, lançou finalmente seu belíssimo e fundamental CD Tributo a Esmeraldino com o Conjunto 1 x 0. http://www2.correioweb.com.br/cw/EDICAO_20030709/cadc_mat_090703_52.htm

 

Hoje, aos 78 anos, mora em seu sítio em Itupeva (interior de São Paulo), com sua eterna companheira, Dª Maria José (casaram-se em 1954). Não pense o leitor que ele se rendeu à aposentadoria. Não, sua vitalidade continua a mesma. Vem de 15 em 15 dias no Bar do Café encontar seus velhos amigos e alguns jovens chorões que o vêem como espelho (**) para uma roda de choro de dar gosto.

 

Bem, e como exemplo de como sua cabeça jamais parou de avançar, mestre Cola nos disponibiliza uma de suas “brincadeiras” caseiras, uma autêntica aula de 7 cordas. Sobre o violão de Baden Powell no samba Falei e Disse (parceria de Baden com Paulo Cesar Pinheiro) ele “montou” baixarias cortantes, bem a seu estilo, forçando-nos a pensar o que Baden não acharia disso! Nenhum exibicionismo, somente categoria, classe, uma jóia (reparar na hexatônica no minuto 1:50). http://rapidshare.com/files/271054130/Baden-Colagrande__montagem__Falei_e_Disse.mp3.html


(*) Grande clarinetista e arranjador, Siles (Wanderley Taffo) gravou álbuns instrumentais soberbos nos anos 50, http://loronix.blogspot.com/2007/07/siles-e-seu-conjunto-samba-society-1958.html além do raríssimo LP Brejeirice, recheado de improvisações do matreiro cavaquinho de Esmeraldino, do acordeon surpreendente de Wandereli Rizzoto e da guitarra de Poly arrebentando.
24/05/2010 - Atualização:
Blog que disponibilizou este LP:

http://vinylmaniac1.blogspot.com/2009/12/siles-syles-e-seu-conjunto-brejeirice.html

 

 

(**) O Bar do Café fica na rua Tagipuru, 176, perto da estação Barra Funda – na foto abaixo, Cola é secundado pelo Prof. de violão clássico, Marco Grabolos (todos os chorões e amantes do gênero estão convidados).

PRESENTE DE ANA


Ana, esposa do mestre Valdir 7 cordas, mandou este belo vídeo do Grupo Chapéu de Palha, gravado em 1977.

Grato ao Américo pela divisão dos links. É ele quem dá o recado:

Compactei o vídeo em avi . Dá trabalho baixar, mas vale a pena. Deu um total de 700MB aproximadamente e já está disponibilizado no 4shared, compactado pelo rar em 7 partes. Devem ser baixadas as 7 partes e colocadas na mesma pasta antes de descompactar. Para descompactar use o wnrar ou o 7zip.

Teste antes de disponibilizar no blogdochoro, baixando, descompactando e assistindo.

http://www.4shared.com/file/116321060/7e5660da/chapeupart1.html

http://www.4shared.com/file/116328564/2f829a2/chapeupart2.html

http://www.4shared.com/file/116328564/2f829a2/chapeupart2.html

http://www.4shared.com/file/116331647/ebe9c2f9/chapeupart3.html

http://www.4shared.com/file/116333699/13f65938/chapeupart4.html

http://www.4shared.com/file/116336804/81c543f4/chapeupart5.html

http://www.4shared.com/file/116342965/9c18f594/chapeupart6.html

http://www.4shared.com/file/116503646/a71ea329/chapeupart7.html

A FOTOGRAFIA MAIS LINDA DO MUNDO


 
     Candinho                           Pixinguinha

CHORO, O INCOMPREENDIDO (1)


Como o chorinho é visto “de fora”, isto é, por pessoas de bom gosto, que admiram música instrumental, mas não fanáticas pelo genero?

O texto do qual trataremos simboliza bem esta visão: http://farofamoderna.blogspot.com/2008/11/caros-admiradores-da-musica.html

 

Analisemos algumas passagens :

 

não há como negar que o Choro ... seja uma gênero musical antigo que, ao longo da sua trajetória ... lhe foi adicionado poucas inovações...

 

Isto não é correto, o choro foi influenciado pelo samba (rítmo), pelo jazz (Severino Araújo), pela música impressionista (Garoto), etc. Mas o problema não é este. Todas essas e outras inúmeras modificações jamais mudaram a essência do choro, daí a sensação do articulista de ser uma música de raiz que se mantém tão conservadora...

 

Em outro trecho:

 

Hoje temos mais um grande revival do Choro, dessa vez com toda aquela necessidade de modernização ... surgiram grandes instrumentistas capazes não só de resgatar o choro, mas de modernizá-lo elevando-o a um status cada vez mais artístico: falo do violonista Yamandu Costa... Hamilton de Holanda...

... As formações, por sua vez, estão mais atreladas à livre escolha da música contemporânea, saindo daquele formato padrão dos antigos regionais...

 

Modernização harmônica ou composicional (Garoto, Radamés, Esmeraldino, Laércio de Freitas, etc.) e formação instrumental diversificada são das maiores características do choro desde sua origem, portanto a colocação não procede. Na verdade, o que quer se dizer, porque atende aos anseios do articulista, é que muito do que se faz hoje não é choro, mas música instrumental de qualidade. A MPB instrumental, desde a época em que assim se denominou fortemente, final dos anos 1970 (Medusa, Pau Brasil, Cama de Gato) é próxima ao jazz e suas variantes (*). Por mais brasileiros que sejam Yamandú Costa e Hamilton de Holanda e por mais chorinho que corram em suas veias, muito de sua música é similar à música instrumental que se faz em outros países.

 

Não se faz aqui juízo algum de valor, apenas não se chama de choro uma música que mantenha alguns de seus longínquos elementos apenas. O essencial está ausente (ver É CHORO? em www.blogdochoro.zip.net).

(*) Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti não entram aqui, porque compõe choro de verdade, embora às vezes não pareça.

 

CHORO, O INCOMPREENDIDO (2)

 

Por que a música instrumental brasileira e a bossa-nova instrumental tem estilo correspondente em outros países e o choro não?

 

Primeiro porque na música instrumental em geral existe uma base jazística e isto facilita o intercâmbio. O choro já é música de raiz, o diálogo com a música flamenca, andina, o jazz, o tango e o fado instrumental, etc. é de outra espécie.

 

Segundo porque a composição no choro é fundamental; como grande parte dos instrumentistas tem predileção pelo improviso desvinculado da composição, os gêneros musicais que requerem uma certa obediência à estrutura, à harmonia e à linha melódica, não são os caminhos mais adequados para esta liberdade almejada.

 

A música andina “sofre do mesmo mal”. Conjuntos que têm um instrumental artisticamente perfeito, considerando composição e interpretação, como Quilapayún e principalmente o Inti-Illimani, não conseguem fazer com que esta música tão bela se desenvolva em outros gêneros instrumentais sem que o resultado pareça esteriotipado. Gato Barbieri teve 2 de seus melhores trabalhos reunidos em uma coletânea (Latino America), interessante tentativa de diálogo entre sua música livre e a música andina. Entretanto, o sentimento transcendente, tão característico do gênero perde sua força, que, como no choro, não pode deixar de existir para que a potencialidade das inspiradas composições atinja a plenitude.

 

A canção brasileira, esta sim, se adapta perfeitamente a experimentos instrumentais diversos – os discos The Brasil Project de Toots Thielemans que o digam. Mas não foi por desconhecimento que ele deixou de fora o choro, com toda a certeza. É que isto exigiria outra abordagem do gaitista.

 

Bem, mas não é preciso ir muito longe, o Ragtime (com estrutura semelhante à do choro) raramente foi objeto de reiterpretações no meio jazístico por todos esses motivos, e quando o foi, como no disco Scott Joplin: Interpretations'76, de Mike Wofford, a coisa só funcionou como jazz.

 

O choro não tem medo de experiências – até as aparentemente incongruentes – mas em algum momento ele precisa ser reconhecível.

 

O QUE DEVEMOS ÀS GRAVADORAS?


Curioso, este blog jamais teve a intenção de disponibilizar discos ou cds de choro, mas as poucas vezes em que isto foi feito, contou com o apoio imediato dos artistas consultados: Francisco Araújo, Izaías & Izrael de Almeida, Odette Ernest Dias, Geraldo Ribeiro e Grupo Chapéu de Palha. Só não consultou os herdeiros de Darius Milhaud, por motivos óbvios, foi ele o maior pirata (do bem) da música brasileira e certamente não se importaria em ser pirateado.

O fato de a maioria dos chorões não se opôr à pirataria revela uma obviedade: eles nunca dependeram da venda de LPs ou CDs para viver; é preferível, pois, ter seu trabalho divulgado de uma vez e livremente pela internet.

 

Isto não ocorre apenas no choro, pouquíssimos músicos no mundo sobreviveram através das gravações; somente uma minoria (geralmente cantores de grande sucesso) são prejudicados por ela.

 

Este texto vem a propósito de alertar contra novas investidas contra a liberdade da internet, seja através das gravadoras http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/10/071005_multapirataria_fp.shtml,

 

seja através de governos http://www.estadao.com.br/noticias/tecnologia+link,brasil-pode-ter-sua-propria-lei-sarkozy,2785,0.shtm

 

O Observatório da Imprensa, talvez o site de maior credibilidade jornalística do país, está atento: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=538ENO005

 

Até o ultraconservador jornal O Estado de São Paulo tem publicado matérias memoráveis a respeito (jamais condenando a pirataria), seja na área erudita, seja na popular, seja no caderno Link http://www.estadao.com.br/noticias/tecnologia+link,uma-pirata-de-21-anos-rumo-ao-parlamento,2812,0.shtm

 

Uma coisa parece certa, como bem demonstra este artigo do Estadão referente ao Partido Pirata Europeu: as novas gerações não aceitam mais voltar atrás. E o mundo será deles.

JÚLIO LERNER


Quando pensávamos em procurar Júlio Lerner para falar sobre sua experiência com o choro, como sua iniciativa bem sucedida de levá-lo para a televisão no início dos anos 1970, soubemos de seu falecimento.

Izaías de Almeida o conheceu e participou com ele de todo o movimento de recuperação do choro em São Paulo nestes anos:

“José Ramos Tinhorão, assíduo frequentador das rodas de choro do D’auria, foi quem levou Júlio Lerner para lá. Júlio se apaixonou por aquela música e logo criou com Tinhorão um programa na TV Cultura. O primeiro programa não foi de choro, mas de seresta, com Renato Petra, mas aos poucos o chorinho foi entrando. Até que criou ‘O Choro das Sextas-feiras’ (depois vieramA noite do Choro’ e ‘A Alegria do Choro’).”

Para se ter uma idéia do engajamento de Júlio Lerner com o choro, um pequeno depoimento deste blogueiro (então guitarrista de rock): 

 

“Havia um jovem conjunto de rock nos anos 1970. Muito amigo do pai do baixista, Julio Lerner um dia foi ao ensaio. No primeiro intervalo, com muita classe, reuniu os integrantes da banda numa roda e os chamou à conciência. Era algo como, “vocês têm que tocar música brasileira, choro, têm de tocar choro!”. Não pense o leitor que foi um discurso de cima para baixo, arrogante ou nacionalista barato. Foi de alguém que realmente falava com amor à causa. Ademais, por ser de esquerda como Tinhorão, fazia-nos compreender o momento político em que vivíamos no Brasil em plena ditadura e a alienação que ajudávamos a propagar. Para nós, jovens e idealistas, este discurso teve efeito devastador. Em pouco tempo incluímos no repertório “Terna Saudade” de Anacleto de Medeiros. O resultado deve ter sido pífio, mas foi o começo... Na verdade o rock nunca deixou de fazer parte de nossas vidas, mas coincidência ou não, o preconceito com relação a música brasileira desapareceu nesta época”.

 

Como bem observou o jornalista Marcelo Coelho em seu blog, “a cultura brasileira deve muito a Júlio Lerner... na época em que chorinho era uma coisa completamente fora de moda... ele tinha um programa semanal na TV Cultura... em que de um jeito muito suave e caloroso trazia músicos muito “em baixa” para o conhecimento do público.”

 

Izaías relata algo semelhante: “o choro, tanto no Rio como em São Paulo, estava muito mal por esta época. Começou a ressurgir com iniciativas como a de Tinhorão e Lerner em levar D’auria e companhia para a televisão”.

 

Lerner faleceu aos 67 anos, em 2007.

O CHORO DA UMES


 
Madeira de Vento interpretando Frio e Chuva acompanhado pelo próprio compositor e arranjador Izrael de Almeida ao violão.


O idealismo com que os estudantes da UMES organizam esta série de espetáculos de choro é tocante, o respeito pelos mestres que lá vão tocar, o carinho no trato com o público. http://www.umes.org.br/umes/noticias.php?ID=744. 

Patrocinam, também, a ida de uma escola pública diferente a cada semana, com dezenas de alunos adolescentes que não teriam a oportunidade de ouvir música instrumental deste nível em outro lugar. Mesmo com repertório sem conceções, como o desta última 2ª feira (com o excelente conjunto Madeira de Vento), são sempre surpreendentemente receptivos. Emocionante.

SR. WILSON


Se você estiver tocando choro em São Paulo e observar um flash vindo em sua direção, pode apostar sem medo de errar: o sr. Wilson Caldana o está fotografando. Você irá direto para o seu recente e precioso arquivo de mais de mil fotos (até agora...), juntando-se a dezenas de intérpretes chorões. 

"E
scolhi o chorinho pela música e pela habilidade dos músicos para interpretá-la”, diz ele. Engenheiro eletrônico e físico, cruza a cidade de norte a sul nas poucas horas que lhe sobram apenas para registrar para a posteridade este momento do choro em São Paulo. Generoso, doa cópias das fotos aos músicos, o que lhe tem valido grandes amizades.

Por ser impossível dar aqui uma amostra abrangente de seu trabalho, escolhemos ao acaso 3 registros:

 
Conjunto Retratos em Pinheiros (Praça Omaguás)

 
Arthur, Cidão e Moretti no SESC Paulista

 Casa de Marimbondo em São Bernardo do Campo (Festival Viva o Choro 2009)

Pois nesta 2ª feira passada, lá estava ele em mais um espetáculo imperdível: Toninho Carrasqueira e Izaías & Israel entre amigos a interpretar o mestre João Dias Carrasqueira.

   Toninho Carrasqueira


JOÃO DIAS CARRASQUEIRA

Se tivéssemos de definir em uma palavra o estilo Carrasqueira (afinal o sopro sublime do pai passou para o filho) diríamos sem medo: é o sopro mais “triste” da flauta brasileira. Literalmente a flauta chora. Há momentos que você sente seu sopro contido como se fosse uma voz embargada tamanho é o sentimento que dali sai. Mas tudo isso sob um domínio técnico primoroso. 

A surpresa no espetáculo foi uma valsa de João Dias Carrasqueira e Esmeraldino Salles, uma parceria surpreeendente que fez o tempo parar no teatro UMES. A ausência, o lindíssimo choro Apanhei-te Joãozinho (caramba, por que não tocaram?).

Toninho fez menção a uma possível gravação de choros do pai. Como seria bem vindo um cd destes...

 João Dias Carrasqueira

BARNEY KESSELL, JIM HALL, CHARLIE BYRD, SE CHORÕES, TOCARIAM 6 CORDAS

 

O violão de 6 cordas no conjunto de choro anda em baixa - são poucos os que têm se dedicado à arte deste instrumento. Há, naturalmente, motivos econômicos para sua presença ao vivo estar minguando, o cachê às vezes exige um enxugamento no time e ele é o primeiro a ser descartado.

 

Entretanto ele tem uma função fantástica não devidamente avaliada pelos joverns ao adentrar no mundo do choro. Para começar, ele goza de uma liberdade maior do que a de outros instrumentos.

 

Dirá alguém que liberdade maior tem o violão de 7 cordas, porque tem a preferência para fazer as baixarias que quiser. Em parte somente - o 7 cordas tem funções burocráticas como passagens obrigatórias que estruturam o choro mais escravizantes (sem o sentido pejorativo, evidentemente) do que algumas tarefas do 6 cordas, como as terças, por exemplo.

 

Na verdade, o 6 cordas tem um mundo a desbravar durante a execução de um choro e para isto não existem limitações. Quer fazer uma contra melodia, faça, quer fazer um solo virtuosístico em algum espaçinho livre, ouse, quer explorar a harmonia, explore.

 

O exercício mental exigido por quem fez sua opção por este instrumento é imenso. Em primeiro não se fará o mesmo desenho do acorde do violão de 7, que ficará com os mais tradicionais. Só isso será um aprendizado e tanto, pois, depois de algum tempo o chorão estará familiarizado com variações do mesmo acorde e conhecendo o braço de seu violão em toda a sua extensão como ninguém.

 

O título deste texto lembra que o estilo de muitos guitarristas de jazz é absolutamente adequado à função do 6 cordas no choro, principalmente aqueles jazistas que têm na harmonização o seu forte.

A HERANÇA

 

O mero comentário sobre uma apresentação de chorinho em São Paulo já traz em si uma injustiça – pois não se pode estar em todos os espetáculos de choro (que para a felicidade geral aumentam a cada dia) para poder comentar sobre as emoções vivenciadas.

Mas as poucas em que conseguimos ver, como a de ontem, no SESC Paulista, valem muito.

O conjunto Ó do Borogodó surpreendeu, a começar pelo bom gosto do repertório, os arranjos espontâneos mas precisos, e músicos de primeira grandeza.

Como em blog há que se falar pouco, por hora falemos apenas sobre uma das experiências mais tocantes que este blogueiro já viveu no mundo do chorinho, isto é, como a vida se movimenta, como a herança de uma geração é herdada pela seguinte.

Gian Correa, o Pingo, não é exatamente da geração que seguiu à de Osvaldo Colagrande, são 50 anos que os separam, mas a influência devido a alguns anos de convivência com o mestre é cristalina. Vê-se, evidentemente, muitas outras influências (às vezes até mais fortes), mas o que chamou a atenção, pelo inusitado, foi aquele balanço peculiar nos improvisos isolados (que Pingo nos brinda em doses generosas), frases à lá Esmeraldino Salles e Osvaldo Colagrande. Faltaram só aquelas escalas “dissonantes” tão caras aos dois mestres (tons inteiros, etc.) mas Pingo seguirá seu próprio caminho, pois talento e personalidade sobram por ali.

 Alexandre Ribeiro – clarinete; Gian Correa – violão 7 cordas; Ildo Silva – cavaquinho; Roberta Valente – pandeiro (Ó do Borogodó).

Obs.: a apresentação está disponibilizada: http://www.instrumentalsescbrasil.org.br/ - ao lado esquerdo da tela que se abre (Todos os Shows), clicar em ver todos - e clicar novamente em Ó do Borogodó - e não deixar de escutar ao menos a improvisação em NOVATO.

JOÃO PERNAMBUCO: CAIPIRA OU SERTANEJO?

 

O Jornal Folha de São Paulo realizou uma enquete: qual seria a melhor música caipira de todos os tempos?

 

Como o choro, a música caipira é tratada sempre marginalmente na mídia, por isso, foi louvável tamanho destaque no seu caderno Ilustrada.

 

As músicas vencedoras não surpreenderam, são belíssimas, bem conhecidas e adequadas ao perfil dos leitores do jornal que não são exatamente os ouvintes de música caipira.

 

Para que um número maior de leitores fosse atingido, foi preciso que alguns dos jurados não fossem especialistas em música caipira mas apenas pessoas de bom gosto que valorizam qualquer música bonita. Ou seja, se fizessemos um paralelo com o choro e as mesmas pessoas votassem, estariam eleitos Carinhoso, Tico-Tico no Fubá, Odeon, etc., belos mas óbvios.

 

Agora, se você perguntar para algum chorão, seja ele ouvinte ou músico, ou para algum amante genuíno da música caipira, isto é, aquele que não vive sem ela, que a escuta diariamente, esta eleição do jornal ou alguma fictícia do choro poderia surpreender pelo leque que se abriria. O aficionado, de qualquer gênero, sabe como encontrar jóias menos divulgadas tornando-as não raras vezes suas peças prediletas.

 

Apenas para citar um exemplo de como enquetes diluídas como a da Folha causam injustiças, entre as 78 canções citadas pelos diversos jurados, somente um deles lembrou o nome de José Fortuna (a outra referência não trata de composição sua). Transportando para o choro, seria como se Jacob do Bandolim (como compositor) só fosse lembrado por um votante apenas (em um grupo de 160 choros escolhidos por 16 críticos, pesquisadores e compositores).

 

O jornal se justifica e reconhece que a enquete não é científica ou estatística.

 

Um segundo probleminha precisa ser lembrado. Diz o jornal: a enquete aponta alguns dos maiores clássicos da música caipira e ajuda qualquer interessado pelo gênero a montar um CD danado de bão.

 

Cedezão sim, mas de música caipira? Uma rápida olhadela na relação completa coloca em xeque a afirmativa.

 

Mas nos atenhamos ao chorão e sertanejo João Pernambuco e o poeta Catulo da Paixão Cearense na parceria (*) Luar do Sertão (7ª colocada). Para isso consultamos um dos jurados, especialista em música nordestina, o pesquisador e radialista Assis Ângelo, que nos ensinou através de e-mail:

 

No rigor, digamos, houve certa confusão no levantamento da Folha. Caipira é caipira, como matuto é matuto; e nesse ponto ambos são os mesmos: de poucas letras.

Vamos ao caso:

"O luar do sertão", assim grafado, foi primeiro gravado por Eduardo das Neves no ano de 13 do século passado, e lançado em fevereiro de 14 pela velha Odeon, no Rio. O gênero original? Toada sertaneja. Depois, a partir de 1935, essa obra passou a ser registrada em discos como canção. Mas é, no original, uma toada canção.

 

Matérias completas:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u535294.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u530552.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u534511.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u534510.shtml

 

(*) João Pernambuco não aparece oficialmente no disco de Eduardo das Neves (78 rpm, nº 120.911). A polêmica em torno da autoria de "O Luar do Sertão", ou "Luar do Sertão", começou em 1937, quando o maestro Villa-Lobos anunciou que a obra tinha co-autoria: João Pernambuco. Almirante comprou a briga logo depois, para desespero de Catulo (Assis Ângelo, através de e-mail).

 

RODA DE CHORO


Imagine se Paco de Lucia reunisse semanalmente vários expoentes da música flamenca, numa descontraída improvisação coletiva, assim, gente como Manolo Sanlucar, Geraldo Nuñes, em lugar agradabilíssimo e com as portas abertas para o público.

Imagine, agora, se os Irmãos Marsalis fizessem o mesmo em seu país, recebendo váriados músicos do meio jazístico para uma “jam”, com entrada grátis para qualquer mortal.

Poderíamos supor que nestes dois casos, se verdade fosse, os lugares seriam disputados à tapa!

Isto é para mostrar o tesouro que temos nas mãos e muitas vezes não valorizamos - pois para os amantes do choro isto é realidade. Aqui em São Paulo, na rua Capital Federal, 186, pertinho do metrô Vila Madalena, juntam-se todas as sextas-feiras, às 21:00, um punhado de mestres do choro. Três horas de puro encantamento.

Sylvio Sampaio Garrido, o Silvinho, a quem todos são eternamente gratos pelo espaço, teve a feliz idéia há três anos: “Eu convidei o Izaias para uma roda de choro no estúdio numa sexta-feira - aí fizemos na outra sexta também e não paramos mais.”

Em pouco mais de 4 meses, este felizardo blogueiro viu craques como Luizinho 7 cordas, Alessandro Penezzi, Danilo Brito, Charles da Flauta e Henrique Cazes, capitaneados pela presença constante dos mestres Izaias e Izrael de Almeida, generosos e abnegados, pois bem poderiam estar tocando por aí e com polpudos cachês, porém, apenas para manter viva a chama das rodas de choro (e pelo prazer indescritível de uma boa roda, claro) organizam-na.

Há sempre lugar, também, para os jovens iniciantes que nunca saem de lá sem dar uma “canjinha”.
E se você não toca e é apenas um amante da boa música, há cadeiras confortáveis para se apreciar o desfile de choros e um cafezinho nos intervalos. Exige-se apenas silêncio.

Parece... mas não é um sonho.

 Izaias & Izrael

  
Zequinha                Sorriso

 
  Penezzi                  Paulo                        Baloi

 
  Sérgio       Silvinho       Izaias

(Grato ao sr. Wilson Caldana pelas fotos)

PIXINGUINHA, CARTOLA, JOHN LENNON, BOB DYLAN, VIOLETA PARRA...

 
- Qual clássico da MPB você acha que não merece esse título?
Nei Lopes: Rosa, do Pixinguinha.
- Qual canção considerada clássica mereceria uma letra melhor?
Nei Lopes: Essa mesma Rosa... (*)

         Esta aparente contradição do grande Nei Lopes (afinal,  é clássico ou não é?), só se explica pelo costume de atribuir à qualidade das letras o sucesso das músicas.
         Pensemos em As Rosas não falam (Cartola), Blowing in the wind (Bob Dylan), Imagine (John Lennon), Gracias a la vida (Violeta Parra).
Não há crítica ou resenha que não cante loa aos versos, fazendo-nos quase supor serem eles os responsáveis pelo sucesso da canção. Será que esses compositores não fizeram outras letras tão significativas? Com certeza fizeram, mas muitas vezes elas não foram acompanhadas de melodias tão bonitas. 
         Mas é bom lembrar
, contrariando a tese deste texto, que foi somente após a inclusão da letra de Otávio de Souza (18 anos após a gravação instrumental) que a valsa Rosa (Evocação, na versão original) deixou o universo exclusivo do choro e se tornou um clássico da MPB.

(*) Publicado em 14/02/2009, na seção "Antologia Pessoal" do jornal O Estado de São Paulo. Na verdade, por engano, a matéria foi publicada como sendo Ed Motta o entrevistado.

JOHN WILLIAMS “CONTATOU” VILLA-LOBOS

 
         Altamiro Carrilho se inspirou no compositor John Williams para compor o choro Contatos Imediatos, e tudo leva a crer que também o fez no seu belo Aeroporto do Galeão. Mas poderia ter se inspirado também no Uirapuru de Villa-Lobos, composto 60 anos antes (1917), afinal as “cinco notinhas” emitidas pelo disco voador no filme Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) são muito semelhantes às que permeiam o poema sinfônico de Villa.
        
Embora as trilhas sonoras sinfônicas de John Williams, Bernard Hermann e outros compositores de Hollywood sejam um prolongamento da música clássica do início do século XX (o Uirapuru daria uma trilha e tanto!), não é provavel que tenha havido plágio. As notas não servem ao desenvolvimento da trilha (como no caso de Villa), estão praticamente isoladas no filme, com exceção da variação sinfônica nos créditos finais que lembra vagamente o Uirapuru. Mas Contatos sucumbe à “maldição” da analogia: quem escuta Uirapurú, não consegue deixar de comentar, “olha lá o tema do filme...”.

Obs. 1: http://emboladaetc.blogspot.com/2008/02/uirapur-villa-lobos-cinderela-prokofiev.html

Obs. 2: obrigado ao blog http://viagemusical-trilhas.blogspot.com/ pelo link da trilha sonora de John Williams.

A TESE DE RUY CASTRO


       Excepcional artigo escrito por Ruy Castro  (http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0009/0424.html ) ( * ), traz um histórico do intercâmbio musical entre o Brasil e os Estados Unidos, a partir de 1917.  
       Ao se tratar da música da nossa preferência, é sempre prazeroso ouvir a opinião de alguém de "fora", um especialista em outro gênero de música, porque, relacionando sua experiência pessoal (musical e cultural) ao novo objeto de sua análise, revela sutilezas que antes passavam batidas, devido ao nosso envolvimento natural com a música de nosso coração.
       É o caso de Ruy Castro quando fala de samba. Não que ele não seja, também, um expert na matéria, contudo sentimos que sua grande paixão mesmo é a música norte-americana.
       Portanto quando ele escreve que De 1935 a 1942, Orlando Silva foi o maior cantor brasileiro. Talvez o maior do mundo... ( ** ) isso talvez tenha peso maior do que a opinião dos fãs de primeira água do cantor, pois, deles, não poderíamos esperar outra coisa. E Ruy finaliza: Não há nenhum ufanismo nessa afirmação. É só comparar seus discos dessa fase com os da concorrência internacional no período...     
       Como Jonas Vieira ( *** ), Ruy Castro também tem uma tese sobre a origem do estilo do gênio Orlando Silva: 
    
Embora não conste que o próprio Orlando tenha algum dia se referido a isso, o cantor de quem ele mais se aproximou (...) foi Bing Crosby. (...)
Sim, seria mais confortável acreditar nas palavras de Orlando, que modestamente definia seu estilo como um meio-termo entre o vozeirão de Chico Alves (...) e os dotes de intérprete de Sílvio Caldas. (...)
Tudo bem - se Orlando jamais tivesse ouvido Bing. Mas, com a já arrasadora fama mundial de Bing (...) desde 1927 (...) isso era impossível. (...)
É certo que Orlando conhecesse pelo menos nos cinemas as suas interpretações...
       Em contrapartida, recapitulemos, pois, a tese de Jonas Vieira:
A resposta mais aparente, penso eu, está na origem do querido cantor, filho de um músico de choro (...) cuja casa era frequentadíssima por grandes músicos do gênero na época, destacadamente o mais famoso de todos, Pixinguinha. (encarte do LP "Orlando Silva" - Funarte, 1985). ( *** )
       Não necessariamente uma tese exclui a outra; Orlando pode ter sido espiritualmente influenciado pelo choro e tecnicamente por Bing Crosby . E se o leitor quiser um complicador a mais, e dar-se ao trabalho de entrar no ims.com.br, e ouvir os quatro primeiros 78 rpm de Floriano Belham (1930/1931 - ele gravaria somente mais quatro, a partir de 1935), notará que ali poderia estar a semente de Orlando Silva.
       Porém, de todo o artigo de Ruy Castro, somente uma coisa incomoda; é quando afirma:
Já me perguntei, até por escrito, se Orlando Silva, (...) teria surgido se não existisse Bing Crosby nos Estados Unidos...
       Seria o mesmo que dizer que Orlando Silva não existiria sem o choro, ou sem alguma outra possível influência. Vamos imaginar assim: se Jimi Hendrix não tivesse nascido, a guitarra elétrica seria a mesma? A história é feita de tendências, de consequências: se Hendrix não nascesse outros ocupariam o seu lugar, porque a "sensação" (a evolução) estava no "ar", quem pegasse primeiro "revolucionaria". Explicando: não é o artista que faz a revolução, mas o que a percebe e a materializa. Ousamos, então, responder a pergunta de Ruy Castro: sim, Orlando Silva existiria.

( * ) O artigo Das bananas ao "Desafinado" e além também foi publicado no livro A ONDA QUE SE ERGUEU NO MAR, de Ruy Castro, de 2001.



( ** ) Caprichos do destino, artigo publicado no mesmo livro, sendo este, exclusivamente sobre Orlando Silva.
( *** ) Maiores detalhes, ver A TESE DE JONAS VIEIRA em
blogdochoro.zip.net

Dicas:
1 - A antologia Bing Crosby - Bing! His Legendary Years, 1931 to 1957 lançada em 1994, pelo selo MCA pode ser facilmente baixada através do eMule.
2 - Já a coleção selecionada por Ruy Castro, Orlando Silva - O Cantor das Multidões Vol. 1, 2 e 3, de 1995 (RCA) pode ser baixada em http://www.umquetenha.org/?cat=45
, além do imperdível depoimento do mestre em Orlando Silva - Série Documento (1978).

FAUSTO CANOVA

 
         Se há alguns anos podia-se ouvir um ou outro chorinho nas rádios AM de São Paulo, isto se devia a programas como os de Moraes Sarmento, Zuza Homem de Mello ou Fausto Canova (a falha de memória ou a ignorância podem cometer alguma injustiça com algum outro radialista da época).
         Alguns programas tinham lances inesquecíveis, como um comentário de Sarmento contando que flagrara sua filha chorando ao ouvir a 3ª parte de Medrosa (Nasci para te amar) de Anacleto de Medeiros, tocando em seguida a versão belíssima de Muraro; ou Canova em seu programa apresentando em primeira mão o LP de estréia do "menino" Raphael Rabello, estupefato com a técnica do violonista.
         Fausto Canova, nos deixou no último dia 3 de janeiro.

CARLA BRUNI E O CHORO DAS 3


         Bonita, elegante, culta, ex-top model famosa, ex-namorada de Mick Jagger, atual esposa do presidente da França. Não, não, nada disso tem importância. Para quem gosta da música francesa, não existe nada melhor do que o surgimento de mais uma legítima cantora e compositora na tradicional chanson: Carla Bruni [ # ].

         As meninas do Choro das 3 também chamam a atenção por alguns atributos extramusicais: jovens e mulheres, num ambiente predominantemente masculino (será mesmo?) [ * ]. Isto pode servir ao choro de alguma maneira, atraindo a mídia, ou mesmo como promoção do próprio grupo, afinal, no mundo em que vivemos usamos todas as fichas disponíveis. Mas não nos percamos, não deixemos de ver o essencial: elas tocam muito!

  Choro das 3 - Meu Brasil Brasileiro (2008)

 http://www.chorodas3.com.br/blog.html

[ * ]  "... três mulheres herdeiras, cada uma a seu modo, do velho estilo tradicional dos pianeiros vindo do século XIX: a pernambucana Amélia Brandão, a Tia Amélia, a carioca Carolina Cardoso de Menezes, e a paulista Lina Pesce.
         Dessas três pianeiras brasileiras (e não deixa de ser curioso que uma parte da herança sonora dos chorões esteja nas mãos de três mulheres, continuadoras, assim, da tradição de uma das pioneiras criadoras do próprio estilo, a maestrina Chiquinha Gonzaga)..." (J. R. Tinhorão - contracapa do LP A Benção Tia Amélia - 1980).

[ # ]  De clássicos compositores como Trenet, Brel, Aznavour, passando pelos ecléticos Moustaki e Gainsbourg, pelo deliciosamente brega Bachelet, pela pop Hardy ou até o dançante Desireless (Rivet), para chegar em Bruni, o bom gosto e a fina melodia, acrescidos do clima mágico, dos arranjos (imbatíveis), dão unidade à canção francesa. Bruni herda, também, a impressionante musicalidade interpretativa das cantoras "sem voz" francesas, como Juliette Gréco (junto com Orlando Silva e mais alguns poucos, a maior intérprete do mundo!!! - para este blogueiro, claro...).

NOVIDADES NO CHORO


        Hermínio Bello de Carvalho, disponibiliza seu maravilhoso arquivo no sítio http://www.acervohbc.com.br. Por exemplo, se alguém quiser ouvir interpretações inéditas de Jacob do Bandolim, basta "clicar" em Músicas [player], ao lado esquerdo da tela, e, na página seguinte, digitar Jacob do Bandolim. Entre várias pepitas na relação de itens que se abre, encontramos um Ingênuo em arranjo semelhante à clássica gravação contida no LP Vibrações, que nada fica a dever à gravação original, ou um soberbo Sofres Porque Queres (escondido no item Solo de Jacob). Se a sonoridade destas gravações não é tão boa, em compensação, escuta-se perfeitamente todos os instrumentos (ao contrário de grande parte das gravações oficiais de Jacob). 

e também:

O PRIMEIRO SÍTIO SOBRE BANDOLIM NO BRASIL, AGORA RENOVADO:
http://www.bandolim.net/

NO ANO DA FRANÇA NO BRASIL, OUTRO SÍTIO RENOVADO:

http://bando.do.chorao.free.fr/

BLOG DE PESQUISA DE INTÉRPRETES DO RÁDIO:
http://thmatarazzo.bloguepessoal.com/

 


ATUALIZAÇÃO (15/01/2012):

PROGRAMA CHORO DOS CHORÕES

Todos os sábados, a partir das 5h30, pela Rádio 9 de Julho AM-1600 KHZ.
 
Há 8 anos no ar, é um programa 100 % de chorinho, ritmo tipicamente
brasileiro, que fala das coisas do Brasil e possui audiência fiel...
Apresentação Gilberto Gaeta (locutor-apresentador com passagens
inclusive pela Rádio Record, Rádio América, TV Manchete e SBT).


A IDÉIA QUE FALTAVA PARA O CHORO


            Músicos de primeira, arranjos simples, transparentes, porém sérios e caprichados, na medida certa para a observação de cada instrumento: como é a “batida” do cavaquinho, como dialogam os violões de 7 e de 6 cordas, como é o toque sutil da percussão. Só esta exposição das entranhas do conjunto de choro já justificaria o projeto. Mas ainda podemos tocar junto, acessando a gravação onde não conste seu intrumento, solista ou acompanhante de cordas: http://www.choromusic.com.br/

           

OBS.:   As gravações dedicadas à obra de Ernesto Nazareth dão um bom debate. Como parece claro nas polcas e nas valsas, o piano de Nazareth é facilmente adaptável ao regional. O enrosco começa com os tangos pois a melodia, que geralmente está na mão direita pianística de Nazareth, sempre vem acompanhada de notas do acorde, o que dá um brilho impossível de ser tranferido para instrumento de sopro, bandolim ou cavaquinho.

 

            Outro desafio que Nazareth traz aos solistas de regional (aí incluídas as valsas, polcas, tangos, etc.) é de como contornar o problema dos “cortes” na melodia, uma vez que o número de oitavas do piano é maior do que em qualquer outro instrumento. Se o ouvinte observar, verá que muitas vezes o solista de regional termina as últimas notas de uma frase ascendente (que no piano segue naturalmente até o fim) fazendo um corte e se socorrendo na oitava abaixo para terminá-la. O caminho é botar a imaginação para funcionar para impedir este ante-clímax. Às vezes a solução funciona magníficamente (*), outras nem tanto.
 

(*) Ver O NAZARETH DE BRUNO KIEFER em http://blogdochoro.zip.net/

CONJUNTO UM X ZERO - TRIBUTO A ESMERALDINO (2002)

          
                Esmeraldino Salles e Osvaldo Colagrande

            Através de contato  telefônico com Osvaldo Colagrande, pudemos falar um pouco sobre seu cd com o Conjunto 1 x 0, e, também, a respeito de Esmeraldino Salles, este compositor imenso do choro brasileiro.

            Dois detalhes marcaram o agradável colóquio: o primeiro foi a surpresa demonstrada por Colagrande ao lhe ser revelado tamanho entusiasmo pelo cd. Grandes artistas muitas vezes não se dão conta de seu próprio valor. Um punhado de choros inéditos de Esmeraldino Salles e Osvaldo Colagrande é coisa a ser comemorada. E, de quebra, um conjunto a interpretá-los de um bom gosto exemplar. Como resistir?

            O outro detalhe foi sua definição para estes choros: melódicos. Sim, tão simples! Ocorre que melodias deste quilate não se encontram tão facilmente. É curioso o estilo do choro paulista: seu balanço peculiar e sua modernidade não conseguem disfarçar o romantismo da linha melódica entranhado no rítmo e nas dissonâncias, resultando em algo tão original e belo.


     
                          Conjunto Um x Zero

 

CHANCES PERDIDAS

            O sítio jacobdobandolim.com.br disponibiliza o único registro de Jacob do Bandolim em movimento, ao mesmo tempo em que oferece uma recompensa de R$ 2.000,00 por outro vídeo seu que porventura exista.

            Vamos refletir um pouco: um dos maiores intérpretes e improvisadores brasileiros não inspirou a ninguém filmá-lo tocando. E não fosse o providencial e simplório gravador de Hermínio Bello de Carvalho a registrar um sarau de Jacob (que deu origem a um extraordinário LP) nem um áudio a contento de suas improvisações sobreviveria.

            E Pixinguinha? Há somente dois discos dele improvisando à flauta em faixas exclusivamente instrumentais, as duas versões de Urubu. Segundo Radamés Gnattali, talvez o lado mais gigantesco de Pixinguinha e o que mais o influenciou, o flautista improvisador. Bem, qualquer um de nós mortais chegaria a mesma conclusão ao ouvir esses dois registros. Contudo, nem uma gravação a mais com o Pixinga “à vontade” existe.

            Há também o caso de Garoto, que gravou muito pouco ao violão, até que gravações caseiras de Ronoel Simões tiraram qualquer dúvida sobre sua técnica exuberante e nos mostrou como sua interpetação era romântica!

            Exemplos sintomáticos.

O EXEMPLO DE MILES DAVIS E RADAMÉS GNATTALI

“Trazendo em seu grupo o guitarrista africano Lionel Loueke, uma das revelações do jazz desta década, (Herbie) Hancock segue a lição aprendida com seu grande mentor, o trompetista Miles Davis (1926-1991). Ao incentivar os músicos jovens, semeia-se a música do futuro.”

(CARLOS CALADO, Folha de São Paulo, quarta-feira, 28 de maio de 2008).

 

“De 1963 a 1968, Davis, acompanhado de Hancock, Wayne Shorter, Ron Carter e Tony Williams, experimentou novas modalidades de improvisação e adotou a forma de concerto contínuo, com a execução do repertório sem pausas."
(DA REDAÇÃO, Folha de São Paulo, 03 de agosto de 2008).

 

            Isto não lembra Radamés Gnattali aos 73 anos e sua relação com a jovem Camerata Carioca?

 

            O arranjo reduzido que Radamés Gnattali fez em 1979 para a Camerata Carioca de sua Suíte Retratos, a pedido de Joel Nascimento, acabou sendo mais revolucionário ainda do que a primeira versão do concerto escrita especialmente para Jacob do Bandolim em 1964 (com Orquestra de Cordas + Conjunto Regional). Tornou-se mais transparente e mais original. Ademais, cada músico do grupo obteve, para suprir as partes da orquestra, funções inéditas até então.

 

“O ecletismo de Radamés pode incomodar a um purista. Mas quem não tiver preconceitos, e tiver os ouvidos abertos, descobrirá facilmente um fabuloso artesão, um grande inventor de melodias, um eterno experimentador que fascina a junventude com a sua própria juventude de espírito.”
(LUIZ PAULO HORTA, citado na biografia Radamés Gnattali, o eterno experimentador, de Valdinha Barbosa & Anne Marie Devos).

 

            Isto não lembra Miles Davis e seu jovem Quinteto em 1963?

 

            Duas revoluções. Em ambas, a mescla da experiência com a juventude.

O ESTILO VALDIR (1)


  Valdir em foto recente.
 

            No precioso sítio www.dicionariompb.com.br, há um pequeno equívoco quando diz: Valdir Sete Cordas  (Valdir de Paula e Silva) "fundou em 1977 o grupo de choro Chapéu de Palha, no qual atuava como cavaquinista". Na verdade, por esta época, ele já era um mestre do violão de 7 cordas. Talvez a confusão se dê porque Valdir atuou pouco como violonista, iniciando sua carreira como cavaquinista, empunhando o violão de 7 cordas nos anos 70, quando um acidente sofrido em 1982 obrigou-o a assumir de volta o cavaquinho, mantendo-se assim até os dias de hoje. Poucos anos de "baixaria", mas que legado ele nos deixou! 

            Como Valdir não é afeito à internet, Ana, sua esposa, fã e a primeira em defesa do gênio artístico de seu marido, nos passou importantes informações (ver post abaixo).

            Valdir teve a Tute e Dino como referências, mas não demorou a criar seu próprio estilo: “pegada” forte, sonoridade “metálica”, especial habilidade na utilização dos “ligados”, cuidado em não repetir a mesma “baixaria” em uma mesma música (*), frases extemporêneas (**). Com um pouco de atenção, o ouvinte também notará outra característica: o complemento para uma “baixaria” principal, isto é, quando você pensa que aquela intervenção acabou, enganou-se, o melhor estava por vir (***), lembrando Pixinguinha no sax ou Dino 7 cordas, mas com estilo único.

 

(*) Acariciando (L. Faissal/A. Ferreira) com Ademilde Fonseca (1977) – a cada reinício do choro, uma baixaria diferente, uma mais linda que a outra... (disponibilizado em http://loronix.blogspot.com/2008/03/ademilde-fonseca-rainha-ademilde-e-seus.html );

(**) Crueldade (Carlos Cachaça) Carlos Cachaça (1976) – aos 26 segundos: a vivência não disfarçada no rock & roll (disponibilizado em http://pratoefaca.blogspot.com/2008/04/carlos-cachaa-1976.html );

(***) Amor de Carnaval (Carlos Cachaça) com Carlos Cachaça (1976) – reparar na baixaria ascendente aos exatos 3 minutos e o arpejo descendente em seguida (disponibilizado em http://pratoefaca.blogspot.com/2008/04/carlos-cachaa-1976.html ).

 

O ESTILO VALDIR (2)

 

 Foto de Valdir na época em que começou tocar cavaquinho no regional de Niquinho: ele está à esquerda, ao lado do Niquinho (Valter, seu irmão gêmeo, à direita).

 

- Com 8 anos de idade Valdir já tocava cavaquinho, tendo seu pai como professor.

- Começou a atuar profissionalmente em 1960, tocando cavaquinho no regional de Niquinho.

- Passou a tocar o violão de 6 cordas na época em que trabalhou em casas noturnas como o "Zicartola", onde formou com Valter (violão de 7 cordas), a "Dupla do Barulho".

- Em 1964, quando surgiu a onda da Jovem Guarda, Valdir se adaptou ao novo ritmo, sendo mais tarde convidado a participar do conjunto "The Pop´s", onde se destacou como guitarrista solo.

- Passada a onda da Jovem Guarda, Valdir foi trabalhar no "Conjunto de Agostinho Silva" fazendo bailes. Agostinho Silva foi quem o introduziu nos estúdios de gravação. Pois foi em uma gravação de última hora, que Agostinho, não conseguindo nenhum violonista de 7 cordas, ligou para Valdir. A princípio, com medo de não conseguir, Valdir vacilou, mas acabou aceitando o desafio, adaptando-se rapidamente.

- Daí em diante, embora tenha tocado com Altamiro Carrilho, Abel Ferreira, e participado de algumas gravações de vulto, ele só começou a ser realmente conhecido com o sucesso do disco "Molejo" de Roberto Ribeiro, onde se ouve com clareza seus "bordados" no violão de 7 cordas. Roberto, então, passou a exigir o violão de Valdir em suas gravações, não demorando a ser requisitado, também, para as gravações de Martinho da Vila, Nelson Gonçalves, Gonzaguinha, Cartola, Carlos Cachaça, Clementina de Jesus, Clara Nunes, conjunto Nosso Samba, Ataulfo Alves Jr., etc.
- Em 1977, Valdir formou seu prórpio conjunto de choro, o "Grupo Chapéu de Palha", batizado por Herminio Belo de Carvalho, com Zé da Velha - trombone, Josias - flauta, Jairo - violão de 6 cordas, Toco Preto - cavaquinho, Parada (ex-The Pop´s) - surdo, Rubens (falecido - piston e Jayme (falecido - pandeiro).

- Em 1982, o acidente. 

            Ana Maria e Silva, sua mulher, ainda esclarece: “Em 1982 quando Valdir se acidentou, fizemos um show para arrecadar fundos para que ele que fosse operado; ele precisava fazer uma microcirurgia no braço acidentado para recuperar o movimento da mão, ou parte desse movimento, pois ele ficara paralítico no acidente (houve rompimento de 10 ligamentos nervosos e alguns de suma importância). Convidamos artistas com os quais ele havia gravado e partimos para a realização do show. Bem, este show foi bolado por um amigo nosso, Bira da Portela, e apresentado na quadra da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, com a participação de Martinho da Vila, Beth Carvalho, Gonzaguinha, Luiz Airão, Golden Boys, Anália (esposa na época do Martinho), Altamiro Carrilho, Raul de Barros, Roberto Ribeiro, Trio Nordestino (Valdir participou de várias gravações deste Trio), conjunto Nosso Samba, As Gatas, Jorginho Teles e muitos outros nomes que agora me fogem da memória.”

             Em tempo: parcialmente recuperado, Valdir voltou a tocar cavaquinho pela iluminada insistência de seu filho.

 

O ESTILO VALDIR (3)

 

 

LP Grupo “Chapéu de Palha” (1977)


1  Flor Amorosa (Callado)

2 Ingênuo (Pixinguinha)
3 Favela (R. Martins – W. Silva)
4 Maneiroso (Geraldo Barbosa)
5 Chorinho Apaixonado (Neuza Paula)
6 Matuto (Nazareth)
7 Tema Chapéu de Palha (Toco Preto)
8 Sofres porque queres (Pixinguinha)
9 Gingandinho (Toco Preto - Valdir)
10 Espinha de Bagre (Humberto Rubin)
11 Peça Bis (Toco Preto - Valdir)
12 Proezas de Solon (Pixinguinha)


Zé da Velha: trombone,

Josias: flauta,

Rubens: piston,

Valdir: violão 7 cordas,

Jairo: violão 6 cordas,

Toco Preto: cavaquinho,

Parada: surdo,

Jayme: pandeiro.

http://www.megaupload.com/?d=32I5GT35

LUIZINHO E CARLINHOS: O TRIUNFO DO 7 CORDAS

       

            Quando Raphael Rabello assombrou com ousadas baixarias no revolucionário disco de Paulo Moura, Mistura e Manda (1983), uma das mais ambicosas faixas, Ternura, de K-ximbinho, trazia um violão tão solto nos devaneios do baixo cantante, que por vezes tinhamos dificuldade em nortear o tempo, como se o chão fugisse aos nossos pés a cada improvisação. Todavia, este novo enfoque do 7 cordas tinha precedente.

            Poucos anos antes, Valdir Silva, ao substituir Dino no Regional do Canhoto, para a gravação do antológico primeiro disco de Carlos Cachaça, de 1976, apresentava na faixa Amor de Carnaval, uma visão semelhante a de Raphel. Pela primeira vez, realmente (*), se ouviam baixarias descoladas do formato tradicional. Sem a preocupação de praxe com os acordes, era praticamente nos baixos que se apoiava o canto de Carlos Cachaça.

            Cds recentes, de 2006, destacando os violões 7 cordas de Luizinho (Remexendo com Euclides Marques) - e Carlinhos (O Violão e o Samba com Cláudio Jorge e Dorina), jóias preciosas na arte do instrumento, têm o mesmo modelo desenvolvido por Valdir e Raphael, com a agradável diferença de podermos degustar um bom punhado de faixas, variadas nos andamentos e rítmos, em verdadeira luxúria de frases originais, bem sacadas, meticulosamente engendradas, sem outros instrumentos a interferir ou encobrir alguma das inúmeras boas idéias.          

            O uso da velha e boa dedeira com forte “ataque”, dá uma dimensão diferente dos violões 7 cordas “camerísticos” comumente usados hoje: se estes últimos privilegiam o violão como um todo (baixo e harmonia), os primeiros têm nas baixarias verdadeiros guias harmônicos, como Bach fazia nas suítes para violoncelo e violino desacompanhados, cabendo aos acordes o complemento. Este estilo propicia também, e é aí que a coisa pega, improvisos longos, com frases que parecem não ter fim, costurando compassos, pairando sobre modulações.

            Poder ouvir dois cds que têm como atração principal o individualismo sadio de dois craques absolutos do 7 cordas é uma felicidade.

 

 (*) Com tantos discos antigos disponibilizados atualmente em incontáveis blogs, mostrando quão mais rico é o mosaico sonoro da música brasileira do que se supunha, não é muito difícil sermos desmentidos em pouco tempo por qualquer afirmação de ineditismo que venhamos a fazer. Qualquer ajuda será bem vinda.

 

Obs. 1: importante ressaltar que "Ternura"  e  "Amor de Carnaval" têm as digitais de dois arranjadores primorosos: Paulo Moura e João de Aquinho, respectivamente. 

Obs. 2: A sonoridade e o estilo dos violões de Luizinho, Carlinhos e Raphael em muitos aspectos, se aproximam mais de Valdir do que do próprio Dino (a eterna matriz).
1 ANO DE NAZARETH INÉDITO!

 

            A iniciativa conjunta de Alexandre Dias, Zé Carlos Cipriano e o site Sovaco de Cobra em disponibilizar peças raras e até inéditas de Ernesto Nazareth, comemora seu primeiro aniversário: http://sovacodecobra.ig.com.br/2008/03/serie-raras-de-ernesto-nazareth-completa-um-ano-de-existencia/

            Se as composições de Jacob do Bandolim recentemente recuperadas por Déo Rian (ver logo abaixo), embora belas, não têm o mesmo nível impressionante de seus choros mais conhecidos, Nazareth, ao contrário, era inesgotável. As surpresas se sucedem e, após a audição, fica-se com a sensação de que estas peças foram pouco gravadas ao longo da história por puro acaso, e não por serem menos significativas.

 

Obs.: Alexandre utiliza seu piano digital Kurzweil Mark 10 para as gravações, cuja qualidade sonora tem sido elogiada.

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29/04/2010 - ATUALIZAÇÃO:

Todas as 238 partituras do compositor estão agora disponíveis, em formato PDF e gratuitas, no site http://www.musicabrasilis.com.br/
 

http://www.musicabrasilis.com.br/partituras.php

A SINGULARIDADE DE UM GÊNIO ESPONTÂNEO – por João Marcos Coelho

            Belíssimo e imperdível o artigo sobre Pixinguinha do crítico de música erudita do jornal O Estado de São Paulo, publicado hoje:

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080330/not_imp148115,0.php

 

            Embora a primeira reação seja rechaçar colocações como esta,

 

“Alguém já disse que o choro é o jazz que não deu certo. Não dá para comparar a trajetória de um gênero nascido num país subdesenvolvido e periférico, como o Brasil, com a do jazz, que teve o suporte de uma difusão maciça por um país hegemônico durante praticamente todo o século 20.”

 

porque, afinal de contas - quem disse que o choro não deu certo?!? - não deixa de ser instigante imaginar se o choro estaria disseminado pelo mundo, se nascido nos EUA (assim como o jazz, se nascido no Brasil, estaria praticamente restrito às nossas fronteiras).
 

            Curioso também neste artigo, são as antecipações de Pixinguinha relativamente a algumas inovações jazísticas, como no caso das improvisações e composições de Louis Armstrong e Duke Ellington, respectivamente. Ou nos contrapontos do saxofone barítono de Gerry Mulligan para Chet Baker (trompete), formato criado pouco antes pela dupla Pixinguinha-Benedito Lacerda.

 

            Não se trata aqui de exaltação nacionalista (o crítico é amante do jazz), mas não há dúvida de que, se invertidos os papéis, não faltaria quem dissesse que os brasileiros em todos esses casos foram influenciados. Não fosse assim, Villa-Lobos não se preocuparia em frisar sempre que, no aspecto improviso, o choro se anteciparia ao jazz (Homero Homem - O Estado de São Paulo - 19/08/1984).

JACOB DO BANDOLIM - 90 ANOS (1) - Espetáculo no SESC

 

            Ouvir choro da forma como o SESC nos tem proporcionado (*) é um regalo para ouvidos e corações; solistas, violões, cavaquinho, pandeiro, seus timbres intactos, magnificamente bem regulados, teatro com acústica perfeita. E, desta vez, para comemorar os 90 anos do nascimento de Jacob do Bandolim, um repertório exclusivo de músicas suas, sob os cuidados de chorões de primeira linha. O que pode mais desejar a platéia?

            Grandes solistas de bandolim se revesaram, mas aqui quer-se prestar uma homenagem a esse extraordináruio conjunto de apoio: Israel de Almeida, Edmilson Capelupi, Haroldo Capelupi e José Reli. Não há grande novidade enaltecer seus méritos, pois são músicos consagrados. Todavia, a necessidade de um reforço nesse sentido se dá pelo fato de se posicionaram atrás do solista, em posição secundária, o que parece um erro conceitual. A começar pelo termo aqui empregado erroneamente conjunto de apoio: se o ouvinte ficar bem atento, notará que o choro, sublime como conhecemos, só se realiza plenamente quando há a interferência do acompanhamento. Dirá alguém que isto não ocorre apenas no choro. Sem dúvida, mas, ao contrário de outros gêneros, se isto não ocorrer no choro, ele deixa de existir! (**)

 
(*)  JACOB DO BANDOLIM - 90 ANOS
 

O projeto presta homenagem ao instrumentista e compositor.

Apresentação e roteiro: Sérgio Prata. Teatro Paulo Autran.

Dias 23, 24 e 25/02/2008 - SESC Pinheiros - SP

 

(**)  Benny Green, na contra-capa do disco Dizzy's Big 4, conta que, ao surgir o Bebop, curioso que estava em conhecer o novo estilo, pô-se a tocar um tema de Dizzy Gillespie: "a peça intitulava-se Bebop e foi uma fonte de considerável desapontamento para mim. Esperava que me revelasse os segredos do novo jazz, porém revelou-me absolutamente nada". Até que mais tarde, ouvindo-o em altíssima velocidade, percebeu algo diferente e que jamais ouvira. E compreendeu que o Bebop, na concepção de algumas composições de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, só fazia sentido tocado velozmente. A analogia aqui, meio forçada como quase sempre, vem para ressaltar que, tocado ao piano, por exemplo, um choro costuma perder sua força (evidentemente, não os de Nazareth, mas os de Candinho, Pixinguinha, Luiz Americano, Jacob, etc...).

JACOB DO BANDOLIM - 90 ANOS (2) - Espetáculo no SESC

            Haroldo Capelupi no cavaquinho e José Reli no pandeiro são mestres dos detalhes, das filigranas; o choro parece desconstruir-se em suas mãos, em partes muito pequenas, como se conhecessem cada um de seus átomos. Observá-los durante 1 hora e meia é uma aula para nunca mais ser esquecida; embora o acompanhamento seja consciente e disciplinado, não existem normas rígidas. Por exemplo, na palhetada de Haroldo, cada compasso pede um modelo. Mas para isso é preciso “entrar” nas profundesas do choro, vivenciá-lo a cada segundo.

            A ordem de entrada dos solistas foi curiosa: Ronen Altman, Aleh Ferreira, Hamilton de Holanda, Déo Rian e Izaías Bueno de Almeida. Colocar Hamilton de Holanda no meio foi no mínimo temerário, pois sua técnica prodigiosa poderia criar uma espécie de anti-clímax, fosse qual fosse o próximo solista. Em sua apresentação, de fato, o público ficou extremamente excitado, mas os ânimos se acalmaram e pode-se perceber com a entrada de Déo Rian que as pessoas que lá estavam eram afeitas ao chorinho e sabiam perfeitamente que o momento agora era outro, que era preciso escutar o choro de outra maneira, um “sentir” diferente. Independentemente das preferências pessoais, ver essas duas gerações foi uma experiência interessante.

            Izaías recebeu, entre outras homenagens, o bandolim de Jacob pelas mãos da própria filha do mestre, Elena Freitas Bittencourt, para fazer os último números. Foi muito emocionante, de lavar a alma, ver Izaías reconhecido como grande mestre por um teatro entupido de gente. O silêncio fêz-se e ele tocou “De Coração a Coração”, obra-prima de Jacob, gravado, salvo engano, pela primeira vez pelo próprio Izaias em 1977 (LP O Fino da Música).

JACOB DO BANDOLIM - 90 ANOS (3) - Inéditos de Jacob do Bandolim Vol. II (Déo Rian e o conjunto Noites Cariocas)



            Para um segundo disco de “sobras” de Jacob Bittencourt, o nível das composições deste aqui também não desapontará o ouvinte. Mas a surpresa maior fica por conta da interpretação do conjunto Noites Cariocas, sobretudo porque a missão de manter a qualidade do trio de violões do disco de 1980 (Raphael / Damásio / Manoel) era tarefa quase impossível.

            Talvez o estilo empregado pelos violões de André Bellieny (7 cordas) e Márcio Almeida (6 cordas) esteja mais próximo do conjunto Época de Ouro do que propriamente do primeiro conjunto Noites Cariocas, mas o importante é observar que um conjunto como este (tal como o de Isaías e seus chorões) tem uma dinâmica muito raramente encontrada em música popular. É como se respirassem a música e não a tocassem apenas. Sem querer forçar uma imagem metafórica, mas realmente sentimos como se o tempo das batidas do coração tomassem o lugar do rítmo frio e estático. Se usássemos os termos empregados por Darius Milhaud para definir o rítmo da música brasileira e de Ernesto Nazareth, diríamos que este conjunto toca com “suspensão imperceptível”, “respiração nonchalante”, “toque fluido, impalpável”.

            A simplicidade cristalina de Déo Rian possibilita esse destaque do grupo. Déo Rian é o tipo de artista que trás junto com ele toda uma gama de valores, de conquistas sedimentadas pelo choro ao longo dos anos, mais do que para o bandolim simplesmente, resultando na excelência da interpretação.

Obs.: Preço: R$ 22,80 + envio

http://www.robdigital.com.br/site_2005/mais_informacoes.asp?codigo_produto=598

O BARROCO, VILLA DAS BACHIANAS E O CHORO

   No capítulo “A hora das bachianas” do seu livro “Villa-Lobos”, Luiz Paulo Horta procura pontos em comum entre o Barroco, o Choro e as Bachianas de Villa-Lobos:

 

“... para Villa, não se tratava apenas de promover o “retorno a Bach”, e sim de estabelecer uma conversa entre as suas grandes matrizes musicais: a música de Bach e a dos “chorões”.

 

“... quem se colocar (...) diante da emocionante tapeçaria das Bachianas não pode deixar de ficar surpreso com certos paralelismos. Entre “chorões” e barrocos há o parentesco da juventude de idéias e da improvisação. O firme desenho melódico, “ornamental”, da música barroca é algo pouco encontrado nas partituras características do classicismo (Mozart, Haydn, Beethoven). Estas são intrinsecamentes dramáticas, enquanto no choro, como no barroco, o colorido melódico tem maior condição de expandir-se.”

 

 “Outra aproximação é o tom de conversa que leva expontaneamente ao contraponto”.

 

“Ainda outra, a invenção melódica que gosta de partir de um rítmo forte e regular – como o dos chorinhos, ou o das gigas. O gosto da invenção, num e noutro caso, dispensa o romantismo ou o sentimentalismo: quando a invenção é suficientemente feliz, a música parece tocar-se por si mesma. É o famoso efeito da “máquina de costura” que pode ser sentido tanto em Bach quanto na melhor música dos chorões.

                       

            Algumas colocações de Luiz Paulo Horta dão margem a dúvidas: o que seria juventude de idéias? E a frase (no choro e no barroco) o colorido melódico tem maior condição de expandir-se, o que quereria ele dizer? E esta: O gosto da invenção (no choro e no barroco) dispensa o romantismo ou o sentimentalismo ?

 

Obs.: Especificamente sobre a conexão espiritual existente entre Bach e Villa-Lobos (das Bachianas), o autor ainda cita três trilhas sugeridas por Adhemar Nóbrega:

            1) O contraponto (escrita “horizontal”, em oposição à escrita “vertical” apoiada em acordes);

            2) O estilo imitativo, em oposição ao desenvolvimento dramático da forma sonata (...);

            3) sob um aspecto mais íntimo, o caráter extático de certas melodias villalobianas, como a abertura da Bachianas nº 4, a da nº 5 (...).

LAÉRCIO DE FREITAS HOMENAGEIA JACOB DO BANDOLIM - CONVIDADO ESPECIAL ALESSANDRO PENEZZI (2007) (1)

            1972: que sucesso fez “Capim Gordura”! O delicioso solo de piano era marcante. Não tinha nada demais, a musicalidade ressaltando a bela melodia e o rítmo peculiar, eram o que pegava.

            Oito anos mais tarde Laércio de Freitas lançava um punhado de choros inéditos (LP “São Paulo no Balanço do Choro” - 1980) moderníssimos e ao mesmo tempo intimamente ligados à forma, aos contornos melódicos do choro secular. Na excelente contra-capa, assinada por Luiz Nassif, soubemos como Laércio de Freitas foi influenciado por Esmeraldino Salles e seu conjunto, desde a primeira vez que os viu tocar nos anos 1950: Laércio recorda-se como sendo (um conjunto de) uma extraordinária pulsação. (*)

           Bem, mas isto somado à sua sólida formação clássica, não explica uma de suas características mais originais enquanto pianista: sua mão esquerda. E o mesmo texto esclarece: As exigências musicais de seu primeiro público fizeram-no praticar o boogie woogie. Sim, este parece ser o ingrediente que faltava para decifrar a originalidade de seu toque (atenção para o dinamismo, a fluidez do piano acompanhante neste disco de Jacob).

 

(*) O Rio não fazia o que eles (Esmeraldino e Cia) já estavam fazendo em SP, que era o choro com duas partes, quando no Rio eram três. Eu ouvi os do Rio, os de S. Paulo e deduzi dos dois. (Laércio de Freitas em http://www.maritaca.art.br/news/jbonline_071102.html)

Os choros de Laércio de Freitas são invariavelmente de 3 partes, muito bem construídos, à maneira dos grandes mestres cariocas. A pulsação, porém, é toda “esmeraldina”.
LAÉRCIO DE FREITAS HOMENAGEIA JACOB DO BANDOLIM - CONVIDADO ESPECIAL ALESSANDRO PENEZZI (2)



           
A virtude que mais salta aos olhos neste cd imprescindível, não é muito comum. Pode parecer estranho, mas é raro ouvirmos um trabalho onde o melhor de cada músico é explorado até o talo.
            Alessandro Penezzi, virtuose incontestável, joga em várias posições, tal como Raphael Rabello e Yamandú Costa, porém, em algo ele parece se superar: sua capacidade infinita de improvisar com originalidade. Olhe que não é brincadeira não se repetir nem cansar o ouvinte em mais de 1 hora de música. E mais: suas frases não são simples, há um certo intrincamento barroco sempre presente, próximo ao melhor fraseado dos chorões artesãos, solucionados sempre com precisão.
            Já Laércio de Freitas exibe toda a riqueza de sua fina harmonização, de seus improvisos sabiamente dissonantes, e, claro, de seu já citado acompanhamento ímpar. Os choros de Jacob do Bandolim ganharam amplitude sem desvirtuamento. 
            Desta vez, o mestre Laércio de Freitas deixou guardado seu lado de compositor, mas que falta faz um novo trabalho seu!

 (1972)    (1980)    (2007)

ROGÉRIO GUIMARÃES

            Berço de grandes estilistas do violão, como Canhoto, Dilermando Reis, Laurindo Almeida, Garoto e Armandinho, São Paulo também gerou Rogério Guimarães. Seu estilo “sentido” de ferir as cordas, era fruto de uma época de romantismo quase doentio, e assim, cantores de cunho extraordináriamente fatalistas, como Floriano Belham, tinham nele o acompanhamento ideal. Em uma das mais requintadas composição de Cândido das Neves, a dupla chegou ao extase: Cinzas de amor (1930).

            Tocar simultaneamente a tônica grave e sua respectiva terça num registro mais agudo (dando a  exata sensação de pranto) era uma das marcas registradas de Rogério Guimarães, e pode ser observada nesta gravação. Mas o abandono da harmonia para seu solo visceral no exato momento em que Belham canta agora, que entre nós dois mais nada existe, não é para qualquer um...

 

Obs. 1: note-se que em Cinzas de amor, outro violão acompanhante é usado apenas na introdução;

Obs. 2: além da gravação mencionada, os discos de Belham e Guimarães, juntos ou separados, podem ser ouvidos no http://ims.uol.com.br/ims/
Obs. 3: a não perder: http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=86
"E O CORAÇÃO SENTIRÁ UMA PAIXÃO ATRÁS DE CADA CHORO"


            Texto do escritor e chorão João Antonio (1937-1996), publicado no Jornal O Estado de São Paulo, por ocasião do concerto realizado em 1982, no Alice Tully Hall, Lincoln Center, Nova Iorque, por Arthur Moreira Lima, Joel Nascimento, Raphael Rabello, e grupo.

            Por diversas vezes a idéia de que o choro estava em baixa é percebida. E chama a atenção para os anônimos da resistência. O grande escritor certamente ficaria feliz com o panorama atual do choro, o barateamento da tecnologia e da produção possibilitando tantos lançamentos de bom nível e sua consequente independência das gravadoras tradicionais.

 

(...) "A alma longa dos choros ressuscitará como a tiririca. Pode o estabelecimento arrancá-lo do mundo do disco, tirá-lo das rádios, bani-lo das gravadoras, expatriá-lo dentro de seu próprio país. Ele continuará, mesmo perseguido. Desce aos subúrbios e aos cantos mais esquecidos dos arrebaldes, encafua-se, esconde-se e as novas gerações o acham para que ele suplante todas as ondas contrárias e colonizadoras: bate o merengue e cha-cha-cha, dribla de corpo swings, rocks, mambos e souls. Ele sabe que tudo é miudeza e frouxidão passageiras, fogo de palha, modismos, landuas. Amoitado, ressurge sempre, refortificado e repinicado nas suas cordas e sopros, brigando nas derrubadas, quilombado e firme feito cobra criada."

Texto completo: http://www.badongo.com/file/5321610

SOBRE TRANSFERÊNCIA DE ARQUIVOS

Nelson Motta

 

Na era digital, as transferências de arquivos têm sido o (...) paraíso para os livros. Meus editores vão ficar de cabelos em pé, mas, por mim, colocava o texto completo de meu novo livro na internet, um mês depois do lançamento, sem medo de ser feliz.

(Paulo Coelho) me disse que (...) adoraria se um hacker colocasse (seu novo livro) na internet: isso só beneficiaria a promoção e as vendas do seu livro. Não é preciso ser mago ou profeta para chegar a essa conclusão, basta ser craque em marketing. (...) Os avarentos vocacionais (...) que poderiam comprar o livro, mas preferem ler de graça, teriam castigo cruel: ler 400 páginas em uma telinha, ou pior, imprimir o tijolaço pode levar horas e custar até mais, em tempo e material, do que o livro. Sem capa, sem fotos, só o texto cru.

Mas, para quem quer muito ler o livro e não tem R$ 40 para pagar por ele, como a grande maioria dos brasileiros, seus problemas acabaram: não dá para levar para a cama ou para a poltrona, mas ler na tela do computador é melhor do que não ler nada. (...) Mais do que vender livros, a maior alegria do escritor é ser lido. (Folha de São Paulo, 16/11/2007).

O PLÁGIO É TÃO GRAVE ASSIM? - no choro, na MPB, na música POP, na música clássica... (1)

 No monumental Formas de Sonata, do pianista e teórico musical Charles Rosen, lê-se a uma certa altura sobre Schubert:

 

“O movimento final de seu prematuro quarteto em Ré Maior (D. 74) de 1813 constitui um plágio flagrante da Sinfonia Paris, K. 297, de Mozart ...”

 

“... se podem achar exemplos similares nos últimos anos da curta vida de Schubert tomados de suas numerosas reminiscências dos opus 28 e 31 de Beethoven em suas últimas três sonatas para piano.”

 

            Ao que Rosen interpreta:

 

“Alguns dos materiais adotados são transformados em puro Schubert; sua origem é, portanto, é irrelevante.”

 

“... uma espécie de recordação involuntária, um estímulo exterior à sua imaginação criadora...”

 

            Sobre Beethoven, Rosen continua:

 

“Beethoven adaptou suas fontes (geralmente mozartianas) a um objetivo mais dramático: realçou seu efeito. As fez mais poderosas e aumentou sua envergadura.”

 

“... o concerto para piano nº 4 em Sol Maior de Beethoven não desmerece os concertos K. 453 e K. 503, dos quais toma material emprestado.”

O PLÁGIO É TÃO GRAVE ASSIM? - no choro, na MPB, na música POP, na música clássica... (2)


Tal como fez Bach ou Milhaud (ver logo abaixo: Milhaud e a Pirataria do Bem);

Callado (ver “Semelhanças” em www.blogdochoro.zip.net);

Jacob do Bandolim (ver http://urarianoms.blog.uol.com.br/arch2007-07-08_2007-07-14.html);

 

Pixinguinha:

Fantasias do Luar (Albertino Pimentel) =
Descendo a Serra (Pixinguinha/Benedito Lacerda);

João Bosco:

Preta-porter de tafetá (Aldir Blanc, João Bosco) = 
Nanci (Bruno Arelli, Luiz Lacerda);

Luiz Melodia:

Juventude Transviada (Luiz Melodia) = 
Casa de caboclo (Hekel Tavares, Luiz Peixoto);

Caetano Veloso
Ai Mouraria (Amadeu do Vale, Frederico Valério) =
Os Argonautas (Caetano Veloso);

Milton Nascimento

 

Mãe Preta (Piratini, Caco Velho) =

Saudade dos aviões da Panair (Milton Nascimento - Fernando Brant)

 
Tom Jobim

Céu e mar (Johnny Alf) =

Samba de uma nota só (Tom Jobim - Newton Mendonça)

 

 

Em elaboração:

 

Beto Guedes

etc...

 


Obs.: Vale a pena comentar um caso ao menos, o da semelhança entre “He’s so fine” de Ronnie Mack (gravação de 1963 - The Chiffons - ouvir em allmusic.com) e “My Sweet Lord” (1970) de George Harrison: comparando-se as duas gravações, verificamos que o famoso Beatle, ao diminuir o rítmo e acrescentar generosas doses de harmonia e espiritualidade, extraiu da canção detalhes que nem de longe supunhamos existir. Mesmo assim, para quem ouve a gravação original uma vez, a associação será imediata; estará fadado a lembrar-se sempre de “He’s so fine” (regra, aliás, geral). 

 

Outros modelos:

 

 

Sentado à beira do caminho (Roberto e Erasmo Carlos)
             “A gente a fez por influência da harmonia de Honey, de Bobby Goldsboro, que também é um maná pra gente até hoje. Se você pega essa harmonia, sai uma música logo, logo“.

 

            Sincero depoimento de Erasmo Carlos (encarte da caixa Esquinas do Tempo – 1960-2000). Ecos deste molde podem ser observados, também, em Detalhes, da mesma dupla, que tem como outra curiosidade a famosa introdução interpretada e composta por Altamiro Carrilho (“eu criei” – Gazeta de Pinheiros, 28/01/1988). (*)

            Se Gounod compôs aquela incrível melodia sobre a sucessão de arpejos do 1º Prelúdio do Cravo bem Temperado, de Bach, tranformando-os na famosa Ave Maria, Tom Jobim e o Led Zeppelin usaram do mesmo procedimento:

 

Prelúdio nº 4, opus 28 (Chopin) =

Insensatez (Tom Jobim – Vinicius de Moraes)

Stairway to heaven (Jimmi Page – Robert Plant) =

Taurus (Randy California), do primeiro álbum do Spirit. 

(*) Ainda sobre Roberto e Erasmo Carlos, são preciosas as informações encaminhadas por Fernando Duarte:


“... um dos casos de plágio mais flagrantes, na minha opinião, é o de "Alô Benzinho" de Roberto e Erasmo Carlos, em cima de "Chantilly Lace" (de J. P. Richardson). Enquanto "Chantilly Lace" é de 1958, "Alô Benzinho" saiu no LP do Erasmo "Você me Acende", de 1966 - mp3 anexo com 30 seg de cada: http://www.badongo.com/file/7437349.

Outro caso interessante, em que quase se configurou um plágio, foi "Caminhoneiro", tido como da dupla Roberto / Erasmo. Na verdade se trata de uma versão de "Gentle On My Mind", gravada pelo Elvis Presley, como também pelo Frank Sinatra, Glen Campbell, Dean Martin, etc... - Atachado mp3 com uma amostra das gravações do Roberto e do Elvis: http://www.badongo.com/file/7437393.

Se repararmos no LP de Roberto Carlos de 1984, onde o sucesso foi lançado, na segunda capa há somente o título da versão (Caminhoneiro); e na capa interna onde está a letra e também no selo, há somente a citação dos nomes "Roberto Carlos / Erasmo Carlos". Ou seja, omitiram por completo que se tratava de uma versão.

No CD daquele LP (que saiu depois), na capa interna e no "selo" há referência apenas ao título da versão (Caminhoneiro); no encarte, onde está a letra, há somente a citação dos nomes "Roberto Carlos / Erasmo Carlos" e, até que enfim, na segunda capa, há a citação dos nomes "John Hartford - Roberto Carlos - Erasmo Carlos", sem nenhuma referência ao título do original. Até parece que devem ter sido pressionados por quem detém os direitos autorais, que pode não ter gostado do que aconteceu no LP.”

 

CÉSAR FARIA (Violão 6 Cordas) - 20/10/2007 (1)

 

Em resposta a sua pergunta sobre o nome das pessoas que estão na foto da capa do Inéditos de Jacob do Bandolim Vol. I, informo:

Da esquerda para a direita em pé estão:

Bide (flautista da Velha Guarda que tocou com Pixinguinha);

Luna (pandeirista que tocou com Jacob na Rádio Mauá do Rio de Janeiro);

Milton (amigo de Jacob, foi quem me apresentou a Jacob);

Salvador Barraca (pandeirista da Velha Guarda);

 

Da esquerda para a direita, sentados estão:

Henrique Gato (cavaquinista da Velha Guarda);

César Faria (violonista que tocava com Jacob);

Jessé Silva (violonista que tocava e gravou com Jacob, fazia dupla com César);

Candinho Silva (Trombonista da Velha Guarda e da Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro);

Jacob do Bandolim.

 

Essa foto foi tirada em Jacarepaguá , RJ, na década de 50, na casa do Seresteiro da Velha Guarda Sr. Amorim, nosso amigo.

 

Um abraço

 

Déo Rian

CÉSAR FARIA (Violão 6 Cordas) - 20/10/2007 (2)


A intenção desta postagem seria pura e simplesmente a descrição de cada um dos integrantes desta foto tão significativa, pelo bandolinista Déo Rian, que prontamente nos atendeu esclarecendo esta dúvida. Quis o destino estar César Faria empunhando seu violão ali.
Obrigado por tudo, mestre...
Hélio 

O violão sábio de César Faria:

Para quem quiser saber o que é um violão bem tocado, cheio de requinte harmônico e ao mesmo tempo interpretado com uma simplicidade encantadora, não deixar de ouvir Juro foi surpresa de Valzinho, com Cristina Buarque (LP “Arrebém” - 1979). Uma aula de acompanhamento.

MARCIA TABORDA - Choros de Paulinho da Viola (2005)

            A maior armadilha que existe para um intérprete é sucumbir à tentação de fazer algo que não está nele, no seu interior, na sua vivência: uma leitura “sensível” quando não é seu estilo, um improviso quando não é sua seara. Não é o caso aqui. Marcia Taborda, longe de qualquer afetação superficial, é uma intérprete de espontaneidade como há muito não se via. Afinidade natural com a obra de Paulinho da Viola, a violonista atinge sua música no âmago. Embora a técnica não seja das mais “limpas”, não está absolutamente aquém da dificuldade que a música oferece.

            Paulinho da Viola é um compositor de dupla personalidade. Faz lembrar a tese de Hermann Hesse em “O Lobo da Estepe”, algo como, “um homem não é um só, são vários” (*). Não apenas pelo fato de compor e ser mestre em dois gêneros de música, o samba e choro, mas também porque em nada, em nenhuma frase sequer, um choro seu lembra um samba seu. São dois mundos delimitados para ele; impossível reconhecer qualquer interseção.

 

(*) John Kay, líder do conjunto de rock Steppenwolf, quando no Brasil, afirmou que a canção Born To Be Wild , de 1968, originalmente uma balada, fora artificialmente “turbinada” para a gravação, se tornando um formidável rock. Com o fim do grupo, em 1972, John Kay gravaria seu primeiro LP solo, um disco sereno, verdadeiramente iluminado, de grande beleza interior. Como podia o responsável pela transformação de uma singela canção em um dos maiores hinos do rock pesado mudar tanto?!? Os antigos fãs da banda estranharam; menos, talvez, aqueles que tivessem lido “O Lobo da Estepe” (“Der Steppenwolf”) e o relacionado ao nome do grupo: era apenas o lado selvagem do homem.

 

 MARCIA TABORDA - Choros de Paulinho da Viola

DAMÁSIO EM 3 TEMPOS


“... grande harmonizador ... tinha como características marcantes: a criatividade e o bom gosto musical.” (Déo Rian no encarte do cd “Choro em Família” ).

            Em “Os Saraus de Jacob” (1971), o Conjunto Época de Ouro não contou com a presença de Dino 7 cordas na noitada em homenagem ao pianista russo Dorenski, sendo substituído por Damásio. Após uma longa exposição de Noites Cariocas, com um Jacob inspiradíssimo, o público sortudo foi brindado com mais alguns preciosos minutos de improvisação. E não é que desta vez, após o sinal verde do bandolinista, foi Damásio quem arrasou? Uma rápida sequência, mas tão fulminante e inesperada, tão nobre e bem colocada, que levou o público ao delírio. Notemos, pois, que sua improvisação veio no bis, não estava prevista portanto.
            Com o 6 cordas, Damásio também faz a diferença no LP de Altamiro Carrilho, “Antologia do Chorinho – Volume II”. O título é enganoso, poderia levar a pensar ser mais um repasse de chorinhos batidos, entre tantos existentes. Nada disso, os chorinhos nem são tão batidos assim, a começar por Acorda, Luiz, jóia pura do próprio Altamiro, numa interpretação contida, densa, que nos oferece ainda uma pequena digressão à flauta de rara beleza na repetição da 2ª parte. Apenas o “bendito” som do despertador destoa nesta gravação. Em Flor Amorosa e Homenagem à Velha Guarda, o estilo Damásio aparece com mais nitidez: o “violão gemedeira” na repetição da 3ª parte do choro de Callado e a belíssima harmonização no início do choro de Sivuca.
            "Inéditos de Jacob do Bandolim" (Déo Rian) já começava bem com a foto da capa, onde vemos Jacob ao lado de Candinho e mais um punhado de chorões de peso (o que teriam tocado aquela tarde?...). Tudo aqui é perfeito, principalmente o desempenho dos 3 violonistas (Raphael, Damásio e Manoel) resultando numa sonoridade única (aos técnicos de som, também os louros). Há ainda Manezinho da Flauta e Bolão (sax) numa reedição literal do encontro Jacob/Pixinguinha/Benedito Lacerda registrado no LP Os ídolos do Rádio – Vol. X. Entre as inúmeras sutilezas de Damásio, há uma imperdível, na repetição da 3ª parte de Horas Vagas : como chora aquele violão...

            Este blog conta, agora, com o apoio do retratista Marcus Cláudio: http://www.retratosaoleo.com.br/

 

Maestro JOHN NESCHLING

óleo sobre linho

70 x 50 cm

2004

 

FLÁVIO MATARELLI

óleo sobre tela

100 x 100 cm

1996

JOÃO PERNAMBUCO por LEANDRO CARVALHO


           
Ao lançar 2 cds com obras de João Pernambuco (1997/1999), Leandro Carvalho realizou um sonho antigo dos chorões, afinal, considerável parte de sua obra veio à tona pela primeira vez em um projeto digno do mestre. Se por um lado as peças instrumentais mais conhecidas foram baseadas nos arranjos que Turíbio Santos fez para os discos “Choros do Brasil” (1977) e “Valsas e Choros” (1979), há em compensação, interpretações soberbas (Pensando em Augustinha) ou “achados” geniais, como a concepção bem pessoal para o Choro nº 1, e sua feliz idéia em realçar a melodia com voz (Mônica Salmaso) e violoncelo (Nelson Campos). Não por acaso é justamente esta a faixa que mais chama a atenção de Ariano Suassuna em seu comentário no encarte do cd: os “novos horizontes” reconhecidos por ele no arranjo de Leandro Carvalho se aproximam muito daquele sentimento transcendente que nos passa a música sertaneja de Elomar, Xangai, Quinteto Armorial, etc., que mestre Ariano conhece tão profundamente.

 

  (1997)      (1999)

UM SITE SÓ PARA JOÃO PERNAMBUCO


            
Acaba de ser inaugurado, o www.joaopernambuco.com. Esta notícia tem bons motivos para comemoração: este blogueiro jamais viu em sua vida alguém tão apaixonado por João Pernambuco como seu mantenedor. Mas isto não bastaria para o site ser uma homenagem à altura de um dos maiores mestres do choro brasileiro, não fosse ele, o italiano Angelo Zaniol, um chorão de fina estirpe, um pesquisador incansável e um profundo conhecedor da alma de João. A um simples “clique” no Álbum de Fotografias, por exemplo, o visitante não encontrará apenas fotos recolhidas aqui e ali, mas uma exaustiva pesquisa pela sua autenticidade quanto às datas de seu registro. Ou se preferir baixar uma partitura, saberá que muitos anos foram gastos atrás das precárias fontes minimamente confiáveis, o que no caso de Pernambuco, infelizmente é quase uma norma. Por fim, se alguém quiser tocar alguns de seus arranjos e tiver alguma dúvida se o verdadeiro espírito de João Pernambuco está embutido neles, faça um teste: escute a versão de Noite de Ventura no arranjo de Leandro Carvalho (um pequeno deslize seu ao carregar no sentimentalismo e na lentidão do andamento) e a compare com a disponibilizada no site.

MILHAUD E A PIRATARIA DO BEM (1)

            À medida em que nos aprofundamos na obra de Darius Milhaud, nos surpreendemos com uma nova obra alheia (leia-se choros, sambas, etc.) aproveitada pelo compositor francês sem a devida citação do verdadeiro autor. Bem menos conhecida do que Le boeuf sur le toit (1919), por exemplo, onde um chorão não terá muita dificuldade em reconhecer alguns dos temas utilizados, Le bal martiniquais, composta 25 anos mais tarde (1944), também bebe da mesma fonte: está lá o Pelo Telefone (Donga/Mauro de Almeida).
            Houve época em que aquela idéia romântica da autoria e do rematando:uras sociais (...)or de   "trsmo'uns artistas, desabafou: compositor iluminado, quase um semi-deus, não existia: “Pablo Casals irritado com o egocentrismo de muitos artistas, desabafou: ‘se pudessemos encontrar-nos hoje com Bach (...), ficaríamos espantados com sua falta de egocentrismo’ “. Certamente Bach devia saber do valor de suas obras, todavia não atribuia a si dotes sobrenaturais: “Bach não conheceu o culto burguês ao gênio” (Franz Rueb – 48 Variações sobre Bach).

            Rueb continua: “Bach compôs uma catata por semana, o que significava que era preciso escrever também as partes das vozes e a dos músicos, tudo isso sem contar o tempo dedicado aos ensaios com o coro, solistas e músicos. Muitas vezes Bach só tinha o sábado à noite para ensaiar e a obra já tinha de ser apresentada no culto religioso do domingo. Na segunda-feira, Bach sentava-se novamente para escrever a cantata do domingo seguinte e assim sucessivamente (...)”.

            Roland de Candé segue no mesmo caminho (O Convite à Música): “Quase todas as suas obras, mesmo as mais belas, foram compostas para serem tocadas uma ou duas vezes. Em seguida, Bach não se ocupa nem de as mandar imprimir nem de as fazer novamente ouvir”.
MILHAUD E A PIRATARIA DO BEM (2)

            Procedimento comum à época, não é de se estranhar que Bach utilizasse uma ou outra composição de seus ídolos, as rearranjasse e assinasse, sem indicá-las.
            Ironicamente, a peça da qual tratamos aqui, o Pelo Telefone, deu o que falar justamente pela fluidez da autoria:

            “De acordo (...) com grande parte dos (...) pesquisadores (...), o tema em voga teria sido desenvolvido como tantos outros na casa de Tia Ciata numa das frequentes rodas de samba presentes, além da dona da casa, seu genro Germano, Hilário Jovino e outros. (...) Donga lhe teria dado um desenvolvimento definitivo com uma letra fixada pelo jornalista Mauro de Almeida.” (Roberto Moura - Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro). Como sabemos, a música foi registrada em nome de Donga/Mauro de Almeida apenas.

            “Sinhô, que não aparecera na co-autoria de Pelo Telefone, por ele arrolado como uma de suas produções, foi acusado de plagiário e aproveitador de trechos de outros compositores. Considerando-se vítma de um ludibrio ao ingressar no cenário musical do Rio, até parece que o sambista deliberara pagar a outros com a mesma moeda. Vingar-se do primeiro logro, logrando a terceiros. (...) Era corrente o conceito atribuído a Sinhô: “Samba é como passarinho, é de quem pegar”. (Edigar de Alencar – Nosso Sinhô do Samba).
MILHAUD E A PIRATARIA DO BEM (3)

            É preciso, para terminar, diferenciar a utilização de Pelo Telefone de outras composições similares de Milhaud. Se em Le boeuf sur le toit  os temas são apresentados numa espécie de mosaico sonoro brasileiro (tal como no Choros nº 10 de Villa-Lobos que incluiu a chotis Yara de Anacleto de Medeiros), podendo dar a entender ser mais citação do que plágio, temos, por outro lado, em Le bal martiniquais, a famosa introdução do Pelo Telefone

em outro contexto: a peça se desenvolve a partir dela, fazendo-nos crer ser realmente uma composição de Milhaud.

            O cd Milhaud: Music For Two Pianos - Stephen Coombs / Artur Pizarro (pianos) - http://rapidshare.com/files/45645476/Milhaud_-_Music_For_Two_Pianos.rar.html traz algumas de suas obras citadas neste texto. 

ELZA SOARES CANTOU UMA MODINHA NO PAN (Rio-2007)


“... apesar de ser um dos grandes compositores eruditos do Império, (Francisco Manuel da Silva) deixou sua contribuição para a Música Popular Brasileira compondo algumas modinhas, quadrilhas, valsas e lundus.” (Dicionário Cravo Albin - www.dicionariompb.com.br).

 

            Já foi dito que o Hino Nacional é uma modinha, mas poucas vezes isso ficou tão evidente como na na abertura no Pan. Os contornos melódicos característicos da modinha (alguns modificados por Elza Soares) e o lento andamento imprimido, embora desvirtuassem a melodia original e o espírito de marcha, trouxe à tona sua verdadeira origem...

PEREIRA FILHO

            Olha menino. Prepara duas músicas para gravar depois do carnaval. (*)
            Foi assim que Mr. Evans (diretor da RCA Victor) se dirigiu a Orlando Silva, quando da gravação de seu primeiro 78 rotações. 
Que bom seria se todo artista tivesse essa liberdade de escolha no tempo em que as grandes gravadoras reinavam. Pois naquela época era assim; gravava-se o que se tinha, a música puramente comercial ainda engatinhava. Isso explica a quantidade incrível de choros gravados pela Casa Edson alguns anos antes, para felicidade dos chorões: não havia outra opção.

            Com seu aguçado bom gosto, Orlando Silva escolheu para gravar duas pérolas de Cândido das Neves e um acompanhamento de matar: Pereira Filho, Luiz Bittencourt (aos violões) e Luperce Miranda (ao bandolim). Rui Ribeiro nota a qualidade das cordas: “Principalmente em A Última Estrofe, existe a utilização de recursos invulgares, pelo sentido da idependência rítmica dos instrumentos. Dois violões (...) em riqueza de arpejos e um verdadeiro rendilhado sonoro, com laivos de improvisação, do bandolim de Luperce Miranda completando o contexto harmônico.” (**)
            No www.ims.com.br
, encontramos, além deste, outros acompanhamentos de Pereira Filho; seu estilo “dilacerante”, seu violão literalmente “chorado”, com a exata noção harmônica de como encaixar cada acorde, cada baixaria. Vale apena ouvir Lágrimas (o lado A de A Última Estrofe - 1935).
            Imperdível, também, é a versão de Luiz Americano para Sonho (Dunga), uma das mais belas interpretações do saxofonista. Pereira Filho, aqui, usa o violão elétrico (1945). 
            J. L. Ferrete define seu estilo à perfeição: “... técnica espantosa e uma expressividade sem limites.” (Contra-capa do LP Grandes Instrumentistas da MPB – 1978).

* Jonas Vieira -Orlando Silva, o cantor das multidões);
** Rui Ribeiro - Orlando Silva - cantor número um das multidões.

STRAVINSKY / METALLICA

            Entre todas as analogias exdrúxulas, esta aqui, sem dúvida, concorre com boas chances de ser uma das maiores. Vá lá. O que há de comum entre os citados? O rítmo. Ou melhor explicando, a forma como o abordam. Em qualquer compêndio musical que trate da “Sagração da Primavera” de Stravinsky, se lerá: “uma obra-prima que inverteu muitas das, aparentemente, imutáveis prioridades da música. Pois, talvez pela primeira vez na história da música, a melodia foi reduzida a um papel menor. (...) Se a melodia é empurrada para o fundo, ao rítmo é dado o papel principal.” (Jonathan Adams – contra-capa, LP Bernard Haitink: Le Sacre du Printemps).
           
Acompanhar a história do Metallica é instrutivo. Vindo dos subterrâneos do “thrash metal”, um rock com rítmo alucinante, que tem como único objetivo levar o ouvinte à histeria e muitas vezes à surdez, o Metallica desde o início trabalhava muito bem o rítmo (bateria/guitarra base).  Mesmo com a parte musical muito pobre, chegariam a criar alguns anos mais tarde, “One”, uma pequena jóia. No disco seguinte (o álbum negro), a musicalidade aflorou e suas composições passaram a ser assimiláveis, também, para o público afeito ao rock tradicional. O inusitado é que muita gente pensou estar ouvindo algo semelhante às bandas talentosas do passado, como Black Sabath, que criavam temas para guitarra muito bonitos e bastante semelhantes aos do novo Metallica. Seria um equívoco pensar assim, porque as bandas do chamado hard rock tinham na música, nas composições, o maior objetivo; nada, portanto, que chegasse perto do enfoque obsessivo pelo rítmo, razão de ser do Metallica. Pois bem, o álbum negro acabou sendo um testemunho vivo da evolução humana: roqueiros vindos da pior vertente do estilo criaram algo realmente artístico, combinaram de maneira original o rítmo entre os instrumentos.

A POLÊMICA VAZIA (1)

"Trem das Onze é ótima para se cantar, o que ajuda a explicar por que virou uma obra-prima sem sê-lo. Adoniran é um compositor superestimado, estando no nível do segundo time dos sambistas cariocas.” (Luiz Fernando Vianna – Jornal Folha de São Paulo, 23/04/2007).
 

            Há anos o gosto pela polêmica (muitas vezes gratuita) do jornal Folha de São Paulo pauta seus articulistas (ou são contratados justamente pelo estilo). As improvisações de Pixinguinha ao sax já foram “ingênuas”, a obra de Rita Lee insignificante, e recentemente a música latino-americana teve sua qualidade artística praticamente ridicularizada. À exceção deste último caso, a Folha possibilitou a réplica: no caso de Pixinguinha, o publicitário Carlito Maia escreveu uma pequena e bonita nota publicada no ”painel dos leitores”, Rita Lee teve o mesmo espaço para rebater e Adoniran Barbosa foi defendido pelo músico Livio Tragtenberg.

A POLÊMICA VAZIA (2)

“Para o jornalista Marcelo Tas (...) aos olhos de hoje, todo o cenário da música engajada parece fazer parte de "um programa de humor". "Quem gostava desse tipo de música nos anos 70/80 era o pessoal de 'barba e bolsa', que já formava um estereótipo naquela época.”.


"A música brasileira de protesto sempre foi muito superior artisticamente do que a desses outros países. É por isso que a brasileira resistiu e a latino-americana parece hoje uma caricatura." (Fagner).

(Folha de São Paulo, 03/04/2007).

 

            Mas quando a polêmica é vazia? Por exemplo, alguém diz que Pelé, hoje em dia, seria no máximo reserva da atual seleção brasileira de futebol. Sem problemas, basta que justifique a tese. Simplesmente dizer que Adoniran é um sambista de 2ª categoria, passa a impressão de que apenas o gosto, ou a incompreensão, ou até o preconceito do articulista está em questão. A música propriamente dita não é objeto de análise.

            Caso idêntico à musica andina.  Difícil crer que Fagner tenha dito o que disse no contexto apresentado. O próprio Marcelo Tas gentilmente se justificou a este blogueiro, dizendo não ter nada contra a música andina, mas sim contra o esteriótipo “bicho-grilo” e seu canto de protesto (o problema então é a esquerda?!). A matéria passou de roldão sobre uma gama de compositores, como Silvio Rodríguez, Horácio Salinas e tantos outros (só para citar dois gênios absolutamente desconhecidos para os brasileiros), como se a existência deles nada significasse.


Obs. 1: este texto foi publicado no Observatório da Imprensa:
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=437FDS004


Obs. 2: Como curiosidade, registre-se o fato de Clara Sandroni (atual parceira artística do chorão Maurício Carrilho) ter gravado duas jóias de Sílvio Rodríguez em seus primeiros trabalhos (discos belíssimos disponibilizados no blog http://sombarato.blogspot.com).

Bandolim Brasileiro – AQuattro toca Luperce Miranda (2007)


“Mas é indiscutível que hoje a produção e distribuição de gravações via internet não só coloca o artista em comunicação direta com o consumidor, mas elimina de vez os intermediários (ou atravessadores?) que durante quase cem anos fixaram preços e ganharam o que bem entenderam.” (João Marcos Coelho – O Estado de São Paulo, 27/05/2007).

            Por vinte míseros reais, você recebe em sua casa o recente e extraordinário cd “Luperce Miranda por AQuatro”

(http://www.dudumaia.com). Não, não; muito embora você vá se regalar com este cd, isto não é uma propaganda; é apenas a constatação da independência  do artista proporcionada pela tecnologia. E do ouvinte também, que está deixando de ser tutelado pela grande mídia, nem sempre o melhor canal para filtrar o que é bom ou ruim, quando não pautada por interesses estranhos à música:

“citando a revista inglesa Gramophone ... (o jornalista inglês Norman) Lebrecht denuncia a promiscuidade desta respeitada publicação com as gravadoras .. 'As resenhas', denuncia Lebrecht, 'eram rotineiramente mostradas para os chefões das gravadoras antes de serem publicadas, e em alguns casos, modificadas.” (idem).

 

            Bandolim Brasileiro – AQuattro toca Luperce Miranda - a maior homenagem, entre todas, ao mestre do bandolim. Um cd somente com suas composições, por si, já seria uma bela iniciativa, mas o “olhar” sensível deste quarteto redimenciona sua obra. Pegaram na veia! Desde a escolha do repertório (quantos choros bonitos Luperce tem!), até detalhes nos arranjos (o rítmo propositalmente acentuado em Pixinguinha - um achado!), tudo é muito inspirado, tocado com alegria e sincera devoção.

            Merecem cuidadosa atenção as improvisações de Dudu Maia; primam pela coerência estética (ouça-se Reboliço, onde à maneira de Bach, uma simples escala descendente alonga-se em seu desenvolvimento, de forma que o ouvinte vem a compreender, somente a seu final, a completa intenção do instrumentista). Em seu próprio sítio, encontramos escrito que o bandolinista “não pretende demonstrar virtuosismo em si mesmo”. Pura verdade; cada floreio seu, por caminhos mais distantes que vá, está intimamente ligada à composição. Difícil explicar, só escutando...

 
JOÃO PERNAMBUCO - gravações originais

 

João Pernambuco & Rogério Guimarães (1926)

 

João Pernambuco & Zezinho (1929)

http://rapidshare.com/files/182235047/Jo_o_Pernambuco.rar.html

Obs.: Recordando (com Zezinho) mais parece uma reelaboração de Mimoso (c/ Rogério Guimarães) do que propriamente outro choro. Sendo ou não a intenção de Pernambuco, é de se notar a estonteante beleza da 2ª parte de Recordando com a pequena modificação. Note-se, também, a semelhança entre Recordando e Furinga, de Ernesto Nazareth (ouvir em http://www.sovacodecobra.com.br/2007/09/furinga/).

JOÃO PERNAMBUCO – TODA A OBRA VIOLONÍSTICA POR ANGELO ZANIOL – EM 16 OUTUBRO DE 2007

 

Homenagem a João Pernambuco

no 60° aniversário de falecimento

 

         A 16 de Outubro do ano corrente vai cair o 60° aniversário da morte de João Pernambuco, violonista-compositor popular sempre nobremente inspirado.

          Infelizmente muitas de suas composições, talvez a maioria, pereceram com ele por falta de um anjo bom que pudesse anotá-las e assim preservá-las. Pernambuco não era analfabeto, como já foi dito, mas provavelmente era incapaz de escrever com plenitude a sua própria música, que de costume improvisava e depois guardava em sua prodigiosa memória. Aconteceu, portanto, que sobreviveram unicamente aquelas composições que conseguiu gravar ou foram publicadas quando ele ainda estava vivo. Outras músicas de Pernambuco chegaram até nós em manuscritos: nenhum deles aparece autografado e infelizmente a maioria se apresenta como simples esboços, amiúde contendo erros e incongruências. São em tudo pouco mais de trinta peças, todas porém duma fulgurante beleza.

          Para comemorar o aniversário em questão, publicarei no site www.joaopernambuco.com, no dia preciso em que faleceu Pernambuco, todas as sobreditas composições (para ouvir em MIDI files) arranjadas para dois violões, onde tentei recriar seu espírito genuíno (em duo, portanto, como João gostava e gravava sua música, pois soa efetivamente muito melhor, mais rica e pregnante). As partituras destes arranjos (para imprimir em PDF) poderão também ser adquiridas se der-se o caso, tomando contato comigo.  

Assinado:


 Angelo Zaniol

  Pesquisador e compositor italiano
angelozaniol@gmail.com

 

 

 

 
 

Na entrevista que segue, Angelo Zaniol revela entre outras coisas: como o choro chegou à Europa pela primeira vez com estrondoso sucesso; como se apaixonou pela MPB e por João Pernambuco em particular; e, finalmente, com quais objetivos nasceram os seus arranjos.
Hélio


http://www.joaopernambuco.com/09.html

Ver também, www.blogdochoro.zip.net

 

 

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