Devagar e Sempre, já trazia em sua primeira gravação (1949) o problema da falsa parceria entre Pixinguinha e Benedito Lacerda (Pixinguinha teria cedido as parcerias de todas as gravações da dupla em gratidão a um favor de Benedito Lacerda). Mas o choro é de Alfredinho (companheiro de Pixinguinha da Velha Guarda). O caso foi esclarecido por Ary Vasconcelos em A nova música da República Velha (1985) e conta também com o testemunho de Izaias de Almeida ao ouvir do próprio Pixinguinha a explicação sobre erro de impressão no disco 78 rpm lançado à época.
A autoria de Triste Alegria foi corrigida na gravação de Nelsinho (1979), dando os devidos créditos a Candinho e não a Bonfiglio de Oliveira, como consta na gravação original de Garoto (1951). Embora tratem-se de dois pesos pesados na arte da melodia e da forma, a 3ª parte denunciava o estilo de Candinho.
O caso nebuloso diz respeito a Dinorá, choro dos mais populares. O senso comum é de que seja de Benedito Lacerda e José Ferreira Ramos, como consta da gravação original (1935) do próprio Benedito. Porém, há duas outras versões:
- a de que Benedito Lacerda “melhorou” o choro de José Ferreira Ramos para gravá-la (Ary Vasconcelos);
- a partitura que alguns chorões possuem, onde consta a autoria única de Cícero Telles de Menezes, porém, com outro nome: Flor de Liz (versão sustentada na nova gravação de Luciana Rabello e Maurício Carrilho de 2002).
Obs.: a gravação de Ademilde Fonseca (1944) traz a parceria Benedito Lacerda / Darci de Oliveira (provável letrista) notando-se a ausência de José Ferreira Ramos.
Em www.blogdochoro.zip.net sob o título O Choro no Direito resumimos uma tese descrita no livro O TRABALHO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA relacionando grupos socialmente discriminados à origem do choro. Seu autor, desembargador Ricardo Tadeu Marques da Fonseca foi empossado hoje no Tribunal Regional do Trabalho do Paraná pelo Presidente Lula.
Vale a pena recordar outra tese encontrada no mesmo livro, desta vez a respeito do jazz. Citando Stephen M. Stroff e seu livro Descobrindo o melhor do Jazz (Discovering great jazz, 1991 - Rio de Janeiro: Ediouro, 1994), relaciona mais uma vez “deficiência” à geniais criações:
“o blues e o jazz nascem ... da utilização pelos músicos negros de instrumentos em mau estado de conservação, já abandonados pelos brancos e adquiridos de segunda ou de terceira mão pelos negros. Esses instrumentos de sopro já não se afinavam com a precisão necessária, o que produzia notas até meio tom abaixo da escala normal, obrigando-os a desenvolverem uma escala musical até então desconhecida pela música culta: a escala pentatônica, cuja peculiaridade reside na inclusão da chamada blue note que imprime aos acordes um aspecto de lamento, de dor. A dissonância e as terças em bemol são as características básicas da estrutura do jazz e do blues. Subvertem-se, assim, as bases da música européia e o jazz reflui, posteriormente, no início do século XX, para a própria música erudita, que o incorpora como música culta...”
Esta é uma das teses da origem dos elementos básicos do blues e do jazz.
Hoje sabemos que o universo do bandolim nos anos 1970 era muito maior do que se via na mídia ou nos discos (aliás, isso sempre foi assim), portanto, quem não era do meio chorístico conhecia apenas um grupo reduzido de bandolinistas.
Déo Rian era um misto de simplicidade e imensa sensibilidade (imbatível em algumas lentas); Joel Nascimento a densidade, a profundidade do “toque” (uma palhetada que valia por 1000); Isaías era o improvisador nato, a noção de dinâmica (habilidade em expandir o tempo quando seu sentimento pedia). Nos anos 70 eles eram a referência.
Evandro também era muito querido, menos “chorado” na interpretação, certamente por influência de seu professor Luperce Miranda. Alternou belos discos (Pixinguinha e Benedito Lacerda pela Copacabana, 1972; Brasil, Flauta, Bandolim e Violão pela Marcus Pereira, 1974 – ambos com Manezinho da Flauta) com outros de repertório batido para consumo imediato de um público novo que, àquela época, passou a consumir chorinho. Nos anos 90, gravaria uma bela série de cds no Japão pelo selo Tartaruga.
Evandro declarou certa vez que o LP Cordas que Falam, de 1978 (Copacabana) foi lançado também no Japão. Teria sido justamente este disco que introduziu Evandro naquele país, onde o bandolinista é extremamente popular?
O certo é que Cordas que Falam é um disco bastante especial. Além de boa sonoridade (algumas faixas lançadas em cds coletâneas de Evandro tiveram perdas na qualidade do som), o LP tem repertório muito bom (nada óbvio) e arranjos bem cuidados. Percebe-se ouvindo este disco, que, quando Evandro podia, dava de si e ao choro o melhor. O cavaco de Lúcio está bem audível em suas nuances rítmicas, o 7 cordas de Pinheiro extremamente participativo no disco todo e especialmente charmoso em faixas como Quando Dois Amigos Se Encontram, onde antecipa cada compasso para as partes de Evandro com criativas baixarias. Destaque também para os ritmistas (Zequinha, Silvio Modesto, Branca de Neve, Natal e Théo) que apresentam uma gama de sons geralmente alheios ao choro.
Obs.: o sítio de Fernando Duarte http://www.bandolim.net/ traz outras resenhas de discos da época - além de outros articulistas com os quais tenho a honra de compartilhar o espaço.
Em http://www2.camara.gov.br/radio "acesse os programas" procure "parcerias" e clique em "Roda de Choro". Todo o sábado à tarde tem uma novidade. Segue o de ontem como amostra para ouvir e deliciar, para quem não ouviu no rádio. Agora a sinopse é para cada parte o programa. E.... pode até ser baixado em mp3...
Enviado por Américo
Alertado pelo Prof. Zé Amaral, que entre outras coisas, é excelente colunista de choro http://mundolusiada.com.br/COLUNAS/ml_coluna_246.htm e prepara com sua equipe um esperado livro sobre o choro de São Paulo, notamos não haver na internet dados biogáficos a respeito do mestre Osvaldo Colagrande. Aí vai, portanto.
Nascido em Ipauçú, São Paulo, em 24/09/1930, foi, no entanto, registrado em Cambará, Paraná. De formação autodidata, iniciou sua carreira de músico profissional em 1951, como integrante do Regional de Antonio Bruno (acordeonista) onde participava do programa da Rádio Cultura Calouros Rodini (“acompanhando os calouros, aprendi muito” afirma ele).
Em 1955, Esmeraldino Salles o convidou para participar do regional do Siles (*), nas emissoras Tupy e Difusora:
“Eu trabalhava em uma gráfica ali perto e na hora do almoço ia assistir os programas de rádio, que na época eram ao vivo e em auditórios. Esmeraldino, que me conhecia como violonista, me avisou para ficar alerta que o Mão de Vaca (Manoel da Conceição) iria em breve deixar o conjunto para trabalhar com a Angela Maria. Eu acabei ficando em seu lugar”.
Colagrande nunca mais se separou de seu parceiro, o grande Esmeraldino Salles, criador de um balanço característico na arte do acompanhamento, do qual Colagrande é seu maior representante vivo.
E foi logo depois, em 1957, que Esmeraldino ouviu em primeira mão a 1ª parte de um choro que Colagrande acabara de compor, o Novato. Esmeraldino adorou e pediu para colocar uma 2ª parte. Eis aí a gestação do hoje famoso clássico Novato. Colagrande conta também, em sua habitual humildade, que “aquela improvisação escrita, que todo intérprete gosta de repetir, foi feita pelo Esmeraldino”.
Osvaldo Colagrande acompanharia nos anos seguintes grandes chorões do Brasil quando em viagem a São Paulo: Pixinguinha, Sivuca, Waldir Azevedo, Altamiro Carrilho, Jacob do Bandolim; cantores como Orlando Silva, Clara Nunes e Silvio Caldas (este último por 12 longos anos como integrande do Regional do Caçulinha).
Em 1971, adotou o violão de 7 cordas. Dino foi sua maior referência, porém, seu estilo não é igual ao do mestre carioca – suas baixarias estão muito ligadas à rítmica do choro paulista, suas frases trazem um balanço impressionante, diferentemente de Dino, clássico por excelência. O mais notável é que, embora sua “pegada” seja facilmente reconhecível pela originalidade, prefere a “levada” violonística dos cariocas, acha-a mais autêntica.
Em 2002, lançou finalmente seu belíssimo e fundamental CD Tributo a Esmeraldino com o Conjunto 1 x 0. http://www2.correioweb.com.br/cw/EDICAO_20030709/cadc_mat_090703_52.htm
Hoje, aos 78 anos, mora em seu sítio em Itupeva (interior de São Paulo), com sua eterna companheira, Dª Maria José (casaram-se em 1954). Não pense o leitor que ele se rendeu à aposentadoria. Não, sua vitalidade continua a mesma. Vem de 15 em 15 dias no Bar do Café encontar seus velhos amigos e alguns jovens chorões que o vêem como espelho (**) para uma roda de choro de dar gosto.
Bem, e como exemplo de como sua cabeça jamais parou de avançar, mestre Cola nos disponibiliza uma de suas “brincadeiras” caseiras, uma autêntica aula de 7 cordas. Sobre o violão de Baden Powell no samba Falei e Disse (parceria de Baden com Paulo Cesar Pinheiro) ele “montou” baixarias cortantes, bem a seu estilo, forçando-nos a pensar o que Baden não acharia disso! Nenhum exibicionismo, somente categoria, classe, uma jóia (reparar na hexatônica no minuto 1:50). http://rapidshare.com/files/271054130/Baden-Colagrande__montagem__Falei_e_Disse.mp3.html
(*) Grande clarinetista e arranjador, Siles (Wanderley Taffo) gravou álbuns instrumentais soberbos nos anos 50, http://loronix.blogspot.com/2007/07/siles-e-seu-conjunto-samba-society-1958.html além do raríssimo LP Brejeirice, recheado de improvisações do matreiro cavaquinho de Esmeraldino, do acordeon surpreendente de Wandereli Rizzoto e da guitarra de Poly arrebentando.
(**) O Bar do Café fica na rua Tagipuru, 176, perto da estação Barra Funda – na foto abaixo, Cola é secundado pelo Prof. de violão clássico, Marco Grabolos (todos os chorões e amantes do gênero estão convidados).
Ana, esposa do mestre Valdir 7 cordas, mandou este belo vídeo do Grupo Chapéu de Palha, gravado em 1977.
Grato ao Américo pela divisão dos links. É ele quem dá o recado:
Compactei o vídeo em avi . Dá trabalho baixar, mas vale a pena. Deu um total de 700MB aproximadamente e já está disponibilizado no 4shared, compactado pelo rar em 7 partes. Devem ser baixadas as 7 partes e colocadas na mesma pasta antes de descompactar. Para descompactar use o wnrar ou o 7zip.
Teste antes de disponibilizar no blogdochoro, baixando, descompactando e assistindo.
http://www.4shared.com/file/116321060/7e5660da/chapeupart1.html
http://www.4shared.com/file/116328564/2f829a2/chapeupart2.html
http://www.4shared.com/file/116328564/2f829a2/chapeupart2.html
http://www.4shared.com/file/116331647/ebe9c2f9/chapeupart3.html
http://www.4shared.com/file/116333699/13f65938/chapeupart4.html
http://www.4shared.com/file/116336804/81c543f4/chapeupart5.html
http://www.4shared.com/file/116342965/9c18f594/chapeupart6.html
http://www.4shared.com/file/116503646/a71ea329/chapeupart7.html
Candinho Pixinguinha
Como o chorinho é visto “de fora”, isto é, por pessoas de bom gosto, que admiram música instrumental, mas não fanáticas pelo genero?
O texto do qual trataremos simboliza bem esta visão: http://farofamoderna.blogspot.com/2008/11/caros-admiradores-da-musica.html
Analisemos algumas passagens :
não há como negar que o Choro ... seja uma gênero musical antigo que, ao longo da sua trajetória ... lhe foi adicionado poucas inovações...
Isto não é correto, o choro foi influenciado pelo samba (rítmo), pelo jazz (Severino Araújo), pela música impressionista (Garoto), etc. Mas o problema não é este. Todas essas e outras inúmeras modificações jamais mudaram a essência do choro, daí a sensação do articulista de ser uma música de raiz que se mantém tão conservadora...
Em outro trecho:
Hoje temos mais um grande revival do Choro, dessa vez com toda aquela necessidade de modernização ... surgiram grandes instrumentistas capazes não só de resgatar o choro, mas de modernizá-lo elevando-o a um status cada vez mais artístico: falo do violonista Yamandu Costa... Hamilton de Holanda...
... As formações, por sua vez, estão mais atreladas à livre escolha da música contemporânea, saindo daquele formato padrão dos antigos regionais...
Modernização harmônica ou composicional (Garoto, Radamés, Esmeraldino, Laércio de Freitas, etc.) e formação instrumental diversificada são das maiores características do choro desde sua origem, portanto a colocação não procede. Na verdade, o que quer se dizer, porque atende aos anseios do articulista, é que muito do que se faz hoje não é choro, mas música instrumental de qualidade. A MPB instrumental, desde a época em que assim se denominou fortemente, final dos anos 1970 (Medusa, Pau Brasil, Cama de Gato) é próxima ao jazz e suas variantes (*). Por mais brasileiros que sejam Yamandú Costa e Hamilton de Holanda e por mais chorinho que corram em suas veias, muito de sua música é similar à música instrumental que se faz em outros países.
Não se faz aqui juízo algum de valor, apenas não se chama de choro uma música que mantenha alguns de seus longínquos elementos apenas. O essencial está ausente (ver É CHORO? em www.blogdochoro.zip.net).
(*) Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti não entram aqui, porque compõe choro de verdade, embora às vezes não pareça.
Por que a música instrumental brasileira e a bossa-nova instrumental tem estilo correspondente em outros países e o choro não?
Primeiro porque na música instrumental em geral existe uma base jazística e isto facilita o intercâmbio. O choro já é música de raiz, o diálogo com a música flamenca, andina, o jazz, o tango e o fado instrumental, etc. é de outra espécie.
Segundo porque a composição no choro é fundamental; como grande parte dos instrumentistas tem predileção pelo improviso desvinculado da composição, os gêneros musicais que requerem uma certa obediência à estrutura, à harmonia e à linha melódica, não são os caminhos mais adequados para esta liberdade almejada.
A música andina “sofre do mesmo mal”. Conjuntos que têm um instrumental artisticamente perfeito, considerando composição e interpretação, como Quilapayún e principalmente o Inti-Illimani, não conseguem fazer com que esta música tão bela se desenvolva em outros gêneros instrumentais sem que o resultado pareça esteriotipado. Gato Barbieri teve 2 de seus melhores trabalhos reunidos em uma coletânea (Latino America), interessante tentativa de diálogo entre sua música livre e a música andina. Entretanto, o sentimento transcendente, tão característico do gênero perde sua força, que, como no choro, não pode deixar de existir para que a potencialidade das inspiradas composições atinja a plenitude.
A canção brasileira, esta sim, se adapta perfeitamente a experimentos instrumentais diversos – os discos The Brasil Project de Toots Thielemans que o digam. Mas não foi por desconhecimento que ele deixou de fora o choro, com toda a certeza. É que isto exigiria outra abordagem do gaitista.
Bem, mas não é preciso ir muito longe, o Ragtime (com estrutura semelhante à do choro) raramente foi objeto de reiterpretações no meio jazístico por todos esses motivos, e quando o foi, como no disco Scott Joplin: Interpretations'76, de Mike Wofford, a coisa só funcionou como jazz.
O choro não tem medo de experiências – até as aparentemente incongruentes – mas em algum momento ele precisa ser reconhecível.
Curioso, este blog jamais teve a intenção de disponibilizar discos ou cds de choro, mas as poucas vezes em que isto foi feito, contou com o apoio imediato dos artistas consultados: Francisco Araújo, Izaías & Izrael de Almeida, Odette Ernest Dias, Geraldo Ribeiro e Grupo Chapéu de Palha. Só não consultou os herdeiros de Darius Milhaud, por motivos óbvios, foi ele o maior pirata (do bem) da música brasileira e certamente não se importaria em ser pirateado.
O fato de a maioria dos chorões não se opôr à pirataria revela uma obviedade: eles nunca dependeram da venda de LPs ou CDs para viver; é preferível, pois, ter seu trabalho divulgado de uma vez e livremente pela internet.
Isto não ocorre apenas no choro, pouquíssimos músicos no mundo sobreviveram através das gravações; somente uma minoria (geralmente cantores de grande sucesso) são prejudicados por ela.
Este texto vem a propósito de alertar contra novas investidas contra a liberdade da internet, seja através das gravadoras http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/10/071005_multapirataria_fp.shtml,
seja através de governos http://www.estadao.com.br/noticias/tecnologia+link,brasil-pode-ter-sua-propria-lei-sarkozy,2785,0.shtm
O Observatório da Imprensa, talvez o site de maior credibilidade jornalística do país, está atento: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=538ENO005
Até o ultraconservador jornal O Estado de São Paulo tem publicado matérias memoráveis a respeito (jamais condenando a pirataria), seja na área erudita, seja na popular, seja no caderno Link http://www.estadao.com.br/noticias/tecnologia+link,uma-pirata-de-21-anos-rumo-ao-parlamento,2812,0.shtm
Uma coisa parece certa, como bem demonstra este artigo do Estadão referente ao Partido Pirata Europeu: as novas gerações não aceitam mais voltar atrás. E o mundo será deles.
Quando pensávamos em procurar Júlio Lerner para falar sobre sua experiência com o choro, como sua iniciativa bem sucedida de levá-lo para a televisão no início dos anos 1970, soubemos de seu falecimento.
Izaías de Almeida o conheceu e participou com ele de todo o movimento de recuperação do choro em São Paulo nestes anos:
“José Ramos Tinhorão, assíduo frequentador das rodas de choro do D’auria, foi quem levou Júlio Lerner para lá. Júlio se apaixonou por aquela música e logo criou com Tinhorão um programa na TV Cultura. O primeiro programa não foi de choro, mas de seresta, com Renato Petra, mas aos poucos o chorinho foi entrando. Até que criou ‘O Choro das Sextas-feiras’ (depois vieram ‘A noite do Choro’ e ‘A Alegria do Choro’).”
Para se ter uma idéia do engajamento de Júlio Lerner com o choro, um pequeno depoimento deste blogueiro (então guitarrista de rock):
“Havia um jovem conjunto de rock nos anos 1970. Muito amigo do pai do baixista, Julio Lerner um dia foi ao ensaio. No primeiro intervalo, com muita classe, reuniu os integrantes da banda numa roda e os chamou à conciência. Era algo como, “vocês têm que tocar música brasileira, choro, têm de tocar choro!”. Não pense o leitor que foi um discurso de cima para baixo, arrogante ou nacionalista barato. Foi de alguém que realmente falava com amor à causa. Ademais, por ser de esquerda como Tinhorão, fazia-nos compreender o momento político em que vivíamos no Brasil em plena ditadura e a alienação que ajudávamos a propagar. Para nós, jovens e idealistas, este discurso teve efeito devastador. Em pouco tempo incluímos no repertório “Terna Saudade” de Anacleto de Medeiros. O resultado deve ter sido pífio, mas foi o começo... Na verdade o rock nunca deixou de fazer parte de nossas vidas, mas coincidência ou não, o preconceito com relação a música brasileira desapareceu nesta época”.
Como bem observou o jornalista Marcelo Coelho em seu blog, “a cultura brasileira deve muito a Júlio Lerner... na época em que chorinho era uma coisa completamente fora de moda... ele tinha um programa semanal na TV Cultura... em que de um jeito muito suave e caloroso trazia músicos muito “em baixa” para o conhecimento do público.”
Izaías relata algo semelhante: “o choro, tanto no Rio como em São Paulo, estava muito mal por esta época. Começou a ressurgir com iniciativas como a de Tinhorão e Lerner em levar D’auria e companhia para a televisão”.
Lerner faleceu aos 67 anos, em 2007.
Madeira de Vento interpretando Frio e Chuva acompanhado pelo próprio compositor e arranjador Izrael de Almeida ao violão.
O idealismo com que os estudantes da UMES organizam esta série de espetáculos de choro é tocante, o respeito pelos mestres que lá vão tocar, o carinho no trato com o público. http://www.umes.org.br/umes/noticias.php?ID=744.
Patrocinam, também, a ida de uma escola pública diferente a cada semana, com dezenas de alunos adolescentes que não teriam a oportunidade de ouvir música instrumental deste nível em outro lugar. Mesmo com repertório sem conceções, como o desta última 2ª feira (com o excelente conjunto Madeira de Vento), são sempre surpreendentemente receptivos. Emocionante.
Se você estiver tocando choro em São Paulo e observar um flash vindo em sua direção, pode apostar sem medo de errar: o sr. Wilson Caldana o está fotografando. Você irá direto para o seu recente e precioso arquivo de mais de mil fotos (até agora...), juntando-se a dezenas de intérpretes chorões.
"Escolhi o chorinho pela música e pela habilidade dos músicos para interpretá-la”, diz ele. Engenheiro eletrônico e físico, cruza a cidade de norte a sul nas poucas horas que lhe sobram apenas para registrar para a posteridade este momento do choro em São Paulo. Generoso, doa cópias das fotos aos músicos, o que lhe tem valido grandes amizades.
Por ser impossível dar aqui uma amostra abrangente de seu trabalho, escolhemos ao acaso 3 registros:
Conjunto Retratos em Pinheiros (Praça Omaguás)
Arthur, Cidão e Moretti no SESC Paulista
Casa de Marimbondo em São Bernardo do Campo (Festival Viva o Choro 2009)
Pois nesta 2ª feira passada, lá estava ele em mais um espetáculo imperdível: Toninho Carrasqueira e Izaías & Israel entre amigos a interpretar o mestre João Dias Carrasqueira.
Toninho Carrasqueira
JOÃO DIAS CARRASQUEIRA
Se tivéssemos de definir em uma palavra o estilo Carrasqueira (afinal o sopro sublime do pai passou para o filho) diríamos sem medo: é o sopro mais “triste” da flauta brasileira. Literalmente a flauta chora. Há momentos que você sente seu sopro contido como se fosse uma voz embargada tamanho é o sentimento que dali sai. Mas tudo isso sob um domínio técnico primoroso.
A surpresa no espetáculo foi uma valsa de João Dias Carrasqueira e Esmeraldino Salles, uma parceria surpreeendente que fez o tempo parar no teatro UMES. A ausência, o lindíssimo choro Apanhei-te Joãozinho (caramba, por que não tocaram?).
Toninho fez menção a uma possível gravação de choros do pai. Como seria bem vindo um cd destes... João Dias Carrasqueira
O violão de 6 cordas no conjunto de choro anda em baixa - são poucos os que têm se dedicado à arte deste instrumento. Há, naturalmente, motivos econômicos para sua presença ao vivo estar minguando, o cachê às vezes exige um enxugamento no time e ele é o primeiro a ser descartado.
Entretanto ele tem uma função fantástica não devidamente avaliada pelos joverns ao adentrar no mundo do choro. Para começar, ele goza de uma liberdade maior do que a de outros instrumentos.
Dirá alguém que liberdade maior tem o violão de 7 cordas, porque tem a preferência para fazer as baixarias que quiser. Em parte somente - o 7 cordas tem funções burocráticas como passagens obrigatórias que estruturam o choro mais escravizantes (sem o sentido pejorativo, evidentemente) do que algumas tarefas do 6 cordas, como as terças, por exemplo.
Na verdade, o 6 cordas tem um mundo a desbravar durante a execução de um choro e para isto não existem limitações. Quer fazer uma contra melodia, faça, quer fazer um solo virtuosístico em algum espaçinho livre, ouse, quer explorar a harmonia, explore.
O exercício mental exigido por quem fez sua opção por este instrumento é imenso. Em primeiro não se fará o mesmo desenho do acorde do violão de 7, que ficará com os mais tradicionais. Só isso será um aprendizado e tanto, pois, depois de algum tempo o chorão estará familiarizado com variações do mesmo acorde e conhecendo o braço de seu violão em toda a sua extensão como ninguém.
O título deste texto lembra que o estilo de muitos guitarristas de jazz é absolutamente adequado à função do 6 cordas no choro, principalmente aqueles jazistas que têm na harmonização o seu forte.
O mero comentário sobre uma apresentação de chorinho em São Paulo já traz em si uma injustiça – pois não se pode estar em todos os espetáculos de choro (que para a felicidade geral aumentam a cada dia) para poder comentar sobre as emoções vivenciadas.
Mas as poucas em que conseguimos ver, como a de ontem, no SESC Paulista, valem muito.
O conjunto Ó do Borogodó surpreendeu, a começar pelo bom gosto do repertório, os arranjos espontâneos mas precisos, e músicos de primeira grandeza.
Como em blog há que se falar pouco, por hora falemos apenas sobre uma das experiências mais tocantes que este blogueiro já viveu no mundo do chorinho, isto é, como a vida se movimenta, como a herança de uma geração é herdada pela seguinte.
Gian Correa, o Pingo, não é exatamente da geração que seguiu à de Osvaldo Colagrande, são 50 anos que os separam, mas a influência devido a alguns anos de convivência com o mestre é cristalina. Vê-se, evidentemente, muitas outras influências (às vezes até mais fortes), mas o que chamou a atenção, pelo inusitado, foi aquele balanço peculiar nos improvisos isolados (que Pingo nos brinda em doses generosas), frases à lá Esmeraldino Salles e Osvaldo Colagrande. Faltaram só aquelas escalas “dissonantes” tão caras aos dois mestres (tons inteiros, etc.) mas Pingo seguirá seu próprio caminho, pois talento e personalidade sobram por ali.
Alexandre Ribeiro – clarinete; Gian Correa – violão 7 cordas; Ildo Silva – cavaquinho; Roberta Valente – pandeiro (Ó do Borogodó).
Obs.: a apresentação está disponibilizada: http://200.225.157.150/
O Jornal Folha de São Paulo realizou uma enquete: qual seria a melhor música caipira de todos os tempos?
Como o choro, a música caipira é tratada sempre marginalmente na mídia, por isso, foi louvável tamanho destaque no seu caderno Ilustrada.
As músicas vencedoras não surpreenderam, são belíssimas, bem conhecidas e adequadas ao perfil dos leitores do jornal que não são exatamente os ouvintes de música caipira.
Para que um número maior de leitores fosse atingido, foi preciso que alguns dos jurados não fossem especialistas em música caipira mas apenas pessoas de bom gosto que valorizam qualquer música bonita. Ou seja, se fizessemos um paralelo com o choro e as mesmas pessoas votassem, estariam eleitos Carinhoso, Tico-Tico no Fubá, Odeon, etc., belos mas óbvios.
Agora, se você perguntar para algum chorão, seja ele ouvinte ou músico, ou para algum amante genuíno da música caipira, isto é, aquele que não vive sem ela, que a escuta diariamente, esta eleição do jornal ou alguma fictícia do choro poderia surpreender pelo leque que se abriria. O aficionado, de qualquer gênero, sabe como encontrar jóias menos divulgadas tornando-as não raras vezes suas peças prediletas.
Apenas para citar um exemplo de como enquetes diluídas como a da Folha causam injustiças, entre as 78 canções citadas pelos diversos jurados, somente um deles lembrou o nome de José Fortuna (a outra referência não trata de composição sua). Transportando para o choro, seria como se Jacob do Bandolim (como compositor) só fosse lembrado por um votante apenas (em um grupo de 160 choros escolhidos por 16 críticos, pesquisadores e compositores).
O jornal se justifica e reconhece que a enquete não é científica ou estatística.
Um segundo probleminha precisa ser lembrado. Diz o jornal: a enquete aponta alguns dos maiores clássicos da música caipira e ajuda qualquer interessado pelo gênero a montar um CD danado de bão.
Cedezão sim, mas de música caipira? Uma rápida olhadela na relação completa coloca em xeque a afirmativa.
Mas nos atenhamos ao chorão e sertanejo João Pernambuco e o poeta Catulo da Paixão Cearense na parceria (*) Luar do Sertão (7ª colocada). Para isso consultamos um dos jurados, especialista em música nordestina, o pesquisador e radialista Assis Ângelo, que nos ensinou através de e-mail:
No rigor, digamos, houve certa confusão no levantamento da Folha. Caipira é caipira, como matuto é matuto; e nesse ponto ambos são os mesmos: de poucas letras.
Vamos ao caso:
"O luar do sertão", assim grafado, foi primeiro gravado por Eduardo das Neves no ano de 13 do século passado, e lançado em fevereiro de 14 pela velha Odeon, no Rio. O gênero original? Toada sertaneja. Depois, a partir de 1935, essa obra passou a ser registrada em discos como canção. Mas é, no original, uma toada canção.
Matérias completas:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u535294.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u530552.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u534511.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u534510.shtml
(*) João Pernambuco não aparece oficialmente no disco de Eduardo das Neves (78 rpm, nº 120.911). A polêmica em torno da autoria de "O Luar do Sertão", ou "Luar do Sertão", começou em 1937, quando o maestro Villa-Lobos anunciou que a obra tinha co-autoria: João Pernambuco. Almirante comprou a briga logo depois, para desespero de Catulo (Assis Ângelo, através de e-mail).
Imagine se Paco de Lucia reunisse semanalmente vários expoentes da música flamenca, numa descontraída improvisação coletiva, assim, gente como Manolo Sanlucar, Geraldo Nuñes, em lugar agradabilíssimo e com as portas abertas para o público.
Imagine, agora, se os Irmãos Marsalis fizessem o mesmo em seu país, recebendo váriados músicos do meio jazístico para uma “jam”, com entrada grátis para qualquer mortal.
Poderíamos supor que nestes dois casos, se verdade fosse, os lugares seriam disputados à tapa!
Isto é para mostrar o tesouro que temos nas mãos e muitas vezes não valorizamos - pois para os amantes do choro isto é realidade. Aqui em São Paulo, na rua Capital Federal, 186, pertinho do metrô Vila Madalena, juntam-se todas as sextas-feiras, às 21:00, um punhado de mestres do choro. Três horas de puro encantamento.
Sylvio Sampaio Garrido, o Silvinho, a quem todos são eternamente gratos pelo espaço, teve a feliz idéia há três anos: “Eu convidei o Izaias para uma roda de choro no estúdio numa sexta-feira - aí fizemos na outra sexta também e não paramos mais.”
Em pouco mais de 4 meses, este felizardo blogueiro viu craques como Luizinho 7 cordas, Alessandro Penezzi, Danilo Brito, Charles da Flauta e Henrique Cazes, capitaneados pela presença constante dos mestres Izaias e Izrael de Almeida, generosos e abnegados, pois bem poderiam estar tocando por aí e com polpudos cachês, porém, apenas para manter viva a chama das rodas de choro (e pelo prazer indescritível de uma boa roda, claro) organizam-na.
Há sempre lugar, também, para os jovens iniciantes que nunca saem de lá sem dar uma “canjinha”. E se você não toca e é apenas um amante da boa música, há cadeiras confortáveis para se apreciar o desfile de choros e um cafezinho nos intervalos. Exige-se apenas silêncio.
Parece... mas não é um sonho. Izaias & Izrael
Zequinha Sorriso
Penezzi Paulo Baloi
Sérgio Silvinho Izaias
(Grato ao sr. Wilson Caldana pelas fotos)
- Qual clássico da MPB você acha que não merece esse título?
Nei Lopes: Rosa, do Pixinguinha.
- Qual canção considerada clássica mereceria uma letra melhor?
Nei Lopes: Essa mesma Rosa... (*)
Esta aparente contradição do grande Nei Lopes (afinal, é clássico ou não é?), só se explica pelo costume de atribuir à qualidade das letras o sucesso das músicas.
Pensemos em As Rosas não falam (Cartola), Blowing in the wind (Bob Dylan), Imagine (John Lennon), Gracias a la vida (Violeta Parra). Não há crítica ou resenha que não cante loa aos versos, fazendo-nos quase supor serem eles os responsáveis pelo sucesso da canção. Será que esses compositores não fizeram outras letras tão significativas? Com certeza fizeram, mas muitas vezes elas não foram acompanhadas de melodias tão bonitas.
Mas é bom lembrar, contrariando a tese deste texto, que foi somente após a inclusão da letra de Otávio de Souza (18 anos após a gravação instrumental) que a valsa Rosa (Evocação, na versão original) deixou o universo exclusivo do choro e se tornou um clássico da MPB.
(*) Publicado em 14/02/2009, na seção "Antologia Pessoal" do jornal O Estado de São Paulo. Na verdade, por engano, a matéria foi publicada como sendo Ed Motta o entrevistado.
Altamiro Carrilho se inspirou no compositor John Williams para compor o choro Contatos Imediatos, e tudo leva a crer que também o fez no seu belo Aeroporto do Galeão. Mas poderia ter se inspirado também no Uirapuru de Villa-Lobos, composto 60 anos antes (1917), afinal as “cinco notinhas” emitidas pelo disco voador no filme Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) são muito semelhantes às que permeiam o poema sinfônico de Villa.
Embora as trilhas sonoras sinfônicas de John Williams, Bernard Hermann e outros compositores de Hollywood sejam um prolongamento da música clássica do início do século XX (o Uirapuru daria uma trilha e tanto!), não é provavel que tenha havido plágio. As notas não servem ao desenvolvimento da trilha (como no caso de Villa), estão praticamente isoladas no filme, com exceção da variação sinfônica nos créditos finais que lembra vagamente o Uirapuru. Mas Contatos sucumbe à “maldição” da analogia: quem escuta Uirapurú, não consegue deixar de comentar, “olha lá o tema do filme...”.
Obs. 1: http://emboladaetc.blogspot.com/2008/02/uirapur-villa-lobos-cinderela-prokofiev.html
Obs. 2: obrigado ao blog http://viagemusical-trilhas.blogspot.com/ pelo link da trilha sonora de John Williams.
Excepcional artigo escrito por Ruy Castro (http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0009/0424.html ) ( * ), traz um histórico do intercâmbio musical entre o Brasil e os Estados Unidos, a partir de 1917.
Ao se tratar da música da nossa preferência, é sempre prazeroso ouvir a opinião de alguém de "fora", um especialista em outro gênero de música, porque, relacionando sua experiência pessoal (musical e cultural) ao novo objeto de sua análise, revela sutilezas que antes passavam batidas, devido ao nosso envolvimento natural com a música de nosso coração.
É o caso de Ruy Castro quando fala de samba. Não que ele não seja, também, um expert na matéria, contudo sentimos que sua grande paixão mesmo é a música norte-americana.
Portanto quando ele escreve que De 1935 a 1942, Orlando Silva foi o maior cantor brasileiro. Talvez o maior do mundo... ( ** ) isso talvez tenha peso maior do que a opinião dos fãs de primeira água do cantor, pois, deles, não poderíamos esperar outra coisa. E Ruy finaliza: Não há nenhum ufanismo nessa afirmação. É só comparar seus discos dessa fase com os da concorrência internacional no período...
Como Jonas Vieira ( *** ), Ruy Castro também tem uma tese sobre a origem do estilo do gênio Orlando Silva:
Embora não conste que o próprio Orlando tenha algum dia se referido a isso, o cantor de quem ele mais se aproximou (...) foi Bing Crosby. (...)
Sim, seria mais confortável acreditar nas palavras de Orlando, que modestamente definia seu estilo como um meio-termo entre o vozeirão de Chico Alves (...) e os dotes de intérprete de Sílvio Caldas. (...)
Tudo bem - se Orlando jamais tivesse ouvido Bing. Mas, com a já arrasadora fama mundial de Bing (...) desde 1927 (...) isso era impossível. (...)
É certo que Orlando conhecesse pelo menos nos cinemas as suas interpretações...
Em contrapartida, recapitulemos, pois, a tese de Jonas Vieira:
A resposta mais aparente, penso eu, está na origem do querido cantor, filho de um músico de choro (...) cuja casa era frequentadíssima por grandes músicos do gênero na época, destacadamente o mais famoso de todos, Pixinguinha. (encarte do LP "Orlando Silva" - Funarte, 1985). ( *** )
Não necessariamente uma tese exclui a outra; Orlando pode ter sido espiritualmente influenciado pelo choro e tecnicamente por Bing Crosby . E se o leitor quiser um complicador a mais, e dar-se ao trabalho de entrar no ims.com.br, e ouvir os quatro primeiros 78 rpm de Floriano Belham (1930/1931 - ele gravaria somente mais quatro, a partir de 1935), notará que ali poderia estar a semente de Orlando Silva.
Porém, de todo o artigo de Ruy Castro, somente uma coisa incomoda; é quando afirma:
Já me perguntei, até por escrito, se Orlando Silva, (...) teria surgido se não existisse Bing Crosby nos Estados Unidos...
Seria o mesmo que dizer que Orlando Silva não existiria sem o choro, ou sem alguma outra possível influência. Vamos imaginar assim: se Jimi Hendrix não tivesse nascido, a guitarra elétrica seria a mesma? A história é feita de tendências, de consequências: se Hendrix não nascesse outros ocupariam o seu lugar, porque a "sensação" (a evolução) estava no "ar", quem pegasse primeiro "revolucionaria". Explicando: não é o artista que faz a revolução, mas o que a percebe e a materializa. Ousamos, então, responder a pergunta de Ruy Castro: sim, Orlando Silva existiria.
( * ) O artigo Das bananas ao "Desafinado" e além também foi publicado no livro A ONDA QUE SE ERGUEU NO MAR, de Ruy Castro, de 2001.
( ** ) Caprichos do destino, artigo publicado no mesmo livro, sendo este, exclusivamente sobre Orlando Silva.
( *** ) Maiores detalhes, ver A TESE DE JONAS VIEIRA em blogdochoro.zip.net
Dicas:
1 - A antologia Bing Crosby - Bing! His Legendary Years, 1931 to 1957 lançada em 1994, pelo selo MCA pode ser facilmente baixada através do eMule.
2 - Já a coleção selecionada por Ruy Castro, Orlando Silva - O Cantor das Multidões Vol. 1, 2 e 3, de 1995 (RCA) pode ser baixada em http://www.umquetenha.org/?cat=45, além do imperdível depoimento do mestre em Orlando Silva - Série Documento (1978).
Se há alguns anos podia-se ouvir um ou outro chorinho nas rádios AM de São Paulo, isto se devia a programas como os de Moraes Sarmento, Zuza Homem de Mello ou Fausto Canova (a falha de memória ou a ignorância podem cometer alguma injustiça com algum outro radialista da época).
Alguns programas tinham lances inesquecíveis, como um comentário de Sarmento contando que flagrara sua filha chorando ao ouvir a 3ª parte de Medrosa (Nasci para te amar) de Anacleto de Medeiros, tocando em seguida a versão belíssima de Muraro; ou Canova em seu programa apresentando em primeira mão o LP de estréia do "menino" Raphael Rabello, estupefato com a técnica do violonista.
Fausto Canova, nos deixou no último dia 3 de janeiro.
Bonita, elegante, culta, ex-top model famosa, ex-namorada de Mick Jagger, atual esposa do presidente da França. Não, não, nada disso tem importância. Para quem gosta da música francesa, não existe nada melhor do que o surgimento de mais uma legítima cantora e compositora na tradicional chanson: Carla Bruni [ # ].
As meninas do Choro das 3 também chamam a atenção por alguns atributos extramusicais: jovens e mulheres, num ambiente predominantemente masculino (será mesmo?) [ * ]. Isto pode servir ao choro de alguma maneira, atraindo a mídia, ou mesmo como promoção do próprio grupo, afinal, no mundo em que vivemos usamos todas as fichas disponíveis. Mas não nos percamos, não deixemos de ver o essencial: elas tocam muito!
Choro das 3 - Meu Brasil Brasileiro (2008)
http://www.chorodas3.com.br/blog.html
[ * ] "... três mulheres herdeiras, cada uma a seu modo, do velho estilo tradicional dos pianeiros vindo do século XIX: a pernambucana Amélia Brandão, a Tia Amélia, a carioca Carolina Cardoso de Menezes, e a paulista Lina Pesce.
Dessas três pianeiras brasileiras (e não deixa de ser curioso que uma parte da herança sonora dos chorões esteja nas mãos de três mulheres, continuadoras, assim, da tradição de uma das pioneiras criadoras do próprio estilo, a maestrina Chiquinha Gonzaga)..." (J. R. Tinhorão - contracapa do LP A Benção Tia Amélia - 1980).
[ # ] De clássicos compositores como Trenet, Brel, Aznavour, passando pelos ecléticos Moustaki e Gainsbourg, pelo deliciosamente brega Bachelet, pela pop Hardy ou até o dançante Desireless (Rivet), para chegar em Bruni, o bom gosto e a fina melodia, acrescidos do clima mágico, dos arranjos (imbatíveis), dão unidade à canção francesa. Bruni herda, também, a impressionante musicalidade interpretativa das cantoras "sem voz" francesas, como Juliette Gréco (junto com Orlando Silva e mais alguns poucos, a maior intérprete do mundo!!! - para este blogueiro, claro...).
Hermínio Bello de Carvalho, disponibiliza seu maravilhoso arquivo no sítio http://www.acervohbc.com.br. Por exemplo, se alguém quiser ouvir interpretações inéditas de Jacob do Bandolim, basta "clicar" em Músicas [player], ao lado esquerdo da tela, e, na página seguinte, digitar Jacob do Bandolim. Entre várias pepitas na relação de itens que se abre, encontramos um Ingênuo em arranjo semelhante à clássica gravação contida no LP Vibrações, que nada fica a dever à gravação original, ou um soberbo Sofres Porque Queres (escondido no item Solo de Jacob). Se a sonoridade destas gravações não é tão boa, em compensação, escuta-se perfeitamente todos os instrumentos (ao contrário de grande parte das gravações oficiais de Jacob).
MAIS BLOGS DE CHORO NO AR:
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Love to introduce you to the Choro Music Blog ( http://choro-music.blogspot.com ) which wants to share our passion and fascinating for Choro music with others giving information about its composers, musicians, recordings and festivals. Hope you like it.
Keep swinging
Hans Koert - Jo Larsen
editors
O PRIMEIRO SÍTIO SOBRE BANDOLIM NO BRASIL, AGORA RENOVADO:
http://www.bandolim.net/
NO ANO DA FRANÇA NO BRASIL, OUTRO SÍTIO RENOVADO:
http://bando.do.chorao.free.fr/
MPB INSTRUMENTAL:
http://musicosdobrasil.com.br/musicos.jsf
BLOG DE PESQUISA DE INTÉRPRETES DO RÁDIO:
http://thmatarazzo.bloguepessoal.com/

Músicos de primeira, arranjos simples, transparentes, porém sérios e caprichados, na medida certa para a observação de cada instrumento: como é a “batida” do cavaquinho, como dialogam os violões de 7 e de 6 cordas, como é o toque sutil da percussão. Só esta exposição das entranhas do conjunto de choro já justificaria o projeto. Mas ainda podemos tocar junto, acessando a gravação onde não conste seu intrumento, solista ou acompanhante de cordas: http://www.choromusic.com.br/
OBS.: As gravações dedicadas à obra de Ernesto Nazareth dão um bom debate. Como parece claro nas polcas e nas valsas, o piano de Nazareth é facilmente adaptável ao regional. O enrosco começa com os tangos pois a melodia, que geralmente está na mão direita pianística de Nazareth, sempre vem acompanhada de notas do acorde, o que dá um brilho impossível de ser tranferido para instrumento de sopro, bandolim ou cavaquinho.
Outro desafio que Nazareth traz aos solistas de regional (aí incluídas as valsas, polcas, tangos, etc.) é de como contornar o problema dos “cortes” na melodia, uma vez que o número de oitavas do piano é maior do que em qualquer outro instrumento. Se o ouvinte observar, verá que muitas vezes o solista de regional termina as últimas notas de uma frase ascendente (que no piano segue naturalmente até o fim) fazendo um corte e se socorrendo na oitava abaixo para terminá-la. O caminho é botar a imaginação para funcionar para impedir este ante-clímax. Às vezes a solução funciona magníficamente (*), outras nem tanto.
(*) Ver O NAZARETH DE BRUNO KIEFER em http://blogdochoro.zip.net/
Através de contato telefônico com Osvaldo Colagrande, pudemos falar um pouco sobre seu cd com o Conjunto 1 x 0, e, também, a respeito de Esmeraldino Salles, este compositor imenso do choro brasileiro.
Dois detalhes marcaram o agradável colóquio: o primeiro foi a surpresa demonstrada por Colagrande ao lhe ser revelado tamanho entusiasmo pelo cd. Grandes artistas muitas vezes não se dão conta de seu próprio valor. Um punhado de choros inéditos de Esmeraldino Salles e Osvaldo Colagrande é coisa a ser comemorada. E, de quebra, um conjunto a interpretá-los de um bom gosto exemplar. Como resistir?
O outro detalhe foi sua definição para estes choros: melódicos. Sim, tão simples! Ocorre que melodias deste quilate não se encontram tão facilmente. É curioso o estilo do choro paulista: seu balanço peculiar e sua modernidade não conseguem disfarçar o romantismo da linha melódica entranhado no rítmo e nas dissonâncias, resultando em algo tão original e belo.
Conjunto Um x Zero
O sítio jacobdobandolim.com.br disponibiliza o único registro de Jacob do Bandolim em movimento, ao mesmo tempo em que oferece uma recompensa de R$ 2.000,00 por outro vídeo seu que porventura exista.
Vamos refletir um pouco: um dos maiores intérpretes e improvisadores brasileiros não inspirou a ninguém filmá-lo tocando. E não fosse o providencial e simplório gravador de Hermínio Bello de Carvalho a registrar um sarau de Jacob (que deu origem a um extraordinário LP) nem um áudio a contento de suas improvisações sobreviveria.
E Pixinguinha? Há somente dois discos dele improvisando à flauta em faixas exclusivamente instrumentais, as duas versões de Urubu. Segundo Radamés Gnattali, talvez o lado mais gigantesco de Pixinguinha e o que mais o influenciou, o flautista improvisador. Bem, qualquer um de nós mortais chegaria a mesma conclusão ao ouvir esses dois registros. Contudo, nem uma gravação a mais com o Pixinga “à vontade” existe.
Há também o caso de Garoto, que gravou muito pouco ao violão, até que gravações caseiras de Ronoel Simões tiraram qualquer dúvida sobre sua técnica exuberante e nos mostrou como sua interpetação era romântica!
Exemplos sintomáticos.
“Trazendo em seu grupo o guitarrista africano Lionel Loueke, uma das revelações do jazz desta década, (Herbie) Hancock segue a lição aprendida com seu grande mentor, o trompetista Miles Davis (1926-1991). Ao incentivar os músicos jovens, semeia-se a música do futuro.”
(CARLOS CALADO, Folha de São Paulo, quarta-feira, 28 de maio de 2008).
“De
(DA REDAÇÃO, Folha de São Paulo, 03 de agosto de 2008).
Isto não lembra Radamés Gnattali aos 73 anos e sua relação com a jovem Camerata Carioca?
O arranjo reduzido que Radamés Gnattali fez em 1979 para a Camerata Carioca de sua Suíte Retratos, a pedido de Joel Nascimento, acabou sendo mais revolucionário ainda do que a primeira versão do concerto escrita especialmente para Jacob do Bandolim em 1964 (com Orquestra de Cordas + Conjunto Regional). Tornou-se mais transparente e mais original. Ademais, cada músico do grupo obteve, para suprir as partes da orquestra, funções inéditas até então.
“O ecletismo de Radamés pode incomodar a um purista. Mas quem não tiver preconceitos, e tiver os ouvidos abertos, descobrirá facilmente um fabuloso artesão, um grande inventor de melodias, um eterno experimentador que fascina a junventude com a sua própria juventude de espírito.”
(LUIZ PAULO HORTA, citado na biografia Radamés Gnattali, o eterno experimentador, de Valdinha Barbosa & Anne Marie Devos).
Isto não lembra Miles Davis e seu jovem Quinteto em 1963?
Duas revoluções. Em ambas, a mescla da experiência com a juventude.
Valdir em foto recente.
No precioso sítio www.dicionariompb.com.br, há um pequeno equívoco quando diz: Valdir Sete Cordas (Valdir de Paula e Silva) "fundou em 1977 o grupo de choro Chapéu de Palha, no qual atuava como cavaquinista". Na verdade, por esta época, ele já era um mestre do violão de 7 cordas. Talvez a confusão se dê porque Valdir atuou pouco como violonista, iniciando sua carreira como cavaquinista, empunhando o violão de 7 cordas nos anos 70, quando um acidente sofrido em 1982 obrigou-o a assumir de volta o cavaquinho, mantendo-se assim até os dias de hoje. Poucos anos de "baixaria", mas que legado ele nos deixou!
Como Valdir não é afeito à internet, Ana, sua esposa, fã e a primeira em defesa do gênio artístico de seu marido, nos passou importantes informações (ver post abaixo).
Valdir teve a Tute e Dino como referências, mas não demorou a criar seu próprio estilo: “pegada” forte, sonoridade “metálica”, especial habilidade na utilização dos “ligados”, cuidado em não repetir a mesma “baixaria” em uma mesma música (*), frases extemporêneas (**). Com um pouco de atenção, o ouvinte também notará outra característica: o complemento para uma “baixaria” principal, isto é, quando você pensa que aquela intervenção acabou, enganou-se, o melhor estava por vir (***), lembrando Pixinguinha no sax ou Dino 7 cordas, mas com estilo único.
(*) Acariciando (L. Faissal/A. Ferreira) com Ademilde Fonseca (1977) – a cada reinício do choro, uma baixaria diferente, uma mais linda que a outra... (disponibilizado em http://loronix.blogspot.com/2008/03/ademilde-fonseca-rainha-ademilde-e-seus.html );
(**) Crueldade (Carlos Cachaça) Carlos Cachaça (1976) – aos 26 segundos: a vivência não disfarçada no rock & roll (disponibilizado em http://pratoefaca.blogspot.com/2008/04/carlos-cachaa-1976.html );
(***) Amor de Carnaval (Carlos Cachaça) com Carlos Cachaça (1976) – reparar na baixaria ascendente aos exatos 3 minutos e o arpejo descendente em seguida (disponibilizado em http://pratoefaca.blogspot.com/2008/04/carlos-cachaa-1976.html ).
Foto de Valdir na época em que começou tocar cavaquinho no regional de Niquinho: ele está à esquerda, ao lado do Niquinho (Valter, seu irmão gêmeo, à direita).
- Com 8 anos de idade Valdir já tocava cavaquinho, tendo seu pai como professor.
- Começou a atuar profissionalmente em 1960, tocando cavaquinho no regional de Niquinho.
- Passou a tocar o violão de 6 cordas na época em que trabalhou em casas noturnas como o "Zicartola", onde formou com Valter (violão de 7 cordas), a "Dupla do Barulho".
- Em 1964, quando surgiu a onda da Jovem Guarda, Valdir se adaptou ao novo ritmo, sendo mais tarde convidado a participar do conjunto "The Pop´s", onde se destacou como guitarrista solo.
- Passada a onda da Jovem Guarda, Valdir foi trabalhar no "Conjunto de Agostinho Silva" fazendo bailes. Agostinho Silva foi quem o introduziu nos estúdios de gravação. Pois foi em uma gravação de última hora, que Agostinho, não conseguindo nenhum violonista de 7 cordas, ligou para Valdir. A princípio, com medo de não conseguir, Valdir vacilou, mas acabou aceitando o desafio, adaptando-se rapidamente.
- Daí em diante, embora tenha tocado com Altamiro Carrilho, Abel Ferreira, e participado de algumas gravações de vulto, ele só começou a ser realmente conhecido com o sucesso do disco "Molejo" de Roberto Ribeiro, onde se ouve com clareza seus "bordados" no violão de 7 cordas. Roberto, então, passou a exigir o violão de Valdir em suas gravações, não demorando a ser requisitado, também, para as gravações de Martinho da Vila, Nelson Gonçalves, Gonzaguinha, Cartola, Carlos Cachaça, Clementina de Jesus, Clara Nunes, conjunto Nosso Samba, Ataulfo Alves Jr., etc.
- Em 1977, Valdir formou seu prórpio conjunto de choro, o "Grupo Chapéu de Palha", batizado por Herminio Belo de Carvalho, com Zé da Velha - trombone, Josias - flauta, Jairo - violão de 6 cordas, Toco Preto - cavaquinho, Parada (ex-The Pop´s) - surdo, Rubens (falecido - piston e Jayme (falecido - pandeiro).
Ana Maria e Silva, sua mulher, ainda esclarece: “Em 1982 quando Valdir se acidentou, fizemos um show para arrecadar fundos para que ele que fosse operado; ele precisava fazer uma microcirurgia no braço acidentado para recuperar o movimento da mão, ou parte desse movimento, pois ele ficara paralítico no acidente (houve rompimento de 10 ligamentos nervosos e alguns de suma importância). Convidamos artistas com os quais ele havia gravado e partimos para a realização do show. Bem, este show foi bolado por um amigo nosso, Bira da Portela, e apresentado na quadra da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, com a participação de Martinho da Vila, Beth Carvalho, Gonzaguinha, Luiz Airão, Golden Boys, Anália (esposa na época do Martinho), Altamiro Carrilho, Raul de Barros, Roberto Ribeiro, Trio Nordestino (Valdir participou de várias gravações deste Trio), conjunto Nosso Samba, As Gatas, Jorginho Teles e muitos outros nomes que agora me fogem da memória.”
LP Grupo “Chapéu de Palha” (1977)
1 Flor Amorosa (Callado)
2 Ingênuo (Pixinguinha)
3 Favela (R. Martins – W. Silva)
4 Maneiroso (Geraldo Barbosa)
5 Chorinho Apaixonado (Neuza Paula)
6 Matuto (Nazareth)
7 Tema Chapéu de Palha (Toco Preto)
8 Sofres porque queres (Pixinguinha)
9 Gingandinho (Toco Preto - Valdir)
10 Espinha de Bagre (Humberto Rubin)
11 Peça Bis (Toco Preto - Valdir)
12 Proezas de Solon (Pixinguinha)
Zé da Velha: trombone,
Josias: flauta,
Rubens: piston,
Valdir: violão 7 cordas,
Jairo: violão 6 cordas,
Toco Preto: cavaquinho,
Parada: surdo,
Jayme: pandeiro.
http://rapidshare.com/files/124273057/Grupo_CHAP_U_DE_PALHA__LP-1977_.rar.html
Quando Raphael Rabello assombrou com ousadas baixarias no revolucionário disco de Paulo Moura, Mistura e Manda (1983), uma das mais ambicosas faixas, Ternura, de K-ximbinho, trazia um violão tão solto nos devaneios do baixo cantante, que por vezes tinhamos dificuldade em nortear o tempo, como se o chão fugisse aos nossos pés a cada improvisação. Todavia, este novo enfoque do 7 cordas tinha precedente.
Poucos anos antes, Valdir Silva, ao substituir Dino no Regional do Canhoto, para a gravação do antológico primeiro disco de Carlos Cachaça, de 1976, apresentava na faixa Amor de Carnaval, uma visão semelhante a de Raphel. Pela primeira vez, realmente (*), se ouviam baixarias descoladas do formato tradicional. Sem a preocupação de praxe com os acordes, era praticamente nos baixos que se apoiava o canto de Carlos Cachaça.
Cds recentes, de 2006, destacando os violões 7 cordas de Luizinho (Remexendo com Euclides Marques) - e Carlinhos (O Violão e o Samba com Cláudio Jorge e Dorina), jóias preciosas na arte do instrumento, têm o mesmo modelo desenvolvido por Valdir e Raphael, com a agradável diferença de podermos degustar um bom punhado de faixas, variadas nos andamentos e rítmos, em verdadeira luxúria de frases originais, bem sacadas, meticulosamente engendradas, sem outros instrumentos a interferir ou encobrir alguma das inúmeras boas idéias.
O uso da velha e boa dedeira com forte “ataque”, dá uma dimensão diferente dos violões 7 cordas “camerísticos” comumente usados hoje: se estes últimos privilegiam o violão como um todo (baixo e harmonia), os primeiros têm nas baixarias verdadeiros guias harmônicos, como Bach fazia nas suítes para violoncelo e violino desacompanhados, cabendo aos acordes o complemento. Este estilo propicia também, e é aí que a coisa pega, improvisos longos, com frases que parecem não ter fim, costurando compassos, pairando sobre modulações.
Poder ouvir dois cds que têm como atração principal o individualismo sadio de dois craques absolutos do 7 cordas é uma felicidade.
(*) Com tantos discos antigos disponibilizados atualmente em incontáveis blogs, mostrando quão mais rico é o mosaico sonoro da música brasileira do que se supunha, não é muito difícil sermos desmentidos em pouco tempo por qualquer afirmação de ineditismo que venhamos a fazer. Qualquer ajuda será bem vinda.
A iniciativa conjunta de Alexandre Dias, Zé Carlos Cipriano e o site Sovaco de Cobra em disponibilizar peças raras e até inéditas de Ernesto Nazareth, comemora seu primeiro aniversário: http://sovacodecobra.ig.com.br/2008/03/serie-raras-de-ernesto-nazareth-completa-um-ano-de-existencia/
Se as composições de Jacob do Bandolim recentemente recuperadas por Déo Rian (ver logo abaixo), embora belas, não têm o mesmo nível impressionante de seus choros mais conhecidos, Nazareth, ao contrário, era inesgotável. As surpresas se sucedem e, após a audição, fica-se com a sensação de que estas peças foram pouco gravadas ao longo da história por puro acaso, e não por serem menos significativas.
Obs.: Alexandre utiliza seu piano digital Kurzweil Mark 10 para as gravações, cuja qualidade sonora tem sido elogiada.
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Atualização:
Todas as 238 partituras do compositor estão agora disponíveis, em formato PDF e gratuitas, no site http://www.ernestonazareth.com.br/
05/10/2009
Belíssimo e imperdível o artigo sobre Pixinguinha do crítico de música erudita do jornal O Estado de São Paulo, publicado hoje:
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080330/not_imp148115,0.php
Embora a primeira reação seja rechaçar colocações como esta,
“Alguém já disse que o choro é o jazz que não deu certo. Não dá para comparar a trajetória de um gênero nascido num país subdesenvolvido e periférico, como o Brasil, com a do jazz, que teve o suporte de uma difusão maciça por um país hegemônico durante praticamente todo o século
porque, afinal de contas - quem disse que o choro não deu certo?!? - não deixa de ser instigante imaginar se o choro estaria disseminado pelo mundo, se nascido nos EUA (assim como o jazz, se nascido no Brasil, estaria praticamente restrito às nossas fronteiras).
Curioso também neste artigo, são as antecipações de Pixinguinha relativamente a algumas inovações jazísticas, como no caso das improvisações e composições de Louis Armstrong e Duke Ellington, respectivamente. Ou nos contrapontos do saxofone barítono de Gerry Mulligan para Chet Baker (trompete), formato criado pouco antes pela dupla Pixinguinha-Benedito Lacerda.
Não se trata aqui de exaltação nacionalista (o crítico é amante do jazz), mas não há dúvida de que, se invertidos os papéis, não faltaria quem dissesse que os brasileiros em todos esses casos foram influenciados. Não fosse assim, Villa-Lobos não se preocuparia em frisar sempre que, no aspecto improviso, o choro se anteciparia ao jazz (Homero Homem - O Estado de São Paulo - 19/08/1984).
Ouvir choro da forma como o SESC nos tem proporcionado (*) é um regalo para ouvidos e corações; solistas, violões, cavaquinho, pandeiro, seus timbres intactos, magnificamente bem regulados, teatro com acústica perfeita. E, desta vez, para comemorar os 90 anos do nascimento de Jacob do Bandolim, um repertório exclusivo de músicas suas, sob os cuidados de chorões de primeira linha. O que pode mais desejar a platéia?
Grandes solistas de bandolim se revesaram, mas aqui quer-se prestar uma homenagem a esse extraordináruio conjunto de apoio: Israel de Almeida, Edmilson Capelupi, Haroldo Capelupi e José Reli. Não há grande novidade enaltecer seus méritos, pois são músicos consagrados. Todavia, a necessidade de um reforço nesse sentido se dá pelo fato de se posicionaram atrás do solista, em posição secundária, o que parece um erro conceitual. A começar pelo termo aqui empregado erroneamente conjunto de apoio: se o ouvinte ficar bem atento, notará que o choro, sublime como conhecemos, só se realiza plenamente quando há a interferência do acompanhamento. Dirá alguém que isto não ocorre apenas no choro. Sem dúvida, mas, ao contrário de outros gêneros, se isto não ocorrer no choro, ele deixa de existir! (**)
(*) JACOB DO BANDOLIM - 90 ANOS
O projeto presta homenagem ao instrumentista e compositor.
Apresentação e roteiro: Sérgio Prata. Teatro Paulo Autran.
Dias 23, 24 e 25/02/2008 - SESC Pinheiros - SP
(**) Benny Green, na contra-capa do disco Dizzy's Big 4, conta que, ao surgir o Bebop, curioso que estava em conhecer o novo estilo, pô-se a tocar um tema de Dizzy Gillespie: "a peça intitulava-se Bebop e foi uma fonte de considerável desapontamento para mim. Esperava que me revelasse os segredos do novo jazz, porém revelou-me absolutamente nada". Até que mais tarde, ouvindo-o em altíssima velocidade, percebeu algo diferente e que jamais ouvira. E compreendeu que o Bebop, na concepção de algumas composições de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, só fazia sentido tocado velozmente. A analogia aqui, meio forçada como quase sempre, vem para ressaltar que, tocado ao piano, por exemplo, um choro costuma perder sua força (evidentemente, não os de Nazareth, mas os de Candinho, Pixinguinha, Luiz Americano, Jacob, etc...).
Haroldo Capelupi no cavaquinho e José Reli no pandeiro são mestres dos detalhes, das filigranas; o choro parece desconstruir-se em suas mãos, em partes muito pequenas, como se conhecessem cada um de seus átomos. Observá-los durante 1 hora e meia é uma aula para nunca mais ser esquecida; embora o acompanhamento seja consciente e disciplinado, não existem normas rígidas. Por exemplo, na palhetada de Haroldo, cada compasso pede um modelo. Mas para isso é preciso “entrar” nas profundesas do choro, vivenciá-lo a cada segundo.
A ordem de entrada dos solistas foi curiosa: Ronen Altman, Aleh Ferreira, Hamilton de Holanda, Déo Rian e Izaías Bueno de Almeida. Colocar Hamilton de Holanda no meio foi no mínimo temerário, pois sua técnica prodigiosa poderia criar uma espécie de anti-clímax, fosse qual fosse o próximo solista. Em sua apresentação, de fato, o público ficou extremamente excitado, mas os ânimos se acalmaram e pode-se perceber com a entrada de Déo Rian que as pessoas que lá estavam eram afeitas ao chorinho e sabiam perfeitamente que o momento agora era outro, que era preciso escutar o choro de outra maneira, um “sentir” diferente. Independentemente das preferências pessoais, ver essas duas gerações foi uma experiência interessante.
Izaías recebeu, entre outras homenagens, o bandolim de Jacob pelas mãos da própria filha do mestre, Elena Freitas Bittencourt, para fazer os último números. Foi muito emocionante, de lavar a alma, ver Izaías reconhecido como grande mestre por um teatro entupido de gente. O silêncio fêz-se e ele tocou “De Coração a Coração”, obra-prima de Jacob, gravado, salvo engano, pela primeira vez pelo próprio Izaias em 1977 (LP O Fino da Música).

Para um segundo disco de “sobras” de Jacob Bittencourt, o nível das composições deste aqui também não desapontará o ouvinte. Mas a surpresa maior fica por conta da interpretação do conjunto Noites Cariocas, sobretudo porque a missão de manter a qualidade do trio de violões do disco de 1980 (Raphael / Damásio / Manoel) era tarefa quase impossível.
Talvez o estilo empregado pelos violões de André Bellieny (7 cordas) e Márcio Almeida (6 cordas) esteja mais próximo do conjunto Época de Ouro do que propriamente do primeiro conjunto Noites Cariocas, mas o importante é observar que um conjunto como este (tal como o de Isaías e seus chorões) tem uma dinâmica muito raramente encontrada em música popular. É como se respirassem a música e não a tocassem apenas. Sem querer forçar uma imagem metafórica, mas realmente sentimos como se o tempo das batidas do coração tomassem o lugar do rítmo frio e estático. Se usássemos os termos empregados por Darius Milhaud para definir o rítmo da música brasileira e de Ernesto Nazareth, diríamos que este conjunto toca com “suspensão imperceptível”, “respiração nonchalante”, “toque fluido, impalpável”.
A simplicidade cristalina de Déo Rian possibilita esse destaque do grupo. Déo Rian é o tipo de artista que trás junto com ele toda uma gama de valores, de conquistas sedimentadas pelo choro ao longo dos anos, mais do que para o bandolim simplesmente, resultando na excelência da interpretação.
Obs.: Preço: R$ 22,80 + envio
http://www.robdigital.com.br/site_2005/mais_informacoes.asp?codigo_produto=598
“... para Villa, não se tratava apenas de promover o “retorno a Bach”, e sim de estabelecer uma conversa entre as suas grandes matrizes musicais: a música de Bach e a dos “chorões”.
“... quem se colocar (...) diante da emocionante tapeçaria das Bachianas não pode deixar de ficar surpreso com certos paralelismos. Entre “chorões” e barrocos há o parentesco da juventude de idéias e da improvisação. O firme desenho melódico, “ornamental”, da música barroca é algo pouco encontrado nas partituras características do classicismo (Mozart, Haydn, Beethoven). Estas são intrinsecamentes dramáticas, enquanto no choro, como no barroco, o colorido melódico tem maior condição de expandir-se.”
“Outra aproximação é o tom de conversa que leva expontaneamente ao contraponto”.
“Ainda outra, a invenção melódica que gosta de partir de um rítmo forte e regular – como o dos chorinhos, ou o das gigas. O gosto da invenção, num e noutro caso, dispensa o romantismo ou o sentimentalismo: quando a invenção é suficientemente feliz, a música parece tocar-se por si mesma. É o famoso efeito da “máquina de costura” que pode ser sentido tanto em Bach quanto na melhor música dos chorões.
Algumas colocações de Luiz Paulo Horta dão margem a dúvidas: o que seria juventude de idéias? E a frase (no choro e no barroco) o colorido melódico tem maior condição de expandir-se, o que quereria ele dizer? E esta: O gosto da invenção (no choro e no barroco) dispensa o romantismo ou o sentimentalismo ?
Obs.: Especificamente sobre a conexão espiritual existente entre Bach e Villa-Lobos (das Bachianas), o autor ainda cita três trilhas sugeridas por Adhemar Nóbrega:
1) O contraponto (escrita “horizontal”, em oposição à escrita “vertical” apoiada em acordes);
2) O estilo imitativo, em oposição ao desenvolvimento dramático da forma sonata (...);
3) sob um aspecto mais íntimo, o caráter extático de certas melodias villalobianas, como a abertura da Bachianas nº
Acaba de entrar no ar mais uma página com o espírito da internet: o da generosidade. Propondo um amplo debate sobre um instrumento que não cessa de se renovar, o blog www.conversadebandolim.blogspot.com distribui conhecimentos de harmonia e traz dicas importantes para o instrumentista. Tudo gratuitamente, por puro despreendimento. A não perder.
1972: que sucesso fez “Capim Gordura”! O delicioso solo de piano era marcante. Não tinha nada demais, a musicalidade ressaltando a bela melodia e o rítmo peculiar, eram o que pegava.
Oito anos mais tarde Laércio de Freitas lançava um punhado de choros inéditos (LP “São Paulo no Balanço do Choro” - 1980) moderníssimos e ao mesmo tempo intimamente ligados à forma, aos contornos melódicos do choro secular. Na excelente contra-capa, assinada por Luiz Nassif, soubemos como Laércio de Freitas foi influenciado por Esmeraldino Salles e seu conjunto, desde a primeira vez que os viu tocar nos anos 1950: Laércio recorda-se como sendo (um conjunto de) uma extraordinária pulsação. (*)
Bem, mas isto somado à sua sólida formação clássica, não explica uma de suas características mais originais enquanto pianista: sua mão esquerda. E o mesmo texto esclarece: As exigências musicais de seu primeiro público fizeram-no praticar o boogie woogie. Sim, este parece ser o ingrediente que faltava para decifrar a originalidade de seu toque (atenção para o dinamismo, a fluidez do piano acompanhante neste disco de Jacob).
(*) O Rio não fazia o que eles (Esmeraldino e Cia) já estavam fazendo em SP, que era o choro com duas partes, quando no Rio eram três. Eu ouvi os do Rio, os de S. Paulo e deduzi dos dois. (Laércio de Freitas em http://www.maritaca.art.br/news/jbonline_071102.html)
A virtude que mais salta aos olhos neste cd imprescindível, não é muito comum. Pode parecer estranho, mas é raro ouvirmos um trabalho onde o melhor de cada músico é explorado até o talo.
Alessandro Penezzi, virtuose incontestável, joga em várias posições, tal como Raphael Rabello e Yamandú Costa, porém, em algo ele parece se superar: sua capacidade infinita de improvisar com originalidade. Olhe que não é brincadeira não se repetir nem cansar o ouvinte em mais de 1 hora de música. E mais: suas frases não são simples, há um certo intrincamento barroco sempre presente, próximo ao melhor fraseado dos chorões artesãos, solucionados sempre com precisão.
Já Laércio de Freitas exibe toda a riqueza de sua fina harmonização, de seus improvisos sabiamente dissonantes, e, claro, de seu já citado acompanhamento ímpar. Os choros de Jacob do Bandolim ganharam amplitude sem desvirtuamento.
Desta vez, o mestre Laércio de Freitas deixou guardado seu lado de compositor, mas que falta faz um novo trabalho seu!
(1972) (1980)
(2007)
Berço de grandes estilistas do violão, como Canhoto, Dilermando Reis, Laurindo Almeida, Garoto e Armandinho, São Paulo também gerou Rogério Guimarães. Seu estilo “sentido” de ferir as cordas, era fruto de uma época de romantismo quase doentio, e assim, cantores de cunho extraordináriamente fatalistas, como Floriano Belham, tinham nele o acompanhamento ideal. Em uma das mais requintadas composição de Cândido das Neves, a dupla chegou ao extase: Cinzas de amor (1930).
Tocar simultaneamente a tônica grave e sua respectiva terça num registro mais agudo (dando a exata sensação de pranto) era uma das marcas registradas de Rogério Guimarães, e pode ser observada nesta gravação. Mas o abandono da harmonia para seu solo visceral no exato momento
Obs. 1: note-se que em Cinzas de amor, outro violão acompanhante é usado apenas na introdução;
Texto do escritor e chorão João Antonio (1937-1996), publicado no Jornal O Estado de São Paulo, por ocasião do concerto realizado em 1982, no Alice Tully Hall, Lincoln Center, Nova Iorque, por Arthur Moreira Lima, Joel Nascimento, Raphael Rabello, e grupo.
Por diversas vezes a idéia de que o choro estava em baixa é percebida. E chama a atenção para os anônimos da resistência. O grande escritor certamente ficaria feliz com o panorama atual do choro, o barateamento da tecnologia e da produção possibilitando tantos lançamentos de bom nível e sua consequente independência das gravadoras tradicionais.
(...) "A alma longa dos choros ressuscitará como a tiririca. Pode o estabelecimento arrancá-lo do mundo do disco, tirá-lo das rádios, bani-lo das gravadoras, expatriá-lo dentro de seu próprio país. Ele continuará, mesmo perseguido. Desce aos subúrbios e aos cantos mais esquecidos dos arrebaldes, encafua-se, esconde-se e as novas gerações o acham para que ele suplante todas as ondas contrárias e colonizadoras: bate o merengue e cha-cha-cha, dribla de corpo swings, rocks, mambos e souls. Ele sabe que tudo é miudeza e frouxidão passageiras, fogo de palha, modismos, landuas. Amoitado, ressurge sempre, refortificado e repinicado nas suas cordas e sopros, brigando nas derrubadas, quilombado e firme feito cobra criada."
Nelson Motta
Na era digital, as transferências de arquivos têm sido o (...) paraíso para os livros. Meus editores vão ficar de cabelos em pé, mas, por mim, colocava o texto completo de meu novo livro na internet, um mês depois do lançamento, sem medo de ser feliz.
(Paulo Coelho) me disse que (...) adoraria se um hacker colocasse (seu novo livro) na internet: isso só beneficiaria a promoção e as vendas do seu livro. Não é preciso ser mago ou profeta para chegar a essa conclusão, basta ser craque em marketing. (...) Os avarentos vocacionais (...) que poderiam comprar o livro, mas preferem ler de graça, teriam castigo cruel: ler 400 páginas em uma telinha, ou pior, imprimir o tijolaço pode levar horas e custar até mais, em tempo e material, do que o livro. Sem capa, sem fotos, só o texto cru.
Mas, para quem quer muito ler o livro e não tem R$ 40 para pagar por ele, como a grande maioria dos brasileiros, seus problemas acabaram: não dá para levar para a cama ou para a poltrona, mas ler na tela do computador é melhor do que não ler nada. (...) Mais do que vender livros, a maior alegria do escritor é ser lido. (Folha de São Paulo, 16/11/2007).
“O movimento final de seu prematuro quarteto
“... se podem achar exemplos similares nos últimos anos da curta vida de Schubert tomados de suas numerosas reminiscências dos opus 28 e 31 de Beethoven em suas últimas três sonatas para piano.”
Ao que Rosen interpreta:
“Alguns dos materiais adotados são transformados
“... uma espécie de recordação involuntária, um estímulo exterior à sua imaginação criadora...”
Sobre Beethoven, Rosen continua:
“Beethoven adaptou suas fontes (geralmente mozartianas) a um objetivo mais dramático: realçou seu efeito. As fez mais poderosas e aumentou sua envergadura.”
“... o concerto para piano nº 4
Tal como fez Bach ou Milhaud (ver logo abaixo: Milhaud e a Pirataria do Bem);
Callado (ver “Semelhanças” em www.blogdochoro.zip.net);
Jacob do Bandolim (ver http://urarianoms.blog.uol.com.br/arch2007-07-08_2007-07-14.html);
Pixinguinha:
Tiririca (Albertino Pimentel) =
Descendo a Serra (Pixinguinha/Benedito Lacerda);
João Bosco:
Juventude Transviada (Luiz Melodia) =
Casa de caboclo (Hekel Tavares, Luiz Peixoto);
Caetano Veloso
Ai Mouraria (Amadeu do Vale, Frederico Valério) =
Os Argonautas (Caetano Veloso);
Milton Nascimento
Mãe Preta (Piratini, Caco Velho) =
Saudade dos aviões da Panair (Milton Nascimento - Fernando Brant)
Tom Jobim
Céu e mar (Johnny Alf) =
Samba de uma nota só (Tom Jobim - Newton Mendonça)
Em elaboração:
Beto Guedes
etc...
Outros modelos:
Sentado à beira do caminho (Roberto e Erasmo Carlos)
“A gente a fez por influência da harmonia de Honey, de Bobby Goldsboro, que também é um maná pra gente até hoje. Se você pega essa harmonia, sai uma música logo, logo“.
Prelúdio nº 4, opus 28 (Chopin) =
Insensatez (Tom Jobim – Vinicius de Moraes)
Stairway to heaven (Jimmi Page – Robert Plant) =
Taurus (Randy California), do primeiro álbum do Spirit.
(*) Ainda sobre Roberto e Erasmo Carlos, são preciosas as informações encaminhadas por Fernando Duarte:
“... um dos casos de plágio mais flagrantes, na minha opinião, é o de "Alô Benzinho" de Roberto e Erasmo Carlos, em cima de "Chantilly Lace" (de J. P. Richardson). Enquanto "Chantilly Lace" é de 1958, "Alô Benzinho" saiu no LP do Erasmo "Você me Acende", de 1966 - mp3 anexo com 30 seg de cada: http://www.badongo.com/file/7437349.
Outro caso interessante, em que quase se configurou um plágio, foi "Caminhoneiro", tido como da dupla Roberto / Erasmo. Na verdade se trata de uma versão de "Gentle On My Mind", gravada pelo Elvis Presley, como também pelo Frank Sinatra, Glen Campbell, Dean Martin, etc... - Atachado mp3 com uma amostra das gravações do Roberto e do Elvis: http://www.badongo.com/file/7437393.
Se repararmos no LP de Roberto Carlos de 1984, onde o sucesso foi lançado, na segunda capa há somente o título da versão (Caminhoneiro); e na capa interna onde está a letra e também no selo, há somente a citação dos nomes "Roberto Carlos / Erasmo Carlos". Ou seja, omitiram por completo que se tratava de uma versão.
No CD daquele LP (que saiu depois), na capa interna e no "selo" há referência apenas ao título da versão (Caminhoneiro); no encarte, onde está a letra, há somente a citação dos nomes "Roberto Carlos / Erasmo Carlos" e, até que enfim, na segunda capa, há a citação dos nomes "John Hartford - Roberto Carlos - Erasmo Carlos", sem nenhuma referência ao título do original. Até parece que devem ter sido pressionados por quem detém os direitos autorais, que pode não ter gostado do que aconteceu no LP.”
Em resposta a sua pergunta sobre o nome das pessoas que estão na foto da capa do Inéditos de Jacob do Bandolim Vol. I, informo:
Da esquerda para a direita em pé estão:
Bide (flautista da Velha Guarda que tocou com Pixinguinha);
Luna (pandeirista que tocou com Jacob na Rádio Mauá do Rio de Janeiro);
Milton (amigo de Jacob, foi quem me apresentou a Jacob);
Salvador Barraca (pandeirista da Velha Guarda);
Da esquerda para a direita, sentados estão:
Henrique Gato (cavaquinista da Velha Guarda);
César Faria (violonista que tocava com Jacob);
Jessé Silva (violonista que tocava e gravou com Jacob, fazia dupla com César);
Candinho Silva (Trombonista da Velha Guarda e da Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro);
Jacob do Bandolim.
Essa foto foi tirada em Jacarepaguá , RJ, na década de 50, na casa do Seresteiro da Velha Guarda Sr. Amorim, nosso amigo.
Um abraço
Déo Rian
A intenção desta postagem seria pura e simplesmente a descrição de cada um dos integrantes desta foto tão significativa, pelo bandolinista Déo Rian, que prontamente nos atendeu esclarecendo esta dúvida. Quis o destino estar César Faria empunhando seu violão ali. Obrigado por tudo, mestre...
Hélio
O violão sábio de César Faria:
Para quem quiser saber o que é um violão bem tocado, cheio de requinte harmônico e ao mesmo tempo interpretado com uma simplicidade encantadora, não deixar de ouvir Juro foi surpresa de Valzinho, com Cristina Buarque (LP “Arrebém” - 1979). Uma aula de acompanhamento.
A maior armadilha que existe para um intérprete é sucumbir à tentação de fazer algo que não está nele, no seu interior, na sua vivência: uma leitura “sensível” quando não é seu estilo, um improviso quando não é sua seara. Não é o caso aqui. Marcia Taborda, longe de qualquer afetação superficial, é uma intérprete de espontaneidade como há muito não se via. Afinidade natural com a obra de Paulinho da Viola, a violonista atinge sua música no âmago. Embora a técnica não seja das mais “limpas”, não está absolutamente aquém da dificuldade que a música oferece.
Paulinho da Viola é um compositor de dupla personalidade. Faz lembrar a tese de Hermann Hesse em “O Lobo da Estepe”, algo como, “um homem não é um só, são vários” (*). Não apenas pelo fato de compor e ser mestre em dois gêneros de música, o samba e choro, mas também porque em nada, em nenhuma frase sequer, um choro seu lembra um samba seu. São dois mundos delimitados para ele; impossível reconhecer qualquer interseção.
(*) John Kay, líder do conjunto de rock Steppenwolf, quando no Brasil, afirmou que a canção Born To Be Wild , de 1968, originalmente uma balada, fora artificialmente “turbinada” para a gravação, se tornando um formidável rock. Com o fim do grupo, em 1972, John Kay gravaria seu primeiro LP solo, um disco sereno, verdadeiramente iluminado, de grande beleza interior. Como podia o responsável pela transformação de uma singela canção em um dos maiores hinos do rock pesado mudar tanto?!? Os antigos fãs da banda estranharam; menos, talvez, aqueles que tivessem lido “O Lobo da Estepe” (“Der Steppenwolf”) e o relacionado ao nome do grupo: era apenas o lado selvagem do homem.
MARCIA TABORDA - Choros de Paulinho da Viola
“... grande harmonizador ... tinha como características marcantes: a criatividade e o bom gosto musical.” (Déo Rian no encarte do cd “Choro em Família” ).
Este blog conta, agora, com o apoio do retratista Marcus Cláudio: http://www.retratosaoleo.com.br/
Maestro JOHN NESCHLING
óleo sobre linho
70 x
2004
FLÁVIO MATARELLI
óleo sobre tela
100 x
1996
Ao lançar 2 cds com obras de João Pernambuco (1997/1999), Leandro Carvalho realizou um sonho antigo dos chorões, afinal, considerável parte de sua obra veio à tona pela primeira vez em um projeto digno do mestre. Se por um lado as peças instrumentais mais conhecidas foram baseadas nos arranjos que Turíbio Santos fez para os discos “Choros do Brasil” (1977) e “Valsas e Choros” (1979), há em compensação, interpretações soberbas (Pensando em Augustinha) ou “achados” geniais, como a concepção bem pessoal para o Choro nº 1, e sua feliz idéia em realçar a melodia com voz (Mônica Salmaso) e violoncelo (Nelson Campos). Não por acaso é justamente esta a faixa que mais chama a atenção de Ariano Suassuna em seu comentário no encarte do cd: os “novos horizontes” reconhecidos por ele no arranjo de Leandro Carvalho se aproximam muito daquele sentimento transcendente que nos passa a música sertaneja de Elomar, Xangai, Quinteto Armorial, etc., que mestre Ariano conhece tão profundamente.
(1997)
(1999)
Acaba de ser inaugurado, o www.joaopernambuco.com. Esta notícia tem bons motivos para comemoração: este blogueiro jamais viu em sua vida alguém tão apaixonado por João Pernambuco como seu mantenedor. Mas isto não bastaria para o site ser uma homenagem à altura de um dos maiores mestres do choro brasileiro, não fosse ele, o italiano Angelo Zaniol, um chorão de fina estirpe, um pesquisador incansável e um profundo conhecedor da alma de João. A um simples “clique” no Álbum de Fotografias, por exemplo, o visitante não encontrará apenas fotos recolhidas aqui e ali, mas uma exaustiva pesquisa pela sua autenticidade quanto às datas de seu registro. Ou se preferir baixar uma partitura, saberá que muitos anos foram gastos atrás das precárias fontes minimamente confiáveis, o que no caso de Pernambuco, infelizmente é quase uma norma. Por fim, se alguém quiser tocar alguns de seus arranjos e tiver alguma dúvida se o verdadeiro espírito de João Pernambuco está embutido neles, faça um teste: escute a versão de Noite de Ventura no arranjo de Leandro Carvalho (um pequeno deslize seu ao carregar no sentimentalismo e na lentidão do andamento) e a compare com a disponibilizada no site.
À medida em que nos aprofundamos na obra de Darius Milhaud, nos surpreendemos com uma nova obra alheia (leia-se choros, sambas, etc.) aproveitada pelo compositor francês sem a devida citação do verdadeiro autor. Bem menos conhecida do que Le boeuf sur le toit (1919), por exemplo, onde um chorão não terá muita dificuldade em reconhecer alguns dos temas utilizados, Le bal martiniquais, composta 25 anos mais tarde (1944), também bebe da mesma fonte: está lá o Pelo Telefone (Donga/Mauro de Almeida).
Houve época em que aquela idéia romântica da autoria e do rematando:uras sociais (...)or de "trsmo'uns artistas, desabafou: compositor iluminado, quase um semi-deus, não existia: “Pablo Casals irritado com o egocentrismo de muitos artistas, desabafou: ‘se pudessemos encontrar-nos hoje com Bach (...), ficaríamos espantados com sua falta de egocentrismo’ “. Certamente Bach devia saber do valor de suas obras, todavia não atribuia a si dotes sobrenaturais: “Bach não conheceu o culto burguês ao gênio” (Franz Rueb – 48 Variações sobre Bach).
Rueb continua: “Bach compôs uma catata por semana, o que significava que era preciso escrever também as partes das vozes e a dos músicos, tudo isso sem contar o tempo dedicado aos ensaios com o coro, solistas e músicos. Muitas vezes Bach só tinha o sábado à noite para ensaiar e a obra já tinha de ser apresentada no culto religioso do domingo. Na segunda-feira, Bach sentava-se novamente para escrever a cantata do domingo seguinte e assim sucessivamente (...)”.
Procedimento comum à época, não é de se estranhar que Bach utilizasse uma ou outra composição de seus ídolos, as rearranjasse e assinasse, sem indicá-las.
Ironicamente, a peça da qual tratamos aqui, o Pelo Telefone, deu o que falar justamente pela fluidez da autoria:
“De acordo (...) com grande parte dos (...) pesquisadores (...), o tema em voga teria sido desenvolvido como tantos outros na casa de Tia Ciata numa das frequentes rodas de samba presentes, além da dona da casa, seu genro Germano, Hilário Jovino e outros. (...) Donga lhe teria dado um desenvolvimento definitivo com uma letra fixada pelo jornalista Mauro de Almeida.” (Roberto Moura - Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro). Como sabemos, a música foi registrada em nome de Donga/Mauro de Almeida apenas.
“Sinhô, que não aparecera na co-autoria de Pelo Telefone, por ele arrolado como uma de suas produções, foi acusado de plagiário e aproveitador de trechos de outros compositores. Considerando-se vítma de um ludibrio ao ingressar no cenário musical do Rio, até parece que o sambista deliberara pagar a outros com a mesma moeda. Vingar-se do primeiro logro, logrando a terceiros. (...) Era corrente o conceito atribuído a Sinhô: “Samba é como passarinho, é de quem pegar”. (Edigar de Alencar – Nosso Sinhô do Samba). É preciso, para terminar, diferenciar a utilização de Pelo Telefone de outras composições similares de Milhaud. Se em Le boeuf sur le toit os temas são apresentados numa espécie de mosaico sonoro brasileiro (tal como no Choros nº 10 de Villa-Lobos que incluiu a chotis Yara de Anacleto de Medeiros), podendo dar a entender ser mais citação do que plágio, temos, por outro lado, em Le bal martiniquais, a famosa introdução do Pelo Telefone
em outro contexto: a peça se desenvolve a partir dela, fazendo-nos crer ser realmente uma composição de Milhaud.
“... apesar de ser um dos grandes compositores eruditos do Império, (Francisco Manuel da Silva) deixou sua contribuição para a Música Popular Brasileira compondo algumas modinhas, quadrilhas, valsas e lundus.” (Dicionário Cravo Albin - www.dicionariompb.com.br).
Já foi dito que o Hino Nacional é uma modinha, mas poucas vezes isso ficou tão evidente como na na abertura no Pan. Os contornos melódicos característicos da modinha (alguns modificados por Elza Soares) e o lento andamento imprimido, embora desvirtuassem a melodia original e o espírito de marcha, trouxe à tona sua verdadeira origem...
Olha menino. Prepara duas músicas para gravar depois do carnaval. (*)
Foi assim que Mr. Evans (diretor da RCA Victor) se dirigiu a Orlando Silva, quando da gravação de seu primeiro 78 rotações. Que bom seria se todo artista tivesse essa liberdade de escolha no tempo em que as grandes gravadoras reinavam. Pois naquela época era assim; gravava-se o que se tinha, a música puramente comercial ainda engatinhava. Isso explica a quantidade incrível de choros gravados pela Casa Edson alguns anos antes, para felicidade dos chorões: não havia outra opção.
Com seu aguçado bom gosto, Orlando Silva escolheu para gravar duas pérolas de Cândido das Neves e um acompanhamento de matar: Pereira Filho, Luiz Bittencourt (aos violões) e Luperce Miranda (ao bandolim). Rui Ribeiro nota a qualidade das cordas: “Principalmente em A Última Estrofe, existe a utilização de recursos invulgares, pelo sentido da idependência rítmica dos instrumentos. Dois violões (...) em riqueza de arpejos e um verdadeiro rendilhado sonoro, com laivos de improvisação, do bandolim de Luperce Miranda completando o contexto harmônico.” (**)
No www.ims.com.br, encontramos, além deste, outros acompanhamentos de Pereira Filho; seu estilo “dilacerante”, seu violão literalmente “chorado”, com a exata noção harmônica de como encaixar cada acorde, cada baixaria. Vale apena ouvir Lágrimas (o lado A de A Última Estrofe - 1935).
Imperdível, também, é a versão de Luiz Americano para Sonho (Dunga), uma das mais belas interpretações do saxofonista. Pereira Filho, aqui, usa o violão elétrico (1945).
J. L. Ferrete define seu estilo à perfeição: “... técnica espantosa e uma expressividade sem limites.” (Contra-capa do LP Grandes Instrumentistas da MPB – 1978).
* Jonas Vieira -Orlando Silva, o cantor das multidões);
** Rui Ribeiro - Orlando Silva - cantor número um das multidões.
Entre todas as analogias exdrúxulas, esta aqui, sem dúvida, concorre com boas chances de ser uma das maiores. Vá lá. O que há de comum entre os citados? O rítmo. Ou melhor explicando, a forma como o abordam. Em qualquer compêndio musical que trate da “Sagração da Primavera” de Stravinsky, se lerá: “uma obra-prima que inverteu muitas das, aparentemente, imutáveis prioridades da música. Pois, talvez pela primeira vez na história da música, a melodia foi reduzida a um papel menor. (...) Se a melodia é empurrada para o fundo, ao rítmo é dado o papel principal.” (Jonathan Adams – contra-capa, LP Bernard Haitink: Le Sacre du Printemps).
Acompanhar a história do Metallica é instrutivo. Vindo dos subterrâneos do “thrash metal”, um rock com rítmo alucinante, que tem como único objetivo levar o ouvinte à histeria e muitas vezes à surdez, o Metallica desde o início trabalhava muito bem o rítmo (bateria/guitarra base). Mesmo com a parte musical muito pobre, chegariam a criar alguns anos mais tarde, “One”, uma pequena jóia. No disco seguinte (o álbum negro), a musicalidade aflorou e suas composições passaram a ser assimiláveis, também, para o público afeito ao rock tradicional. O inusitado é que muita gente pensou estar ouvindo algo semelhante às bandas talentosas do passado, como Black Sabath, que criavam temas para guitarra muito bonitos e bastante semelhantes aos do novo Metallica. Seria um equívoco pensar assim, porque as bandas do chamado hard rock tinham na música, nas composições, o maior objetivo; nada, portanto, que chegasse perto do enfoque obsessivo pelo rítmo, razão de ser do Metallica. Pois bem, o álbum negro acabou sendo um testemunho vivo da evolução humana: roqueiros vindos da pior vertente do estilo criaram algo realmente artístico, combinaram de maneira original o rítmo entre os instrumentos.
"Trem das Onze é ótima para se cantar, o que ajuda a explicar por que virou uma obra-prima sem sê-lo. Adoniran é um compositor superestimado, estando no nível do segundo time dos sambistas cariocas.” (Luiz Fernando Vianna – Jornal Folha de São Paulo, 23/04/2007).
Há anos o gosto pela polêmica (muitas vezes gratuita) do jornal Folha de São Paulo pauta seus articulistas (ou são contratados justamente pelo estilo). As improvisações de Pixinguinha ao sax já foram “ingênuas”, a obra de Rita Lee insignificante, e recentemente a música latino-americana teve sua qualidade artística praticamente ridicularizada. À exceção deste último caso, a Folha possibilitou a réplica: no caso de Pixinguinha, o publicitário Carlito Maia escreveu uma pequena e bonita nota publicada no ”painel dos leitores”, Rita Lee teve o mesmo espaço para rebater e Adoniran Barbosa foi defendido pelo músico Livio Tragtenberg.
“Para o jornalista Marcelo Tas (...) aos olhos de hoje, todo o cenário da música engajada parece fazer parte de "um programa de humor". "Quem gostava desse tipo de música nos anos 70/80 era o pessoal de 'barba e bolsa', que já formava um estereótipo naquela época.”.
"A música brasileira de protesto sempre foi muito superior artisticamente do que a desses outros países. É por isso que a brasileira resistiu e a latino-americana parece hoje uma caricatura." (Fagner).
(Folha de São Paulo, 03/04/2007).
Mas quando a polêmica é vazia? Por exemplo, alguém diz que Pelé, hoje em dia, seria no máximo reserva da atual seleção brasileira de futebol. Sem problemas, basta que justifique a tese. Simplesmente dizer que Adoniran é um sambista de 2ª categoria, passa a impressão de que apenas o gosto, ou a incompreensão, ou até o preconceito do articulista está
Caso idêntico à musica andina. Difícil crer que Fagner tenha dito o que disse no contexto apresentado. O próprio Marcelo Tas gentilmente se justificou a este blogueiro, dizendo não ter nada contra a música andina, mas sim contra o esteriótipo “bicho-grilo” e seu canto de protesto (o problema então é a esquerda?!). A matéria passou de roldão sobre uma gama de compositores, como Silvio Rodríguez, Horácio Salinas e tantos outros (só para citar dois gênios absolutamente desconhecidos para os brasileiros), como se a existência deles nada significasse.
Obs. 1: este texto foi publicado no Observatório da Imprensa:
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=437FDS004
Obs. 2: Como curiosidade, registre-se o fato de Clara Sandroni (atual parceira artística do chorão Maurício Carrilho) ter gravado duas jóias de Sílvio Rodríguez em seus primeiros trabalhos (discos belíssimos disponibilizados no blog http://sombarato.blogspot.com).
“Mas é indiscutível que hoje a produção e distribuição de gravações via internet não só coloca o artista em comunicação direta com o consumidor, mas elimina de vez os intermediários (ou atravessadores?) que durante quase cem anos fixaram preços e ganharam o que bem entenderam.” (João Marcos Coelho – O Estado de São Paulo, 27/05/2007).
Por vinte míseros reais, você recebe em sua casa o recente e extraordinário cd “Luperce Miranda por AQuatro”
(http://www.dudumaia.com). Não, não; muito embora você vá se regalar com este cd, isto não é uma propaganda; é apenas a constatação da independência do artista proporcionada pela tecnologia. E do ouvinte também, que está deixando de ser tutelado pela grande mídia, nem sempre o melhor canal para filtrar o que é bom ou ruim, quando não pautada por interesses estranhos à música:
“citando a revista inglesa Gramophone ... (o jornalista inglês Norman) Lebrecht denuncia a promiscuidade desta respeitada publicação com as gravadoras .. 'As resenhas', denuncia Lebrecht, 'eram rotineiramente mostradas para os chefões das gravadoras antes de serem publicadas, e em alguns casos, modificadas.” (idem).
Bandolim Brasileiro – AQuattro toca Luperce Miranda - a maior homenagem, entre todas, ao mestre do bandolim. Um cd somente com suas composições, por si, já seria uma bela iniciativa, mas o “olhar” sensível deste quarteto redimenciona sua obra. Pegaram na veia! Desde a escolha do repertório (quantos choros bonitos Luperce tem!), até detalhes nos arranjos (o rítmo propositalmente acentuado em Pixinguinha - um achado!), tudo é muito inspirado, tocado com alegria e sincera devoção.
João Pernambuco & Rogério Guimarães (1926)
João Pernambuco & Zezinho (1929)
http://rapidshare.com/files/182235047/Jo_o_Pernambuco.rar.html
Obs.: Recordando (com Zezinho) mais parece uma reelaboração de Mimoso (c/ Rogério Guimarães) do que propriamente outro choro. Sendo ou não a intenção de Pernambuco, é de se notar a estonteante beleza da 2ª parte de Recordando com a pequena modificação. Note-se, também, a semelhança entre Recordando e Furinga, de Ernesto Nazareth (ouvir em http://www.sovacodecobra.com.br/2007/09/furinga/).
JOÃO PERNAMBUCO – TODA A OBRA VIOLONÍSTICA POR ANGELO ZANIOL – EM 16 OUTUBRO DE 2007
Homenagem a João Pernambuco
no 60° aniversário de falecimento
A 16 de Outubro do ano corrente vai cair o 60° aniversário da morte de João Pernambuco, violonista-compositor popular sempre nobremente inspirado.
Infelizmente muitas de suas composições, talvez a maioria, pereceram com ele por falta de um anjo bom que pudesse anotá-las e assim preservá-las. Pernambuco não era analfabeto, como já foi dito, mas provavelmente era incapaz de escrever com plenitude a sua própria música, que de costume improvisava e depois guardava em sua prodigiosa memória. Aconteceu, portanto, que sobreviveram unicamente aquelas composições que conseguiu gravar ou foram publicadas quando ele ainda estava vivo. Outras músicas de Pernambuco chegaram até nós em manuscritos: nenhum deles aparece autografado e infelizmente a maioria se apresenta como simples esboços, amiúde contendo erros e incongruências. São em tudo pouco mais de trinta peças, todas porém duma fulgurante beleza.
Para comemorar o aniversário em questão, publicarei no site www.joaopernambuco.com, no dia preciso em que faleceu Pernambuco, todas as sobreditas composições (para ouvir em MIDI files) arranjadas para dois violões, onde tentei recriar seu espírito genuíno (em duo, portanto, como João gostava e gravava sua música, pois soa efetivamente muito melhor, mais rica e pregnante). As partituras destes arranjos (para imprimir em PDF) poderão também ser adquiridas se der-se o caso, tomando contato comigo.
Assinado:
Angelo Zaniol
Pesquisador e compositor italiano
angelozaniol@gmail.com
Na entrevista que segue, Angelo Zaniol revela entre outras coisas: como o choro chegou à Europa pela primeira vez com estrondoso sucesso; como se apaixonou pela MPB e por João Pernambuco em particular; e, finalmente, com quais objetivos nasceram os seus arranjos.
Hélio
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